NATHESKIA BRIGIDO – Flores e humanoides na rodoviária [crônica]
NATHESKIA BRIGIDO – Flores e humanoides na rodoviária [crônica]

NATHESKIA BRIGIDO – Flores e humanoides na rodoviária [crônica]

Segunda à noite, ela chegaria de viagem e eu morri de saudade por quase quinze dias. Por mais que eu tentasse ser algo maior que só uma pessoa, sentimento comum entre escritores, eu sou só uma pessoa, e as pessoas sentem saudade. Eu só sabia sentir saudade. Não escrevi nada de bom durante esse tempo sem ela, não li nada da minha lista anual, nem tive profundas experiências que antecedem grandes encontros. Eu simplesmente vivi minha rotina mediana, produzindo pouco, sofrendo os mesmos sofrimentos e amando os mesmos amores. Duas semanas tão preguiçosas quanto as de quarentena, e eu me sentia em quarentena até no meio da rua, porque sabia que estava privada de uma liberdade que me foi tirada de maneira tão brusca. Quando me despedi, não sabia que amava tanto, por mais que já amasse muito.

Aí finalmente chegou segunda e eu pensei em comprar flores para recebê-la na rodoviária. No início da tarde, fui empolgada comprá-las porque pensei que flores são algo que se dá quando se ama. Antes de me sentir estranha fazendo um gesto tão humanoide, tentei lembrar que sou humana e que humanos dão flores. Tentei não me enganar achando que era pouco, que eu queria, na verdade, dar dois volumes de livros sobre os olhos dela, ou embalar o resto da minha vida num papel de carrinho Hot Wheels. Porque humanos não drenam três litros de sangue e engarrafam para seus amores, nem rasgam seu peito com as unhas até o coração saltar como um palhaço de caixa. Humanos dão flores e eu acho que eu deveria também. Fingindo que sou, escolhi as mais bonitas e cheirosas, paguei e fui pro carro. Não sabia bem onde colocá-las porque nunca dei flores a ninguém. Tive medo de amassá-las, delas murcharem no caminho. Arrumei de um jeito redutor de danos e dirigi com cuidado para o trabalho, como se já carregasse ela ali no buquê.

Pedi que minha irmã me deixasse na rodoviária já à noite. Fui falando sobre a velhice dos nossos pais, a infância dos nossos primos e pensando sobre a morte dos nossos nem nascidos filhos, enquanto me distraía da ideia de ficar parada no meio de uma rodoviária segurando flores. Flores que ela podia não gostar. Não acho que as acharia feias ou fedidas, mas talvez ela só não ache nada demais e prefira outra coisa, qualquer outra coisa. Pensei se daria um carneiro, uma árvore, um terreno no Aquiraz, a Suma Teológica, um terço, meus quatro sisos, minha primeira foto 3×4, mas aí me lembrei que quando as mulheres amam, elas amam assim, então ela deve amar também. Ela deve ser que nem todo mundo que gosta de flores porque são lindas e cheirosas, e ela deve gostar de mim, gostar o suficiente até para fingir que gostou das malditas flores.

Não conseguia tirar da cabeça que meu aluno me disse mais cedo que elas eram laranjas, mas eu comprei achando que eram caramelo. Branco com caramelo fazia parte de toda uma lógica meticulosa das cores. Só que eu não sei os nomes das cores ou não sei ver bem algumas tonalidades, ainda não descobri qual meu defeito ocular. Agora, meu defeito em geral eu sabia o que era: a completa consciência de que era um corpo numa rodoviária à noite segurando um buquê. Ou talvez eu fosse só alguém com flores para outro alguém de quem eu sentia tanta falta. Eu tentava lembrar que eu era só eu, não um grande ser criador de sentidos e manipulador da linguagem, enquanto balançava as pernas e olhava com tédio para os curiosos que me encaravam. Mandei uma mensagem que pedia explicitamente para me avisar quando descesse do ônibus porque eu queria ter uma postura mais amável quando ela me visse. Porque quando ela estivesse chegando, faria sentido meu corpo amolecer todo inclinado e desajeitado, e meu sorriso tímido ir surgindo. Por enquanto, eu mordia os lábios e encarava o chão com tanta raiva porque eu meio que odeio tudo que não amo, e ali eu só amava uma única coisa.

Essa única coisa, que veio em forma de pessoa segurando duas mochilas enormes, já estava a uns cinco passos de mim sem fazer uma gota de questão de avisar e me pegou desprevenida, odiando tudo, estranhando tudo. Só que aí veio a avalanche de coisas que os vivos sentem quando se encontram e borraram tudo que meu vício em ser mais que só viva tentava me roubar. E eu vi naquela cara que as flores eram flores, e que nós éramos nós, e que a rodoviária era rodoviária, e que o tempo tinha passado como o tempo faz, e que os encontros se encontram como as despedidas imploram, e que eu, com roupa de gente e cara de tacho, sou como todo o resto. E ela ainda me disse, com todas as letras, que as flores eram da cor que pensei que fossem. Elas são da cor que eu pensei que fossem.


Natheskia Brigido

Natheskia Isadora Brigido é escritora e mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Escreve e publica crônicas de forma independente desde a adolescência, interessada nas indiferenças e nas pequenas fissuras do cotidiano. Atualmente, publica semanalmente no Substack e colabora com revistas literárias independentes.

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