NEFERTITI BECKMAN – 6 poemas
NEFERTITI BECKMAN – 6 poemas

NEFERTITI BECKMAN – 6 poemas

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olhos

 

teus olhos afogam quem ousa olhar

olhos de fundo de poço escasso

esses tão profundos

que aspiram toda e qualquer praga vinda de fora

não olhos de esfinge

são castanhos de natureza selvagem

ligados ao micélio que tudo renasce

refletindo como água cristalina em minha íris

pupila de balão de ar quente

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1:06h

 

me dilacero

na sorte de achar quem sabe

um toque como o teu

me desmancho em outros corpos

em busca do teu salivar

injeto perversões fantasmagóricas

comprometidas de um ser em frangalhos

minha alma ecoa um som transparente

desgastado por agulhadas

estas também perversas

ação vã de ter a fina lâmina em meus tecidos

um modo de te fazer estátua

um modo de jamais te esquecer em plenos braços

preces vindas de um corpo

condenado ao caixote farpado de carvalho

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metrópole

 

linhas brancas mancham o concreto

essas que convulsionam ao passar dos motores

luzes são apagadas nas construções

a madrugada tem sua beleza particular

faíscas de tijolos e azulejos

vultos sem identidade

folhas dançam livremente sem impulso

lamparinas são velas

a sua apagada

sinto com ardor sua não presença

junto a melodia que sintetiza em meus tecidos

o farfalhar hipnotizante

a minha frente

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Insomnia II

 

A noite é um demônio

regada a comprimidos

a noite é meu lastro

doentio

rastejando como a penumbra do menino Pan

estica e brinca no chão dos morcegos

a noite se exibe

em uma coreografia não ritualística

dedicada unicamente aos mortais

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cálice

 

colírio ardente maldito

me tornei fissurado em ti

até nos mais fraternos momentos

meu corpo é um cálice

em vermelho sangue que transborda

caro colírio

que me corrói epifanicamente

amo-te da maneira mais honesta

que alguém poderia amar

me desculpe

continuarei a transbordar deste cálice

e consumir este colírio

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para onde foi a doce esperança juvenil?

 

 

sonha com esquinas e avenidas neblinas

com o movimento arrastado dos semáforos

com um bilhão de sapatos não sincronizados

quase uma criatura não corpórea

se alastra no tempo urbano

no asfalto espelhado

o prazer em ser desconhecido

um mero rastro percebido no espaço-tempo de

um relógio quebrado

em meu silêncio ecoa meu maior grito

feito de tinta e celulose

tinta rubra transplantada do meu sangue

quem sou eu?

espírito transeunte adoecido

renegado ao aprisionamento

de pertencer a um corpo

cuja putrefação aguarda à espreita

Nefertiti Beckman

Nefertiti Beckman é estudante de Comunicação Social – Jornalismo com disposição para se aventurar na fotografia digital e analógica. Atuou como curadora no Acervo Bem-Te-Vi e atualmente escreve matérias esporádicas voltadas para o jornalismo cultural no site da revista Her Campus.

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