LETTY – Camafeu [resenha]
LETTY – Camafeu [resenha]

LETTY – Camafeu [resenha]

Ana Elisa Volpato

Linguista, tradutora, professora e colunista.

Endereçar às minhas mulheres

Hilda Hilst declarou uma vez que não queria ser lida como distração e, ouso dizer, Letty, em seu livro Camafeu (Urutau, 2026), assina embaixo. À primeira vista, temos poemas curtos, de leitura fluida, quase sem pontuação e com um eu lírico que parodia confissões, o que pode nos dar a falsa impressão de que, em uma sentada, acabamos. Mas, como os farelos que ficam na roupa, na mesa e no prato depois de comer um pão, passamos semanas encontrando o que ficou desta leitura, com o que insiste, com a bagunça que produz como retrogosto. O aviso foi dado: “os pequenos são sempre os mais violentos — / os cachorros / e os poemas” (p. 24).

Se falei em paródia de confissão, é porque, nos poemas de Letty, se há algo de confessável, uma pergunta o sustenta: em que medida é possível confessar um sonho?

“não sei que parte do sonho era narrador e que parte era sonho, não sei se o narrador é confiável” (p. 45).

Desde o poema que abre o livro, estamos nessa zona borrosa entre o sonho e a realidade. Flashes de cenas de becos sem saída e de tempestades, em que se escreve a impossibilidade de dar sentido ao porquê de comer sem gostar ou de se molhar sem querer. Por pequenos que sejam os poemas, por cortadas que sejam as imagens, estamos sempre nos deparando com o que não cabe plenamente em um livro. O eu lírico acorda para continuar sonhando, cuspindo caroços que também não cabem na boca, assim como não cabem as migalhas da semana, não cabe o cansaço no corpo. Faz-se dos dias da semana e do corpo metáforas daquilo que transborda. É sem cabimento este livro bem acabado.

Letty trabalha a linguagem de modo semelhante ao que há de trabalho no sonho: dividindo-se através da escrita, ela se (trans)figura, ao mesmo tempo, em produtora e produto: “eu sou a dona da corda a mão que segura a corda e também sou a própria corda em carne osso” (p. 14). E o sonho não é algo que pertence aos finais de semana; seus poemas são uma conta a pagar, o que se faz nas segundas-feiras: dar forma à seriedade dos nossos tempos.

E esta forma do livro se divide em três partes: a primeira, “vitrine”, aquilo que se dá a ver e a ler. Assim como em uma loja, há um certo jogo de esconde-esconde com quem entra querendo provar, porque o mais interessante já estava escancarado. O leitor é quem bate de frente com o vidro, caindo em seu universo poético como quem cai no sono: sem dar-se conta, já se está.

Na segunda parte, temos a “memorabília”: objetos de grande valor histórico e/ou emocional — a faca, o palito, o anzol, os anéis, o vinil —, tudo aquecido por certas mãos e certos nomes, que ora são devoradores, ora festa.

Na última parte, “farelos”, temos o que resta deste percurso, o que se repete. Inscreve-se nela tudo aquilo que poderia ser lido e que não foi. Prepara o leitor para que ele se implique e participe disto que lê e que, de fato, só se consagra quando produzido a quatro mãos.

E aí entra o pulo do gato: este livro é um diálogo com as poetas-mulheres com as quais se nutre. A escritora só se fez possível porque é leitora. E aí temos, escondido no meio das letras de Letty, um poema de Ana Cristina César:

“tenho vontade de gritar, sair correndo, agendar uma mastopexia (sem silicone) e fugir do hospital ao voltar da anestesia. Ficar propositalmente com um peito maior que o outro e por isso não conseguir mais ler livros.” (p. 17)

Os de Ana C., em Inéditos e Dispersos, são assim:

I

Enquanto leio meus seios estão a descoberto. É difícil concentrar-me ao ver seus bicos. Então rabisco as folhas deste álbum. Poética quebrada ao meio.

II

Enquanto leio meus textos se fazem descobertos. É difícil escondê-los no meio dessas letras. Então me nutro das tetas dos poetas pensados em meu seio.

Há em ambas as autoras algo que faz do corpo — e, mais especificamente, dos seios — o lugar em que a leitura e a escrita se interrompem e se produzem mutuamente.  Corpo, leitura e escrita. Escrita que é, em si mesma, um percurso de leitura que nutre. E talvez seja justamente aí que a leitura deixe de ser distração e passe a produzir escrita.

E são tantas as mulheres que aparecem nomeadas nos poemas de Letty: a mãe, a avó, Simone, Madonna, Adélia, Angélica Freitas — mulheres porretas que acham tudo um porre: tanto de ruim, como de porrada, como de bêbadas. E a formulação que as nomeia como “minhas mulheres” é particularmente interessante: escrever para e depois de outras mulheres — “mulheres” que só podem ser “minhas” na medida em que não o são, isto é, são muito mais as mulheres que possuem o eu lírico do que o contrário. E é a essas mulheres que se endereça (tanto no sentido de “dar um endereço” como de “se dirigir a”) este caminho labiríntico entre o que se dá a ver, o que se guarda e o que resta:

“preciso muito / de uma mulher” (p. 25).

Na estreia, a poesia de Camafeu fica “tão mocinha”, mas se filia a tantas gavetas descabidas de ontem, de hoje e de amanhã. Com o que há de divertido e também de grave: “tem horas que o verso só pode ser sério se uma criança o ler” (p. 17). Corpo textual denso o suficiente para muitos mal-entendidos, jogos de espelhos, feitiços e brechas onde nós, leitoras, podemos entrar e respirar. Depois, fechamos o livro e seguimos. Mas não o abandonamos: um nome, uma mulher, um verso — algo permanece como farelo encontrado na roupa, na mesa e na boca, uma razão para voltar e ler de novo, como se fosse a primeira vez.


Letty é o nome artístico de Letícia Bergamini Souto. Mestranda em Teoria e História Literária pela Unicamp. Bacharela em Estudos Literários pela Unicamp. Membro do U-Topos (Centro de Estudos sobre Utopia). Pesquisadora, educadora popular, tradutora [en>pt], preparadora e revisora de textos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *