ISABELLA INGRA – amo esse silêncio [crônica]
ISABELLA INGRA – amo esse silêncio [crônica]

ISABELLA INGRA – amo esse silêncio [crônica]

Quando eu tinha nove alguém perguntou se eu preferia, quando triste, desabafar com alguém e ou guardar para mim e eu prontamente, sem nem pensar a respeito, como quem já sabe o que sabe, disse que em momentos de tristeza, eu engolia tudo para mim. Na época estavam investigando o aparecimento da vitiligo em mim e por que as manchas se espalharam rapidamente em meu rosto. Em silêncio eu aprendi ser a coisa que sou, aprendi a segurar a dor lá dentro e vomitar quando ela perde a força. Isso é quase um papo de terapia, mas é ainda mais que isso. Vez ou outra eu percebo que falar é abafar um desconforto, tirando o falar para um psicólogo, penso em mim aqui como as pessoas que contam dores e prazeres sem parar e comunicam e se projetam, uns lindamente, outros lamentavelmente. Pessoas falam para que se sintam confortáveis, contam histórias sobre as próprias vidas na fila, no trabalho, no metrô e não é uma crítica, eu sempre achei bonito isso nas pessoas, não somente bonito, mas também curioso e audaz, vejo uma certa coragem. Também amo e venero minhas amigas faladeiras, quisera eu pensar e falar tudo que elas falam e quando isso me acontece, quando jorro palavras feito corrente de água, um tempo depois, me atravessa o desconforto de ter falado demais, de ter agido com as virtudes que nem tenho, o desconforto de saber que digo coisas seríssimas rindo, que digo séria as partes engraçadas da minha vida, que se eu falar alguém pode sair ferido de mim, que não penso em perder a piada, que o veneno escorre pelos cantos da minha boca, que ninguém merece saber sobre o cachorro da minha mãe que sumiu, minhas percepções perdidas e tudo isso.

A mim é tão raro estar no frenesi da conversa, embora aconteça entre os íntimos e é lindo, mas fora isso, até mesmo na família, eu me calo e ninguém sabe quem eu sou. Claro que comento uma coisa ou outra numa mesa de bar, numa festa com desconhecidos, na recepção de um lugar, mas sempre saio dessa pensando que de alguma forma, acabei  traindo o desejo do silêncio.  As pessoas carregam até os seus palpites, mas me envaideço com a ideia de que não sabem nada de mim. E não pensem que quando estou alegre estou mais falante, passei por grandes gozos quieta também, celebrando baixinho, mas sentindo abundância.Tantas vezes eu tenho medo de não achar a palavra certa.


Isabella Ingra

Isabella Ingra, nascida em Brasília (1993), é poeta, atriz e professora de literatura, mora atualmente em Rio das Ostras- RJ e escreve diariamente sobre os atravessamentos da vida. Se lança numa escrita performática, inflamatória e viva. Já liderou diversos encontros de poesia e publicou recentemente o livro “Picê”, seu primeiro compilado de escritos.

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