JOÃO VITOR FERREIRA – 04 poemas
JOÃO VITOR FERREIRA – 04 poemas

JOÃO VITOR FERREIRA – 04 poemas

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POEMA DOS NOVE ANOS

 

Avião de papel

domingo de sol.

 

Avião de papel

que atravessa o céu

sem encontrar pássaros

no meio do voo,

sem passageiros,

nem aeromoça.

 

Avião de papel

que corre pelo céu

a caminho da felicidade

numa tarde sem chuva,

sem turbulência.

 

Leva minha sensibilidade,

folha rabiscada a lápis.

 

Avião de papel

que corre pelo céu:

tão incrível o teu pouso

na terra do meu coração azul.

 

Tão pequeno,

cabe inteiro

nas minhas mãos.

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O BICHO ERA EU

 

I

fugi da minha própria imagem

como quem já espera castigo,

como se fosse pecado nascer

com a marca de outras tribos.

 

pés de cabra,

asas de garça,

sorriso em carne viva.

 

não há retratos na estante,

a infância não ganhou moldura.

as fotos da formatura foram rasgadas,

e as do pai — borradas de caneta.

 

não há registros do ontem,

do hoje.

não há fotografias — não há.

 

um dia ainda pinto autorretratos

e revelo a face cínica da angústia

roendo o peito no meio da madrugada

(só para me fazer poeta)

 

II

fujo da minha própria imagem.

corro pelos quatro cantos

feito bicho acuado do mato,

catando restos no fundo do pátio.

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JOÃO NINGUÉM

 

todo dia vou dormir

quando a cidade acorda

e todo dia — minha vida

vai embora

 

na janta fria que escorre no ralo,

no orgasmo perdido entre mil orifícios,

no grunhindo desgovernado

desse choro escondido.

 

todo dia a mesma história,

e toda hora — a mesma hora.

a cor vai se tornando

(invisível)

 

derrubo os ombros no abismo

correndo atrás de bala perdida.

nas manchetes que invadem

o noticiário

nenhum poeta enriquecido.

 

João, João, se sua vida fosse um cão

com que roupa você iria

desfilar na Avenida?

quantas pernas lamber-ia

para se tornar inesquecível?

 

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CAÇADOR DE PALAVRAS

 

tenho 27,

brinco com meus gatos

como se fossem os únicos

seres do universo.

 

já me decepcionei demais

comigo, com os outros.

comigo e com os outros

ao mesmo tempo.

 

gosto de desenho animado —

a hora da aventura.

camundongos aventureiros.

 

quando sinto o cheiro de guache

lembro do passado. o sono chegava;

nem sempre longo, nem sempre sagrado.

 

quando sinto o cheiro de guache

quero pintar o mundo. antes,

fazer um borrão na história,

na minha própria face desvairada.

 

não adianta tanta afobação

para vender tristeza

no telejornal.

 

a fome existe.

a compaixão não.

meu nome não é requisitado.

 

não sou santo,

não quero ser santo.

sei das flores amassadas,

das visitas inesperadas

e da pólvora na mesa.

 

não sou santo,

não quero ser santo.

talvez uma divindade falível.

pássaro-ferido. pássaro-palavra.

 

me recuso a viver

onde amor é implorado.

prefiro

voar

com as mariposas.

 

mesmo com medo,

o amor dissolve em minha boca

com gosto doce de amoras roubadas.

 

mesmo condenado,

carrego a flecha de um caçador de palavras.

João Vitor Ferreira

João Vitor Ferreira escreve com a intensidade do fogo e a fluidez da água — uma característica que atravessa não apenas sua poesia, mas também sua forma de compreender o mundo. Seu encontro com a literatura aconteceu ainda na infância, quando descobriu a poesia em uma coletânea de poemas românticos presenteada à sua mãe durante uma internação hospitalar. O encantamento foi imediato e, aos nove anos, já escrevia seus próprios versos e participava de recitais na escola. Natural de Maceió (AL), terra de Jorge de Lima e Lêdo Ivo, é jornalista, roteirista, arte-educador e dedica seus estudos a temas como saúde mental, espiritualidade, infância, território e cultura. Em 2020, publicou Do Avesso ao Verso, livro digital autobiográfico em que narra sua experiência com a depressão. Desde então, passou a utilizar a escrita como ferramenta de sensibilização para o cuidado com a saúde mental e o bem-estar psíquico.

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