Ao subir as escadas de aço pintadas de cinza escuro, Tamara sentia que, a cada degrau, os pés ficavam mais pesados que o próprio material em que pisava.
Primeiro lance.
Segundo lance.
“Cheguei”. Ela pensou tão animada quanto a um animal numa fila de abatedouro.
Logo à sua frente passa a mocinha do financeiro que ela nunca recordava o nome, e que possui um carisma idêntico a uma porta. Mas, a fulaninha era eficiente e rápida em seu trabalho. Um milagre nos dias de hoje.
Com um sorriso amarelo sem mostrar os dentes, Tamara começa:
– Bom dia.
– Bom dia – responde a mocinha do financeiro com um sorrisinho tímido. Ela em seguida olha para baixo como se quisesse acabar rapidamente com qualquer tipo de interação.
Ao entrar na sala principal onde todos se sentam quase que colados uns aos outros, Tamara prepara um sonoro bom dia. Mas, inexplicavelmente ou não, sua voz falha e ela só consegue balbuciar qualquer coisa que parecesse próximo daquilo que ela queria de fato dizer. Tudo bem. Apenas o menino da T.I. respondeu.
Tamara então deixa suas coisas na baía de cor branca e segue para a copa. Antes de abrir a porta ela já ouve o vozerio.
– (mais um) Bom dia, pessoal! – diz Tamara mais animada.
Aqui ela recebe múltiplas respostas de colegas. Afinal de contas, quem fica desanimado comendo às custas da empresa? Enquanto ela pega seu café e corta o pão francês, Tamara olha para os lados enquanto ouve as conversas: fofocas familiares, briga no trem, o jogo de futebol do domingo.
“Puta que pariu, quanta conversa fiada”. Pensa ela. Tamara decide mudar o foco.
– Caio, você conseguiu terminar aquela análise de performance da campanha em shoppings que te pedi faz umas 3 semanas?
O analista júnior apenas acena que sim com a cabeça e dá um sinalzinho de positivo.
– Me manda ainda hoje, então? Se não for te incomodar, né? – Tamara dá uma risadinha sarcástica.
– Belê. – responde Caio encerrando a conversa e voltando novamente para o vídeo em seu celular.
“Maravilha! Já matei uns trinta minutos só nessa brincadeira de tomar café na firma.” Tamara pensa aliviada.
Ela volta para a sua mesa e começa a preparar os relatórios das apresentações do dia. Enquanto estava compenetrada Tamara ouve de longe um barulho que descobriu ser alguns estalos com o dedo. É o CEO pedindo atenção.
– Bora começar a semana com gás, pessoalzinho!
Depois de uma lista interminável de atividades de cada área para aquela semana, O CEO continua:
– Pessoalzinho, eu tô bastante preocupado com os KPIs esse mês. Precisamos garantir o share of wallet do nosso cliente, ok? Bora bater meta. É mês das mães e tenho certeza que joia é o melhor presente pra essa ocasião. Joia, pessoalzinho, deveria ser top of mind na lista de presentes para esse mês. Eu conto com vocês, principalmente o time de marketing e o time comercial pra fazer acontecer. Vamos voar, porra!
Enquanto o CEO falava efusivamente e apaixonadamente sobre trabalho e empreendedorismo, era impossível ignorar a forma como ele colocava a mão dentro da calça. Coçadas, cutucadas e colocadas de lado brigavam pela protagonização do discurso. Tamara vez ou outra fitava o celular pois sentia um constrangimento tão pesado em toda a sala que ele poderia ser cortado com uma faca cega.
Em seguida o CEO passa para a parte que mais adora.
– Claro que eu não posso terminar esse papo sem uma mensagem pra vocês. Pessoalzinho, eu tava vendo um vídeo de um CEO de uma empresa de tecnologia na Austrália. Não me lembro o nome dele agora, mas o que o cara falou ressoou demais em mim: mindset de abundância. Isso serve principalmente pra vocês vendedores. Vocês precisam ter mindset de abundância. Sem esse negócio de pensar pequeno. AQUI NÃO! Precisamos desenvolver mais esse tipo de pensamento entre vocês e eu tô até considerando contratar uma consultoria especializada pra nos ajudar nisso. O que você acha, Lú?
– Nossa, sensacional, Henrique. Vou atrás hoje mesmo. – comentou a gerente de recursos humanos com um sorriso largo, forçado e que percorreu toda a sala.
– Então tá combinado, pessoalzinho. Boa semana pra vocês.
Houvessem algumas palmas tímidas enquanto alguns se voltam aos seus computadores e outros saem da sala para a segunda rodada de café na firma.
Entretanto, a palma que mais ressoa no ambiente é a do CEO. A mesma mão que protagonizou o mexe mexe no saco agora é levada de forma grosseirona às costas de pelo menos três caras do comercial.
– Tô de olho na sua meta, hein Padilha! – PLÁ!
– Ô Claudião, fechou bem semana passada, meu velho. Não quero pau mole essa semana não, viu? Bota tudo pra dentro. – mais um PLÁ!
– Ricardo, cê deve estar transando pouco pra entregar essa merda de meta. Quero ver tesão na tua cara, porra!
Todos os caras do comercial pareciam um tanto sem graças com as investidas, mas ao mesmo tempo eles riam e balançavam a cabeça ao chefe de forma positiva reafirmando o compromisso com o resultado ou simplesmente querendo que tudo aquilo acabasse logo.
Tamara sentia que alguém a olhava. Levantou os olhos e percebeu que Ricardo estava a encarando. Quase que buscando refúgio.
– Tudo certo por aí? – pergunta Tamara pelo aplicativo de mensagens online
– Sobrevivendo. Não tive um minuto de paz esse final de semana. O Gaspar não parava de me mandar mensagem me cobrando da minha meta.
Gaspar era o Gerente Regional de Vendas.
– Como assim? No final de semana de aniversário do seu filho? Você não falou pra ele que estava ocupado ajudando nos preparativos da festa?
– Sim, eu comentei. Mas você acha mesmo que ele se preocupa com qualquer coisa além de aterrorizar o time e puxar o saco do CEO?
– Realmente. Ele não tem limites. Perigoso demais.
Hoje era dia de feedback na empresa e todos fomos chamados, um a um, para as devidas salas de reuniões. Pelo aplicativo chega a mensagem:
– Tamara, pode vir na sala 3, por favor? – era a Lú do RH
– Claro!
Ao entrar na sala branca, mesa preta redonda e quatro cadeiras, o CEO e a Lú do RH sentados de frente para a porta convidam Tamara a se sentar também.
– Tamara, vamos lá. – ele começa. Você sabe que a gente te adora aqui, né? Mas Tamara, recebemos duas reclamações sobre o seu temperamento. E olha, você sabe que trabalha muito bem, né? Inclusive eu nunca vi alguém mais dedicada do que você. Poxa, você é muito mão na massa, rápida, responsável. Mas será que você não pode moderar um pouco?
– Em que sentido?
– É que as pessoas te acham muito dura. Às vezes direta demais.
– Certo. E vocês possuem um exemplo prático disso?
– Ah, não podemos falar. É sigilo.
– Entendi. E qual a sugestão?
– Tamara – inicia a Lú do RH – talvez se você for um pouco mais doce, talvez menas severa.
Tamara apenas olhou por um segundo. Queria rir, mas comentou:
– Uma pena que não possam compartilhar comigo um exemplo prático.
– Putz, não podemos expor ninguém, né Tamara? – disse o CEO – você sabe que somos muito éticos aqui. Mas podemos contar com a sua colaboração?
– Entendi. Sim, com certeza. Podem contar sim. Mais alguma coisa? Algo técnico?
– Nada, Tamara – comentou a Lú – você é uma jóia dentro dessa empresa.
– Ok, então. Obrigada.
Ao sair, Tamara foi até a copa tomar água. O CEO veio logo atrás. Ele parecia tenso. Sozinhos no ambiente, ele comentou:
– É muito duro ser empreendedor no Brasil. Tem que ficar em cima de tudo. Cuidar de pessoas é o mais difícil pra mim. Um puta saco. Mas não se preocupe, Tamara. A gente também recebeu reclamações do Gaspar e não deu em nada. Inclusive, eu acho que foi a Carol do comercial. Mas pelo amor de Deus, não comenta com ninguém.
– Claro. Pode deixar.
Na segunda-feira seguinte, Tamara é chamada novamente na sala 3. Ao entrar encontra a mesma configuração na sala, mas dessa vez ela não tem ideia do que se trata.
– Tamara – inicia o CEO – eu nem sei como te dizer isso. Conversamos há alguns dias, mas parece que você não tem jeito, né mocinha? Recebemos mais uma reclamação relatando que você expôs um colega na copa na frente de muitos funcionários.
Tamara apenas arregalou os olhos e sentiu um frio subir a sua espinha.
– Tamara – seguiu a Lú do RH – teremos que te dispensar. Sentimos muito, mas não podemos tolerar esse tipo de comportamento no nosso local de trabalho. Conversamos muito a respeito e não há nada a ser feito.
– Olha, Tamara. Isso é tudo muito triste, mas conte comigo no que precisar. – Ao terminar a frase o CEO se levanta e sai da sala.
Assim que assinou os papéis, Tamara também saiu da sala e mandou uma mensagem para Ricardo:
– Você não vai acreditar o que eu soube do Gaspar.

Jessica Marinzheck é natural do Cangaíba, zona leste de São Paulo, sonhava em ser escritora desde os seis anos, quando costurava livros com papel, lã, lantejoula e cola. Estudou Artes Visuais, voou o mundo, comunicou marcas e traduziu histórias engarrafadas com paixão. Mas foi no intervalo entre taças e partidas que reencontrou sua voz. Hoje, decide enfim seguir o chamado antigo, aquele que sussurra desde a infância: transformar a palavra em abrigo e fazer da escrita o destino que sempre a esperou.

Essa moça! Essa moça! Competência, energia, dedicação, intensidade em tudo que faz!
É sobre isso!!! O morro do piolho/Cangaíba, lugar de superação! E olha ela aí!
Escrevendo!!! E tem muito mais pra chegar!
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Eu amei demais, consegui visualizar todos os cenários e até os rostinhos desta crônica!
Teremos parte 1,2,3? Poor favooor!
Parabéns Jess, você é incrível!