POEMA DOS NOVE ANOS
Avião de papel
domingo de sol.
Avião de papel
que atravessa o céu
sem encontrar pássaros
no meio do voo,
sem passageiros,
nem aeromoça.
Avião de papel
que corre pelo céu
a caminho da felicidade
numa tarde sem chuva,
sem turbulência.
Leva minha sensibilidade,
folha rabiscada a lápis.
Avião de papel
que corre pelo céu:
tão incrível o teu pouso
na terra do meu coração azul.
Tão pequeno,
cabe inteiro
nas minhas mãos.
O BICHO ERA EU
I
fugi da minha própria imagem
como quem já espera castigo,
como se fosse pecado nascer
com a marca de outras tribos.
pés de cabra,
asas de garça,
sorriso em carne viva.
não há retratos na estante,
a infância não ganhou moldura.
as fotos da formatura foram rasgadas,
e as do pai — borradas de caneta.
não há registros do ontem,
do hoje.
não há fotografias — não há.
um dia ainda pinto autorretratos
e revelo a face cínica da angústia
roendo o peito no meio da madrugada
(só para me fazer poeta)
II
fujo da minha própria imagem.
corro pelos quatro cantos
feito bicho acuado do mato,
catando restos no fundo do pátio.
JOÃO NINGUÉM
todo dia vou dormir
quando a cidade acorda
e todo dia — minha vida
vai embora
na janta fria que escorre no ralo,
no orgasmo perdido entre mil orifícios,
no grunhindo desgovernado
desse choro escondido.
todo dia a mesma história,
e toda hora — a mesma hora.
a cor vai se tornando
(invisível)
derrubo os ombros no abismo
correndo atrás de bala perdida.
nas manchetes que invadem
o noticiário
nenhum poeta enriquecido.
João, João, se sua vida fosse um cão
com que roupa você iria
desfilar na Avenida?
quantas pernas lamber-ia
para se tornar inesquecível?
CAÇADOR DE PALAVRAS
tenho 27,
brinco com meus gatos
como se fossem os únicos
seres do universo.
já me decepcionei demais
comigo, com os outros.
comigo e com os outros
ao mesmo tempo.
gosto de desenho animado —
a hora da aventura.
camundongos aventureiros.
quando sinto o cheiro de guache
lembro do passado. o sono chegava;
nem sempre longo, nem sempre sagrado.
quando sinto o cheiro de guache
quero pintar o mundo. antes,
fazer um borrão na história,
na minha própria face desvairada.
não adianta tanta afobação
para vender tristeza
no telejornal.
a fome existe.
a compaixão não.
meu nome não é requisitado.
não sou santo,
não quero ser santo.
sei das flores amassadas,
das visitas inesperadas
e da pólvora na mesa.
não sou santo,
não quero ser santo.
talvez uma divindade falível.
pássaro-ferido. pássaro-palavra.
me recuso a viver
onde amor é implorado.
prefiro
voar
com as mariposas.
mesmo com medo,
o amor dissolve em minha boca
com gosto doce de amoras roubadas.
mesmo condenado,
carrego a flecha de um caçador de palavras.

João Vitor Ferreira escreve com a intensidade do fogo e a fluidez da água — uma característica que atravessa não apenas sua poesia, mas também sua forma de compreender o mundo. Seu encontro com a literatura aconteceu ainda na infância, quando descobriu a poesia em uma coletânea de poemas românticos presenteada à sua mãe durante uma internação hospitalar. O encantamento foi imediato e, aos nove anos, já escrevia seus próprios versos e participava de recitais na escola. Natural de Maceió (AL), terra de Jorge de Lima e Lêdo Ivo, é jornalista, roteirista, arte-educador e dedica seus estudos a temas como saúde mental, espiritualidade, infância, território e cultura. Em 2020, publicou Do Avesso ao Verso, livro digital autobiográfico em que narra sua experiência com a depressão. Desde então, passou a utilizar a escrita como ferramenta de sensibilização para o cuidado com a saúde mental e o bem-estar psíquico.

