AURYANA ARCHANJO – O peso dos trinta e cinco [conto]
AURYANA ARCHANJO – O peso dos trinta e cinco [conto]

AURYANA ARCHANJO – O peso dos trinta e cinco [conto]

Abraçada na privada, com o dedo na garganta, Fabiana refletia o passado.

Pouco antes, se olhava no espelho, nua, com desenvoltura e sem pudores. Um dia já se envergonhou do próprio corpo, mas depois de muita cabeçada, resolveu que cuidaria dele como um templo sagrado. Aprendeu isso num retiro holístico. Era adepta a esses encontros. Virava de um lado para outro e observava suas formas e a barriga saliente, nem magra, nem gorda, insatisfatória, sempre.

Desde aquela consulta com a ginecologista, daquela pergunta inoportuna, não conseguia mais parar de pensar no peso dos 35 anos. O peso, sempre um fantasma atormentando as dobras e os pensamentos. Idade limítrofe para um propósito pouco definido. Barricada de guerra em que se via sozinha para atirar ou morrer.

Na adolescência, enquanto ainda tinha tempo para crises existenciais e amores não correspondidos, a situação era pior. Vivia com as amigas na praça depois do almoço, onde paquerava os rapazes da outra escola, mais velhos e interessantes. Mas eles nunca a percebiam. Era gorda, rolha de poço, baleia. Riam da esperança que ela tinha de ficar com algum deles. Invejava a atração que as amigas magras provocavam. 

O dedo na garganta parecia uma solução plausível. Comia toda a travessa da melhor batata frita do mundo feita por sua avó e se debruçava na vitrine de guloseimas suculentas da padaria de Dona Marta, uma forma de dar conta do oco que sentia no meio do peito. Depois, simples, era só se debruçar sobre a privada e iniciar o ritual de esvaziamento. Sentia a gordura sair junto com o vômito e aquela sensação a fazia bem. O nojo do gosto na boca e do cheiro de comida semidigerida não superava o prazer da leveza depois de tudo terminado.

Fabiana passou meses preenchendo e esvaziando, preenchendo e esvaziando. Buscou nas redes sociais formas cada vez mais aprimoradas de emagrecer. Eram muitas as receitas. Mulheres exibiam seu antes e depois, que as deixavam esbeltas, gostosas, atraentes e sedutoras. Sua mãe e avó desconfiaram de doença. Afinal, era uma família de gordos, que mal tinha nisso? Mas ela não os ouvia mais e rejeitou o que era oferecido em casa. Sentia raiva da fritura, do refrigerante, dos pratos cheios e das bocas nervosas com dentes que dilaceravam a comida como quem goza de prazer.

Não é à toa que, com 18, Fabiana resolveu sair da cidade onde a praça era a principal diversão. Não aguentava mais ver as mesmas caras e escutar calada as mesmas chacotas. Emagreceu o suficiente para ser aceita e o insuficiente para ser amada. Não conseguia mais conviver com aquela gente que sempre a desprezou. “Na cidade grande será diferente”, afirmava.

Agora estava ali, mulher adulta, em frente ao espelho refletindo os anos que se passaram e sentindo que quase nada mudou. “Aquela maldita ginecologista!”. Foi só para uma consulta de rotina, um Papanicolau, um exame de mama e teve que escutar: “Você pensa em ter filhos? Trinta e cinco é uma idade limite”. Fabiana foi pega desprevenida. Olhou para a médica indignada se sentindo invadida num espaço impenetrável. “Não sei”.

Saiu do consultório em silêncio. Depois caiu em prantos. Anos se passaram e ainda se sentia aquela adolescente que mal conseguia se olhar no espelho. O relacionamento mais sério que teve foi um mês de transa com um homem que sumiu em seguida. Se bem que, não precisava de um homem para se ter um filho, mas seu corpo flácido pela sanfona de décadas de briga com a balança, ficaria de que forma? Disforme. Ainda mais? E o desejo? Não sabia se queria ter um filho, dois. Quem era a médica para dar limite, decidir isso por ela? E porque tinha que decidir ali, aos 35, assim, de supetão, e ainda na ausência de um copulador que, provavelmente, a despacharia logo em seguida?

Quem era aquela médica para entrar assim na sua intimidade? Só porque via milhares de vaginas, se sentia no direito de opinar? Pensava que o mundo era uma linha reta com eventos pré-programados e estáticos? A vida é assim: nasce, cresce, se apaixona, ama, encontra alguém para se casar – de preferência antes dos 35 –, copula, engravida, cria um filho – de preferência saudável e magro – e deixa seu legado para a velhice e a morte. Fim.

Não! Fabiana sabia que não funcionava desse jeito. Foi rejeitada uma vida inteira pela sua aparência, pelo excesso de curvas, que saltavam das roupas que conseguia vestir. Passou muito tempo se sentindo culpada por entrar numa loja e não ter nada o que coubesse; por perceber no olhar das vendedoras magras, o deboche discreto. Se cansou de sair na balada e os homens a olharem com pena, dó, desprezo e não com tesão. Se embriagava para se sentir leve. O corpo pesava, o espírito pesava, os pensamentos pesavam. Era peso demais para suportar. Bebia e vomitava. Não precisava mais enfiar o dedo na garganta. Encontrou outros meios para se sentir desprezível.

Não bastasse ser fora da curva do padrão de beleza, agora estava prestes a entrar fora da curva da procriação humana. Aquela pergunta, subitamente, a contagiou com o desejo de ser mãe, mas não estava preparada para encará-la. O mesmo buraco do amor que tinha para dar era o do amor que esperava receber. E era um abismo, em que se via pendurada por uma corda que poderia se romper a qualquer momento.

Naquele dia, depois de tomar coragem e a encarar nua de frente para o espelho, de colocar as mãos em sua barriga, de se imaginar grávida de alguém que a amasse e de travar uma luta interna para se convencer de que seu corpo era templo sagrado, Fabiana foi até o banheiro, se ajoelhou diante da privada e enfiou, depois de quinze anos, o dedo na garganta. Prestes a repetir o passado, se controlou por alguns segundos, o suficiente para não colocar tudo a perder e deixar a corda arrebentar.

Fabiana se levantou, respirou fundo, lavou o rosto e entrou no chuveiro, massageando cada dobra de seu corpo com o prazer de quem deseja a si próprio.

Naquele dia, vestiu sua roupa mais justa e curta e usou seu salto mais alto. Destacou os olhos com sombra-brilho e passou o batom vermelho esquecido na gaveta. Saiu de casa deixando sua gordura à mostra e seus 35 à deriva.

Naquela noite, não bebeu, não comeu, não forçou o vômito. Somente se permitiu amar e ser amada.


Auryana Archanjo

Auryana Archanjo escreve poesia e contos. Publica desde 2020 em Revistas e Antologias, tendo sido selecionada no II Festival Internacional de Poesia de Betim; vencedora no 19º Concurso de Poesia de Poços de Caldas-MG; finalista no 33º Concurso de Contos Paulo Leminski de Toledo-PR e selecionada para a Antologia do VII Prêmio Bunkyo de Contos.

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