E AQUI TANTOS ROSTOS
palavras que percorrem rostos pela linguagem do traço e cumplicidade da íris.
Enxergar rostos apagados como espelhos, paradoxos,
entre tragicomédias e a veracidade de um gesto,
da repetição à exaustão até que se torne verdade,
da invencionice,
entre progresso e massacre, terra e fome, mercado e mito, a memória
na palma de uma mão que não morre, o olho na ponta da faca
apontada para o que não tem nome.
A faca que se aproxima do olho
como se o músculo atrofiado fosse de sempre duro. Um estímulo
mover um dedo
uma pálpebra
erguer um punho
um rosto acaricia a musculatura e memórias celulares colidem pelo
toque de seus dedos
reconhecimento nervoso dos mapas,
o contorno ilusório de um corpo, de uma cerca
é um limite
outro rosto se atenta à história das cicatrizes e textura, formato e
violência do corte:
– aqui caberia um país inteiro!
e se despede com um beijo
de bocas
que sopram estátuas de sal em direção ao mar
e, deste sal,
que é suor e grosso
é carnaval
bocas anárquicas do fim do mundo
com gosto de cachaça e sangue,
bocas com sede
bocas que renascem em outras línguas e nessas línguas imergem no
íntimo e do íntimo
bocas que dilaceram bocas
bocas póstumas, bocas putas.
ESCREVER UM POEMA DESARMARIA UMA BOMBA ?
palestinas
mesmo quando
sob os destroços
(depara com jesus recém-nascido, envolto na keffiyeh e sente
as cores da bandeira)
mesmo quando
sobre as lacunas
(ocupá-las com nomes esquecidos)
escrever um poema, cometer um delito
como quando
uma gota de petróleo
(e as de choro e sangue quente)
como quando escorrem na ordem geográfica
como quando se carrega a casa nos ombros
como se culpássemos as mãos e não as cabeças
escrever um poema, cometer um delito
como se
um poema fosse
uma criança
como se
um poema fosse uma pergunta
como se
um poema fosse
um prato de comida
como se
um poeta fosse
quem ousa desarmar uma bomba.
QUANDO ME REFIRO A VOCÊ
me refiro a todos os murmúrios das ondas do mar e do vento
como se perguntasse a um reflexo o que se encontra de errado nos
homens, e ele me respondesse com um sorriso, manso, mudo,
e ali estariam todas as respostas.
Há certos dias em que me esqueço de certas palavras,
como se não existissem
como quando se sonha sair sem roupas,
como quando se caminha sem direção
e você está lá, sem ter um nome
um menino, uma mãe, uma mulher qualquer em uma rua qualquer
é um instante entre o dia e a noite,
o encontro improvável entre extremidades
desobediente, indisciplinado
o olho na ponta da faca
porque a voracidade dos dias é dura demais
e isto é menos sobre um país do que sobre
Há algo aqui que te devora, assim como fazem com tudo que
transborda.
Há um gosto metálico na boca, talvez do peso
é uma sensação
a liberdade é um desaforo,
um estilhaço
uma dança, um ferimento
saiba que os dois pulsam assim como pulsam
imagine as cordas de um instrumento,
depois os dedos
é isto a música.
Sou uma cadela e babo raiva pelas órbitas
porque tenho medo de um olho que é morto
medo da morte pessimista e derrotada
sou uma cadelinha
latindo essa espécie
de indignação.
CORRO
como um animal limitado
e minhas patas de cadela
e meu instinto animal
ouço uma espécie de música que nasce do,
ou seja, silenciosa
e todos os espaços em branco cheios de saliva babo, rosno
retorcendo meus braços tentando alcançar outros braços:
esses também procuram.
E o som preenche este vazio, transborda
pequenos pontos irradiam e formam imagens:
são constelações
– existe presença no escuro,
assim me contestam as estrelas
como corpos celestes dentro e fora do meu corpo
excessivamente fortes e explodem e despencam
a imagem de um buraco
no centro da Terra
buracos negros do tamanho de um punho
perturbam a paisagem
e todos os tremores inomináveis:
as estrelas
o escuro
o som
atravessam meu coração rendido.

Laís Efsrathiadis é poeta, atriz e educadora formada pela Escola Livre de Teatro. Integrante do coletivo Verborrágika, grupo independente de pesquisa a partir do diálogo entre performance e poesia. No teatro, escreveu as dramaturgias das peças “Sopa BR” (2021), “Venganza” (2021), e a performance “O fundo do olho do trabalhador” (2023). Em 2024, publicou o livro de poesias “Desobediência do olho” pela editora Selo do Burro, e atualmente é educadora na Pinacoteca de São Paulo.

