BIA CHAVES – O limite do círculo (resenha)
BIA CHAVES – O limite do círculo (resenha)

BIA CHAVES – O limite do círculo (resenha)

por Soraya Viana

professora, tradutora e colunista da Revista Navalhista.

Círculo imperfeito

Algumas das melhores distopias clássicas (1984 e Kindred, por exemplo) causam estranhamento não pelas personagens fora do padrão ou situações absurdas, mas pelo reconhecimento de que o gênero, embora ficcional, retrata uma realidade que vivemos. Em seu novo livro, o romance O limite do círculo (Sertão Pasárgada, 2026), Bia Chaves segue essa escola.

O livro é composto pelas anotações da jornalista E. M. Caravaggio durante sua pesquisa de campo para entender o cotidiano dos habitantes do autossuficiente Condomínio Escher, em Belém do Pará. O local desperta curiosidade porque quem o habita não revela informações sobre como é viver ali. Além disso, quem entra não costuma volta ao mundo externo. Ao visitar o supermercado, a escola e a biblioteca, entre outros espaços do condomínio, E.M. Caravaggio aprende sobre os princípios que norteiam aquela comunidade, suas crenças e seus hábitos de consumo.

Fazendo jus à máxima de que somos o que comemos, a protagonista visita, em primeiro lugar, o supermercado, onde descobre que o alimento mais consumido pela clientela é um composto alimentar chamado de adubo.

A maneira como ela começa sua exploração, acompanhando uma outra cliente, faz lembrar a cena de Alice seguindo o Coelho Branco até o País das Maravilhas. Assim como a personagem de Lewis Carroll, a de O limite do círculo aprofunda, a cada página, a investigação de um ambiente em certa medida onírico  — ainda que em forma de pesadelo. A partir das observações de E. M Caravaggio,  pode-se dizer que o romance traça um contraponto entre a simetria escheriana na organização e as bizarrices comportamentais dentro do condomínio romanesco. Ali dentro (como aqui fora) há trabalho infantil, alimentos de procedência desconhecida e violências no ambiente escolar.

Vale destacar ainda que, a exemplo dos seres retratados pelo artista M. C. Escher, os habitantes do condomínio que leva seu nome parecem criaturas de sonho, já que suas aparências variadas misturam características humanas com traços de outras espécies, numa construção multiétnica comum em histórias de ficção científica, porém com as próprias peculiaridades. A escolha de personagens híbridos pode, também, aludir ao pensamento vegano. Uma amostra está no capítulo em que conhecemos a pet shop do condomínio. Ali, a cena em que um hamster é devolvido remete à teoria do utilitarismo animal e à abolição de sua exploração.

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Um dos elementos fantásticos da trama é a habilidade da protagonista-narradora de mudar de aparência à vontade, o que facilitará seu trabalho. Para adentrar os domínios do Escher, ela assume a aparência de um homem considerado elegante naquele contexto. As ponderações da protagonista sobre o aspecto esperado ou bem-vindo em um local específico, assim como sua escolha de determinado gênero antes de adentrar certos espaços, ilustram outras reflexões propostas pelo romance.

O próprio nome da personagem, aliás, pode ser um indício de sua neutralidade parcial. Ao mesmo tempo que as iniciais E. M. sugerem neutralidade, o sobrenome Caravaggio indica ação, por ser o mesmo do pintor cuja obra é considerada tão brutal quanto naturalista.

No plano da linguagem, o livro conserva para o leitor o estranhamento dessa microssociedade ao preferir escolhas vocabulares inusitadas e misturar gírias com estruturas alinhadas à norma culta. Ambas as características contribuem para a sensação de estarmos sendo apresentados a um novo mundo.

Esses elementos, no entanto, não tiram a fluidez de uma história que, assim, como a já mencionada Alice, nos deixa cada vez mais curiosos. Em O limite do círculo, Bia Chaves constrói uma narrativa de forte inspiração erudita, porém com a consciência política, o ritmo e o apelo popular necessários a toda boa distopia. Ela deixa no ar a pergunta: “Quais os limites da bolha onde eu vivo?”


Bia Chaves

Bia Chaves é paraense, professora, mestra em ensino, tutora de um cachorro e dois porquinhos da índia, viciada em café e, não menos importante, escritora. Graduada em Letras e Mestra em Ensino pela Universidade Federal do Pará, gosta de escrever histórias que misturam o real e o fantástico, o cotidiano e o insólito, e trazer à vida os muitos mundos que habitam em sua mente. Entre suas principais publicações, estão os livros Enfeitiçados (Elixir, 2022); O último apito do trem (Urutau, 2023); Poesia no céu de Galileu (Folheando, 2024) e A princesa e o mamulengo (Aldir Blanc – PA, 2025). O limite do círculo (Editora Sertão Pasárgada, 2026) é o convite para mais um de seus mundos.

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