Peteca
Sol que bate na
sobrancelha dourada
reflete a mulher
que o despertar
me angustia
Pobre sol pobre tarde
pobre quadra pobre clube
pobre mente que funde
hidrogênio em hélio
morada
que nunca tive
em meus delírios
sazonalmente
te enxergo
Em uma pinta nas costas
da pele
do globo
ou na esquina
de uma rua
desnive
lada
de Belo Horizonte
Em outro mundo
na Lua?
Quiçá nem tenha
nascido
vá nascer
e tenha a gente
se desencontrado
Quiçá a traqueia
e a língua de carne
(ou palavra)
não sirvam
e sejam necessárias
outras línguas outras palavras
outras carnes
Quiçá você esteja aqui
nesta peteca
justo aqui
nesta partida de peteca
Meus olhos
vidrados veem
minha mente
se concentra toda
— você você você
Tua sombra me basta
impressão
no cimento quente
pintura monocromática
me silencia
em duas dimensões
duas almas
que as penas da peteca juntaram
neste domingo
às cinco e cinquenta e quatro
quase seis
batendo em peteca
Acariciei teus cabelos
em meus sonhos
longe de significações
explicações racionais sensoriais
labaredas de penas de peteca
penas do direito penal
me prendiam aos teus olhos claros
A mulher que nunca tive
está jogando peteca
ela busca a peteca
com a ponta dos dedos
lança sobre a rede
e pontua no fundo da quadra
O amor que nunca tive
está jogando peteca
com meu coração.
Confissão
Este corpo sedutor
Me reduziu a pó
Ao nada
Corpo sedutor.
Me teve em suas mãos
Nas madrugadas
Dos que sofrem de insônia
Dos que fumam nas janelas
De prédios mortos
Cheios de gente
Que vive numa toada só.
Corpo breve
Encantava a todos
E eu mergulhei no vão
Quando previ que o destino
Guardaria suas recordações
Num ponto distante.
Eu queria mais
Sempre quis mais
Queria mesmo era grudar
Criar nossas memórias inesquecíveis
Nossas piadas só nossas
Mas o corpo esteve longe
No horizonte, longe.
Eu fiz da ilusão meu porto seguro
Você fez de mim o seu seguro.
Inveja? Dos que você já amou
Ódio? Das promessas que a mim
Nunca jurou
Transparência, a mim muito cara
Minha sombra e demônios
Confidenciei somente a você.
Corpo breve, sedutor, distante.
Me entreguei dos pés à cabeça
Às alvoradas das sextas-feiras
Cheias de ânimo e paixão
A mão quente, sempre muito fria
Afagava como uma pluma
A alma vibrava de acalento
E a mente urrava em transe
Que só acabava com a partida.
Sem sucesso na luz do sol
Persegui sua sombra
Me afoguei nos paradoxos
A rua sempre tão vazia
Em horário de pico
É que a gente nadava em sentido contrário.
Um ponto distante, corpo assustador
Que incomoda
Como um machucado pequeno
Olho para dentro, cultivo o ponto
Ele se abre mais e a dor aumenta.
Esquecerei o cheiro
Do seu perfume
Do seu cabelo
O gosto do seu beijo
Seus medos
Suas ambições.
Um dia esquecerei seu rosto
Que fixei como uma pintura.
Quem sabe o olor
Do seu shampoo
Apareça no ar
Daqui 40 anos
E então eu recorde
Das risadas
Do carinho
Do seu jeito
Do seu Vans
De como foi importante
Na hora que eu precisava
No tempo que eu precisava
Da forma como eu precisava.
O ponto na memória sempre terá muito valor.

Breno Mendonça, nascido em 14/10/2002, em Sacramento, pequena cidade do interior de Minas Gerais. Cursei Medicina na UFMG de 2022 a 2025, quando abandonei o curso. Comecei a escrever poesia em 2021, enquanto assistia às aulas do cursinho, e retomei o hábito em 2025. Fui estudante de Medicina e hoje, como diria Bob Dylan, sou uma pedra rolando.

