PRISCILA AQUINO – Aprendendo a voar [conto]
PRISCILA AQUINO – Aprendendo a voar [conto]

PRISCILA AQUINO – Aprendendo a voar [conto]

Todas as manhãs, bicicletas grandes e pequenas, de todas as cores, conduziam um balé experimental de pessoas em direção às suas obrigações diárias. Uns se dirigiam para o trabalho que os aguardava, outros se exercitavam ao ar livre sentindo o vento na pele e a maresia nos cabelos, e ainda havia as crianças. Acompanhar o vai e vem de crianças e adultos na ciclovia passou a ser uma das principais distrações de Bel. De longe, ela observava com atenção, a facilidade com que todos aqueles pés ritmados giravam certeiros levando em disparada todo tipo de gente feliz e suada pela orla.

O apartamento de Bel lhe oferecia uma vista digna de camarote para a orla. Quando ela e o marido compraram o apartamento, foi a vista que os convenceu de que estavam fazendo a escolha certa. Na época, há alguns bons pares de anos, apenas a avenida Beira-mar e a calçada os separavam da areia da praia. Com o passar dos anos, surgiu a ciclovia. De sua varanda, Bel acompanhava as mudanças impostas pela prefeitura e o duelo de egos que se renova a cada novo prefeito eleito. A cada quatro anos uma nova rotina se iniciava com sequência já quase previsível de instalar quiosques, desapropriar quiosques, plantar coqueiros, remover coqueiros, substituir por castanheiras, alargar a avenida, estreitar a avenida, construir a ciclovia, e quem sabe Deus o que mais estará por vir. A visão privilegiada que Bel tinha do mar permanecia, mas cada vez mais transpassada pelo crescimento da cidade, o aumento da população e as modernidades da sociedade.

Bel se casou com Roger quando tinha vinte e sete anos. Eles se conheceram, se amaram e se casaram em apenas oito meses. Trabalhavam, desde antes de se conhecerem, para uma multinacional que os permitia um padrão de vida estável e confortável. Em comum acordo, decidiram que não teriam filhos e isso era algo bem resolvido para ambos. Bel era feliz, tinha um marido que a amava e a respeitava, alcançou sua independência financeira, se reunia periodicamente com seu grupo seleto de amigas, fazia reposição hormonal, praticava yoga e remo, viajava pelo menos duas vezes por ano para descansar da rotina e se cansar com algo novo. Mas, sempre tem um mas.

Tomar o café da manhã na varanda passou a fazer parte da rotina de Bel. Algumas vezes, Roger a acompanhava e trocavam algumas palavras enquanto recapitulavam tarefas ou adiantavam alguma novidade que seria mais bem explorada em outro momento, relatavam algum plano que não foi concretizado ou alguma preocupação momentânea. Mas o fato é que esses diálogos eram sempre rápidos. Apenas Bel, sozinha, conseguia apreciar e desfrutar daquilo que a varanda tinha de melhor, a privilegiada vista da orla. Nas manhãs em que estava sozinha na varanda, a orla enchia o cenário à frente de Bel com uma riqueza de cores, sons, aromas e sensações. Tudo ali agradava seus olhos, mas o que inegavelmente mais atraia sua atenção era a ciclovia.

Lenta e cuidadosamente, seu olhar vagava à procura, entre os vários ciclistas que passavam, de algum detalhe que nem ela sabia o que seria. Olhava, procurava, se concentrava e encontrava. A cada dia, algo novo a despertava para uma observação criteriosa e detalhada, que a fascinava e intrigava ao mesmo tempo. Sua procura já a levou a contemplar, absorta, uma criança que se recusava a voltar para casa. A cada vez que a mãe lhe chamava e dizia que era hora de ir embora, a criança abria um sorriso tão puro, tão amoroso e encantador que a pobre mãe enfeitiçada amolecia e a criança recebia permissão para mais uma volta. Ou duas, ou dez. A criança usava um mini capacete vermelho e pedalava uma bicicleta com rodinhas de apoio e toda aquela cena enchia o coração de Bel de ternura. Em outra ocasião, Bel acompanhou até perder de vista, um jovem que pedalava sua bicicleta trajando um terno. A imaginação de Bel transbordou. Quem seria esse rapaz? Qual sua profissão? Onde morava? Quantos anos teria? Ela criava enredos, desenvolvia histórias e projetava seus personagens em contextos imaginários. Esse jovem, ela enredava, era recém-contratado e estava atrasado porque na véspera havia exagerado nas comemorações do seu aniversário, o que o levou a perder a hora de acordar naquela manhã. Ou, poderia ser, um moderno professor universitário, que encontrou no ciclismo uma alternativa sustentável para se locomover pela cidade.

Houve vezes em que o olhar de busca de Bel a levou para cenas não muito atraentes. Já foi espectadora de um atropelamento, quando um carro ultrapassou o sinal fechado do semáforo e atropelou uma mulher que atravessava tranquilamente na segurança da faixa. Cenas tristes fazem parte da vida e Bel não evitava vê-las.

Bel sabia, no fundo de seu coração, porque a ciclovia a encantava tanto. Para ela, o fascínio vinha pela limitação. Quando era bem menina, quis aprender a andar de bicicleta. Filha única, seus pais a enchiam de presente, inclusive uma bicicleta, mas nunca tiveram tempo de orientá-la, ou mesmo apoiá-la, nas primeiras pedaladas. Tentou aprender sozinha, sem ajuda, sem rodinhas de apoio, sem sucesso. Caiu incontáveis vezes, sem que ninguém se importasse e com o passar do tempo passou a não tentar mais. Na adolescência, todos os amigos sabiam andar de bicicleta, menos ela. Mas quando precisamos fazer parte de uma turma, somos condicionados a fazer o que todos fazem. Assim ela tentou mais uma vez, tendo como parceiros apenas o orgulho e a vergonha, por ser a única que não sabia. Não conseguia se equilibrar, não sabia para onde olhar, não se permitiu pedir ajuda e mais uma vez não teve sucesso. Resolveu que não gostava de bicicleta, que preferia ouvir música ou qualquer outra brincadeira. Não gostava de bicicleta.

Ela sabia por que observar a ciclovia a tocava tanto e tão fundo. A dificuldade na infância se tornou um drama na adolescência e na fase adulta a machucava como uma ferida. Ela queria ser aquela criança que cativava a mãe com um sorriso e que recebia atenção enquanto dava infinitas “só mais uma volta”. Queria ser o jovem que passa ligeiro, de terno, em direção a suas várias possibilidades de vida. Ela quis até mesmo ser a mulher atropelada no seu direito de ir e vir, com os joelhos ralados e sangrando, esbravejando contra um motorista distraído que tentava acalmá-la. Ela queria ter o que não pôde ter por toda sua vida.

Em uma manhã ensolarada de sábado, Bel estava na varanda quando seu olhar foi capturado por uma imagem que a aqueceu por dentro. Seus olhos se fixaram em uma mulher que gritava pedindo passagem, enquanto pedalava estabanada com um misto de felicidade e pânico no rosto, o vento fazia redemoinhos com seu cabelo e o sol reluzia na pele de seus ombros. Bel deu um suspiro profundo e, inquieta, se aproximou do parapeito da varanda. Sua imaginação explodiu: aquela é uma mulher madura e está aprendendo a andar de bicicleta! Tanta coisa passou na cabeça de Bel naquele momento. Lembrou de seus fracassos, da ausência constante dos pais na sua infância, sentiu um desconforto no estômago ao recordar da zombaria dos amigos na adolescência, da frustração que se transformou em rejeição. Mas também sentiu esperança! Se preocupou com a possibilidade de errar de novo, mas acreditou que poderia se dar mais uma oportunidade de tentar e de curar suas dores. A mulher aprendiz da ciclovia ia e vinha gargalhando! À sua volta outras mulheres festejavam e vibravam eufóricas. A conquista da amiga era uma vitória para todas elas. Bel sabia que precisava sentir essa energia, aquela era a cena que ela vinha procurando por todos aqueles anos.

Sem pensar duas vezes, Bel desceu correndo pelas escadas do prédio, porque em sua ansiedade não conseguiu esperar o elevador. Atravessou a rua em disparada e quando se deu conta, já fazia parte do grupo que torcia pela mulher da bicicleta. Ninguém estranhou sua presença ali, perceberam sua chegada e aprovaram sua permanência. Bel se sentiu aceita e gostou dessa sensação. O calor do sol se confundia com o calor que sentia em seu coração. Confessou baixinho a uma das mulheres que tudo que mais queria era ser capaz de andar de bicicleta e como se sua voz tivesse sido projetada por um megafone, aquele grupo acolheu seu pedido e a convenceram de que chegara a hora.

Bel que tinha tudo, um ótimo apartamento com vista para o mar, um emprego que lhe garantia estabilidade financeira, um casamento feliz, só queria aprender a andar de bicicleta e foi isso que aquele grupo de desconhecidas lhe proporcionou. A mulher que ela, antes, observava pela varanda lhe entregou a bicicleta e a apertou em um abraço que fez colar seus corações.

Bel se preparou. Se sentiu apoiada, estabilizada, incentivada e segura pelas novas amigas. Moveu os pés com cautela, os pedais começaram a rodar devagar. Ela sabia da importância de saber que aquelas amigas estavam com ela, por ela.

Ela se sentia tão segura e então percebeu que algumas mãos começaram a soltá-la. Sua respiração se acelerou, suas pernas começaram a bambear e ela acreditou que perderia o equilíbrio. Olhou ao redor e viu que algumas amigas permaneceram ao seu lado, mas já não a sustentam. Ela estava pedalando, sozinha, livre. 

Por muito tempo, desde que decidiu que não gostava de bicicleta, Bel passou a ignorar o que seu coração pedia. Ela se convenceu que era impossível e inalcançável e foi se acomodando com essa certeza. Só agora ela percebia que a vida toda esteve presa, encarcerada por seus medos e inseguranças.  Agora ela pedalava! No início, seus movimentos eram desordenados, inseguros e hesitantes. Invariavelmente, ela ainda precisava se apoiar com os pés para recuperar o equilíbrio, mas cada movimento parecia um esforço menor do que o anterior. Não tinha medo do ridículo, não se sentia patética por aprender a andar de bicicleta aos quarenta e poucos anos. Ninguém parecia reparar nela. Ou talvez estivessem e isso não seria um problema, pois ela estava feliz e conseguia aceitar que era sua primeira vez e se permitiu não ser perfeita.

Mesmo sabendo que ainda era o início, Bel se sentia confiante. Olhou para céu tingido de laranja e rosa e se alegrou com o sol batendo em seu rosto.  Exultante de felicidade ela compreendeu que ganhava asas e que aprender a voar seria um processo em evolução.  Cada voo a levaria mais longe, a vastos horizontes e novas perspectivas. Ela entendeu que, mais do que aprender a voar, aprendia a ser verdadeiramente livre. E gostava da liberdade.


Priscila Aquino é natural de Timóteo, Minas Gerais (1978), e teve uma infância e juventude marcadas pela vida itinerante no estado mineiro. Após se graduar em Letras pela Universidade Federal de São João del Rei, viajou ao Espírito Santo em 2003. O que era um passeio se transformou em seu lar, encerrando sua jornada de andanças e estabelecendo-se definitivamente no estado capixaba. Em 2025, Priscila celebra o início de sua carreira literária com a publicação de “Rodolfo, o jacaré roxo”, sua primeira obra infantil.

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