Sangue
Eu tomei alguns cuidados,
mas sangrei.
Algumas coisas, ou
todas as coisas estão fora do nosso controle.
Agora, essa parte úmida e vermelha escorre pelas páginas
e revela uma parte que parte de mim.
A Torre
Ele disse que não queria mais.
Não daquele jeito.
Impôs suas regras,
eu aceitei.
Me feri profundamente
para dar a ele
o meu amor,
para sustentar
nossa história.
Me abandonei
e fui abandonada.
O chão era minha casa,
as lágrimas,
um refúgio
da dor.
Fragmentos
Esses estilhaços
que não se desprendem,
entram na carne
eu sigo
fragmentada.
Fragmentada na emoção:
andei me juntando,
não me senti.
Durmo, dormente,
com pouca doença,
mas muita
dor.
Remoendo o ser,
cansando ao máximo
minha imperceptível
existência.
Rugido
O movimento,
um rasgo psíquico.
Vai e vem de encantamento.
Uma história, um trauma, um pertencimento.
O corpo: ora puma, ora leoa,
mas sempre onça-pintada.
A presença do corpo,
o ser condensado em animal.
O aspecto feminino, que parece sensível,
mas é profundo e visceral.
O ser por detrás do parecer
num rugido,
já não se esconde mais.

Débora Brancaglião nasceu em Jaú-SP e atualmente reside em São João del-Rei-MG. É artista e licenciada em Artes pela Universidade Federal do Paraná, além de mestranda no Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Artes, Urbanidades e Sustentabilidade da Universidade Federal de São João del-Rei. Iniciou sua trajetória artística com pintura e fotografia, expandindo posteriormente sua prática para instalações, colagens e audiovisual. A escrita sempre permeou seu processo criativo, constituindo uma fonte essencial para grande parte de suas obras. Atualmente, dedica-se à dissertação e à produção artística que dialoga com a arte contemporânea, explorando temas como corpo, feminismo e, em especial, corpos gordos. Seus trabalhos expressam, de maneira autobiográfica e poética, vivências e percepções profundas sobre essas temáticas.

