Nas navalhadas a seguir, apresentamos cinco poemas do livro O carro de apolo capotou no horizonte (Macabéa, 2025) da poeta Milena Martins Moura.
laniakea
diz-se do universo que
tudo que se afasta
tem o vermelho
dos olhos dos tristes
e tudo que se aproxima
o azul
das tristezas
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀no entanto
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀o caos continua sendo
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀empiricamente
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀o que rege o cosmos
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀e o caos é
o Medo insano que humanos gigantes têm
de insetos minúsculos
a campainha tocando na casa de quem deseja
estar só
desenformar perfeitamente um pudim lindíssimo
porém amargo
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀e̶ ̶t̶i̶r̶a̶r̶ ̶d̶e̶l̶e̶ ̶u̶m̶a̶ ̶f̶o̶t̶o̶
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀a̶i̶n̶d̶a̶ ̶a̶s̶s̶i̶m̶
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀p̶a̶r̶a̶ ̶a̶ ̶p̶o̶s̶t̶e̶r̶i̶d̶a̶d̶e̶
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀diz-se do universo que
uma densa união de matéria
por ação da gravidade
pode iniciar reações de fusão nuclear
de dentro pra fora
até formar uma estrela
⠀⠀⠀ ⠀⠀ j̶ú̶p̶i̶t̶e̶r̶ ̶f̶i̶c̶o̶u̶ ̶p̶e̶l̶o̶ ̶c̶a̶m̶i̶n̶h̶o̶
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀e uma estrela é
um fogo que se consome porque tudo se consome
mas que não veremos se apagar
porque nos consumiremos primeiro
enquanto isso
há pouco menos de meio século
não sei o que é deitar pés na terra crua
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀e isso é delicado como um sono
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀mundano como tampão arrancado de
um polegar
a̶p̶o̶n̶t̶o̶ ̶c̶o̶n̶s̶t̶e̶l̶a̶ç̶õ̶e̶s̶ ̶n̶a̶ ̶n̶o̶i̶t̶e̶ ̶e̶l̶a̶s̶
s̶ã̶o̶ ̶i̶n̶d̶i̶f̶e̶r̶e̶n̶t̶e̶s̶ ̶a̶o̶ ̶m̶e̶u̶ ̶b̶a̶n̶d̶-̶a̶i̶d̶ ̶m̶a̶l̶ ̶c̶o̶l̶a̶d̶o̶
m̶i̶n̶h̶a̶ ̶m̶ã̶e̶ ̶d̶i̶z̶
q̶u̶e̶ a̶p̶o̶n̶t̶a̶r̶ ̶c̶o̶n̶s̶t̶e̶l̶a̶ç̶õ̶e̶s̶ ̶n̶a̶ ̶n̶o̶i̶t̶e̶ ̶f̶a̶z̶ ̶n̶a̶s̶c̶e̶r̶
v̶e̶r̶r̶u̶g̶a̶ ̶n̶a̶ ̶p̶o̶n̶t̶a̶ ̶d̶o̶ ̶d̶e̶d̶o
m̶i̶n̶h̶a̶ ̶m̶ã̶e̶ ̶n̶ã̶o̶ ̶s̶a̶b̶e̶ ̶q̶u̶e̶ ̶o̶ ̶u̶n̶i̶v̶e̶r̶s̶o̶
n̶o̶s̶ ̶i̶g̶n̶o̶r̶a̶
c̶o̶m̶o̶ ̶q̶u̶a̶l̶q̶u̶e̶r̶ ̶d̶e̶u̶s̶
⠀⠀⠀ ⠀christian doppler tinha os olhos tristes
⠀⠀ ⠀ e a saúde frágil
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀diz-se de christian doppler que
⠀⠀⠀ ⠀morreu sem saber que o universo
⠀⠀⠀⠀é uma criança lenta o que não
⠀⠀⠀⠀ seria descoberto sem que christian doppler
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀tivesse sido uma
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀criança frágil
a̶ ̶m̶a̶t̶é̶r̶i̶a̶ ̶q̶u̶e̶ ̶f̶o̶r̶m̶o̶u̶ ̶c̶h̶r̶i̶s̶t̶i̶a̶n̶ ̶d̶o̶p̶p̶l̶e̶r̶
e̶ ̶a̶ ̶m̶a̶t̶é̶r̶i̶a̶ ̶d̶a̶s̶ ̶l̶e̶n̶t̶e̶s̶ ̶q̶u̶e̶ ̶c̶o̶r̶r̶i̶g̶e̶m̶ ̶a̶ ̶m̶i̶n̶h̶a̶
h̶i̶p̶e̶r̶m̶e̶t̶r̶o̶p̶i̶a̶ ̶e̶x̶p̶l̶o̶d̶i̶r̶a̶m̶ ̶j̶u̶n̶t̶a̶s̶
m̶a̶s̶ ̶c̶h̶r̶i̶s̶t̶i̶a̶n̶ ̶d̶o̶p̶p̶l̶e̶r̶ ̶n̶ã̶o̶ ̶v̶i̶v̶e̶u̶ ̶p̶r̶a̶ ̶v̶e̶r̶
o̶ e̶f̶e̶i̶t̶o̶ ̶c̶o̶m̶ ̶s̶e̶u̶ ̶n̶o̶m̶e̶ ̶c̶o̶m̶p̶r̶o̶v̶a̶r̶ ̶
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀ o̶ b̶i̶g̶ ̶b̶a̶n̶g̶
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀diz-se do universo que
tudo que existe muda de estado
pra continuar existindo
e continua
tudo que existe tem bilhões de anos
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀e eu existo
ainda assim
à luz da minha luminária
os restos das dúvidas
que tentei arrancar
com as unhas
do crânio
se mostram como neve
grudados nos meus óculos
e quanto mais perguntas me faço
menos sou capaz de ver
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀diz-se do universo que
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀é feito
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀quase inteiramente
⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀de escuro
[PÃO COM VINHO 39,90 O KILO]
refletida no vidro
com a fome
de um século
mastigo meus 36 dentes
e repito em silêncio a mensagem
jesus te ama
jesus christ my lord
será verdade?
deve ser difícil me amar
my lord
repito em silêncio
refletida no vidro
da avenida
28 de setembro
vila isabel
rio de janeiro
brasil
deve ser difícil me amar
my lord
deve ter sido bem difícil
quando
fazia calor na hora de maria
e eu usava os travesseiros
pra me refrescar
my lord
deve ter sido difícil me amar
quando minha única prece
foi quebrar
as pernas da cíntia
que me humilhou na educação física
estamos de acordo que amor tem limite
né
my lord?
deve ter sido difícil
quando eu pensava na missa
que jesus tem um pinto
my lord
e que quem tem pinto tem fome
deve ter sido bem difícil me amar
enquanto eu contemplava teu corpo de homem
e não via nele divindade
quando eu desejava mal a quem me matava lento
my lord jesus christ
my lord
quando era escuro e eu era jovem
my lord
e tinha mãos
e tinha um corpo
e fazia calor na hora de maria
quando eu vesti a pele de medeia my lord
e não fugi no carro de apolo
deve ter sido difícil amar a minha carne fraca
my lord
porque aparentemente
my lord
eu não devia mais ter fome
depois de mastigar a tua carne
nem sede
depois do meu primeiro porre de vinho
mas eu ainda morro de fome
my lord
quando
faz calor na hora de maria
deve ter sido difícil me amar
jesus te ama
e ainda agora
jesus te ama
deve ser bem difícil me amar
jesus te ama
enquanto apenas olho meu reflexo na vitrine
jesus te ama
e as letras dizem
jesus te ama
e eu me pergunto
jesus te ama
ao meio-dia de um verão antecipado
jesus te ama
que caralhas
jesus te ama
o teu amor
jesus te ama
tem a ver
jesus te ama
com o restaurante self-service
jesus te ama
eu só queria almoçar
volkswagen fusca 1968
o volkswagen fusca tinha
a mala na frente
e
o motor atrás
era perfeito pra ensinar a dirigir
a filha de 12 anos
numa rua de oswaldo cruz
em 98
a filha de 12 anos
adorava
uns avessos
tinha aprendido a amarrar cadarços
apenas dois anos
antes
mas aprendeu a ler
antes
das outras crianças todas
da escolinha
um orgulho
não lia hora em ponteiro
mas cantava em francês
sua filha canta em francês
a minha canta
um orgulho
meu pai tinha que comprar
um peixe pro aquário
da escolinha todas as crianças tinham
um peixe ele comprou um
beta e só sobrou o meu peixe
algo nessa história me parece
prenúncio
quando a mangueira do carburador
soltou e a gasolina
incendiou no metal quente
o motor ser atrás
salvou a vida
do meu pai
esse meu poema pobre
é o fogo lambendo
os bancos do volkswagen fusca
1968
meu pai escapando incólume
porque o habitáculo só foi
atingido
muito depois
de ele conseguir sair
contabilizando a dívida
putaquepariu acabei
de reformar o estofado
o volkswagen fusca estava
na família tinha
uns vinte anos
me viu sem os dentes da frente viu
minha primeira espinha
uma infância é algo muito frágil
uma infância pode ser digerida
em trinta e dois minutos
e quatro extintores
à sombra da história
uma infância
roída
espera em silêncio
a ferrugem
reformamos o volkwagen fusca
e ele permaneceu na família
por mais dois anos
um volkswagen fusca
não é tão frágil quanto uma infância
a vida tem unhas longas
vestiram-lhe uma blusa vermelha
calça jeans e sapatos
um cobertor
de margaridas
e um último cafuné
ele foi assim
ou foi o que disseram
eu nunca olho os mortos nem cenas com sangue
minha mãe sempre disse
que isso dá pesadelo
tenho 37 anos e meu coração
é fraco
meus olhos são fracos
minha pele é tão fina pro sol
do deserto
que racha durezas de pedra
tenho 37 anos e ainda sou infeliz num cantinho
rastejo
pelas quinas do mundo e trago
a fome dos amargos
o maná mofa ao sol
37 anos de deserto
e no entanto ainda estou viva
merda
essa força motriz evolutiva
poderosa
como uma teimosia
merda
estou viva
esse mistério
inadvertidamente finito
e no entanto esses ainda são os bons anos
as plantas morreram
mas os gatos estão vivos
estamos vivos estamos bem
jovens fortes e saudáveis
é daqui pra frente
perder gente
perder dinheiro
colágeno saúde a paciência e dente
e eu não fugi pra atenas no carro de apolo
onde a vida não pode
me rasgar
existir
esse soluço frágil
sob as unhas do tempo
os quatro cavaleiros do apocalipse
os quatro cavaleiros do apocalipse
andam sobre as labaredas da destruição
é um ótimo começo
pra um death metal gutural
mas esse não é um poema sobre os cavaleiros do apocalipse
nem um death ininteligível
e as labaredas da destruição
têm muito pouco a ver
com todas as vezes em que vejo fotos velhas
e tento lembrar se
naquele tempo
você já tinha me destruído
os quatro cavaleiros do apocalipse
comem sanduíche numa clareira ensolarada
é um ótimo começo
pra um anime feudal
mas esse não é um poema sobre os cavaleiros do apocalipse
e quando eu via anime
comendo sanduíche
você ainda não tinha me destruído
but you’re so vain
you probably think this poem is about you
this poem is not about you
it’s about todas as vezes
em que vejo fotos velhas
e penso
pobre de ti mini-me
que ainda vais sofrer tanto
que ainda vais ter teu sonho de infância
transformado em humilhação
e teu sorriso grande
transformado em vergonha
quem mandou amares errado mini-me
pobre mini-me
engasgando com o sumo amargo
de um amor maior do que cabe na boca
esse verso faz parecer que eu chupei
o filhodaputa aquele filhodaputa não
merecia nem uma mordida
minha ou será que sou eu que fiquei mais mente
suja depois de um doutorado em
erotismo se pá dá pra aproveitar o gancho
o que seria
um ótimo começo
pra uma porno-chanchada mascarada de filme cult
cuja lição de moral
de que existem amores
muito grandes
pra serem bons
seria dificilmente assimilada
pelo público
que só queria ver uns peitinho
quem mandou amares errado mini-me
engasga agora com o peso da minha segunda pessoa majestática
que não faz o mínimo sentido nesse poema
no fundo tanto faz
se manjasses de fazer sentido não tinhas
te deixado arregaçar por um pusilânime
quem mandou amares errado mini-me
engasga agora com o peso dessa proparoxítona solene
que não faz o mínimo sentido nesse poema
e os quatro cavaleiros do apocalipse
podem saltar dos seus cavalos
deitar a discórdia no dorso do mundo
mandar o dedo do meio pra câmera
o que seria
um ótimo começo
pra uma comédia sócio-crítica anti-pentecostal
no fundo tanto faz
esse poema não é uma
comédia
sócio-crítica
anti-pentecostal
é uma lembrança da sua cavalgada
solene silenciosa e desmanteladora
sobre o meu podre coração juvenil
o que seria
um ótimo começo
pra um soneto árcade depressivo
no fundo tanto faz
esse poema não é um
soneto
árcade
depressivo
and even though it actually is about you
é também about todas as vezes
em que
contando histórias velhas
parei no meio da narrativa
e contei os anos meses segundos
pra saber se as suas palavras
já tinham me retalhado às navalhadas
no fundo
isso nem é um poema
e os quatro cavaleiros do apocalipse
tomando cerveja
e arrumando briga
numa taberna medieval de tolkien
podem descansar
depois do porre
com a consciência limpa
de quem acabaria com o universo inteiro
antes de despedaçar o meu coração
eu não guardo rancor dos cavaleiros do apocalipse
não escrevo poemas sobre como foderam
a minha capacidade de acreditar no amor
nem me rio de ser hoje mais feliz do que eles
o que é
um ótimo começo
pra um filme cabeça sobre vingança feminina
no fundo tanto faz
sabendo que mini-me é passado
e que o meu riso grande
de 36 dentes está
livre
até às gengivas
me resta agora muito pouco
pra terminar esse poema
talvez
ir até a geladeira
descascar uma banana nanica
cortar em rodelas
e achar simbólico

MILENA MARTINS MOURA é mulher autista, poeta, editora, tradutora, pesquisadora, mestre em Literatura Brasileira pela Uerj e doutoranda em Literatura Comparada pela UFF. Autora de Promessa Vazia, Os Oráculos dos meus Óculos, A Orquestra dos Inocentes Condenados, a plaquete de poesias Banquete dos Séculos, O Cordeiro e os Pecados Dividindo o Pão, semifinalista do Prêmio Jabuti na categoria poesia de 2024, e o carro de apolo capotou no horizonte. É editora da revista cassandra, diretora editorial e curadora da Macabéa Edições. Em 2025, foi finalista do Prêmio Sesc de Literatura.

