EDGAR JORGE – O fantasma da freira [conto]
EDGAR JORGE – O fantasma da freira [conto]

EDGAR JORGE – O fantasma da freira [conto]

Noite quente de verão. Mariposas esvoaçam, tolamente, ao redor da lâmpada. O poste preto, de ferro fundido, produz uma iluminação fraca que vai a não mais do que poucos metros além de seu perímetro.

Nós, crianças, sentadas na sarjeta da rua de paralelepípedos já lisos e bem desgastados pelo uso, estamos terminando os planos para a grande caçada.

“Eu vou à frente e vocês me dão cobertura”, diz Zico, o mais valente de nós, enquanto testa o elástico do estilingue de tripa de mico, o único da turma.

Zico é ótimo atirador. Não há o que ele não acerte. Sua pontaria é aperfeiçoada em horas de treinamento diário em latas, postes, lâmpadas de casas, vidraças de desafetos, mangas e tudo o mais que valha a pena ser acertado.

Recentemente, ficou uma semana de castigo, porque matou, com certeira pedrada, um frango da dona Rosinha, da rua de baixo.

“Eu não queria acertar, só queria tirar uma fina”, defendeu-se. “O frango se mexeu na hora e a pedra acertou nele”, tentava justificar, sem sucesso, enquanto a mãe o levava, pelas orelhas, para casa.

Estava tudo combinado entre as quatro crianças, entre onze e treze anos de idade, excitadas ante a proximidade da grande aventura de suas vidas.

“Prontos? Vam’bora, então”, disse Zico.

E nós o seguimos, colados ao seu calcanhar.

No final da rua, os paralelepípedos se transformavam numa estradinha de terra batida, sem iluminação, com árvores e arbustos de ambos os lados. Após poucos metros, ela se abria numa área mais larga – o nosso campinho de todos os dias – para, mais adiante, continuar, estreita, sinuosa e em subida, rumo ao Colégio das Freiras e da Caixa D’água.

Nossa missão era encontrar e enfrentar o fantasma da Freira. Os testemunhos davam conta de que o fantasma da religiosa aparecia aos passantes solitários daquela estradinha.

Ele, o fantasma, era descrito como um vulto branco (seria o manto dela?) que pairava sobre o ar, um metro ou dois acima do nível do chão. A aparição nada dizia, apenas fazia barulhos estranhos que as vítimas, assustadas, fugiam antes de saber do que se tratavam. E a Freira ficava ali, fantasmagoricamente visível para os terrificados incautos que com ela se deparavam.

Quando perguntei ao Zico o que faríamos quando encontrássemos o fantasma, ele ficou todo sem jeito, quase engasgou ante à pergunta para a qual não estava preparado. E desconversou:

“Ah, sei lá! A gente pega ele e acabou …!”

Na falta de argumento para contestar a resposta vazia, concordei.

O grupo avançava, pé ante pé, pelo campinho, em direção ao trecho perigoso.

Nossos estilingues estavam carregados com bolinhas feitas de argila seca, cuidadosamente preparadas no dia anterior. Todas do mesmo tamanho e no peso ideal para serem arremessadas distantes, e com força, por tão bons atiradores.

Após os momentos iniciais de grande tensão, logo nos acostumamos com a pouca iluminação (apenas a Lua nos seguia, de cima) e ficamos aliviados pela ausência de qualquer coisa assustadora a nos ameaçar.

Grilos, sapos, pererecas, cigarras, corujas e outros ruídos não identificáveis, faziam uma ritmada e conhecida trilha sonora para aquela aventura que nós, corajosos meninos, tão bem e destemidamente enfrentávamos.

Já descontraídos e iniciando a conversar em voz alta, de repente, ouvimos barulho logo à frente: galhos quebrados, parecia. Estávamos perto do muro do Colégio, tradicional internato feminino comandado por freiras, o próprio local onde diziam que o fantasma aparecia.

Um frio na espinha percorreu o meu corpo, eriçando os meus poucos pelos de criança, num arrepio incontido e desagradável. O suor gelado e inoportuno me veio em seguida.

Estacados (apavorados, isso sim!), Zico à frente e nós outros logo atrás, esticamos, até o limite, as borrachas de nossos estilingues, prontos para o que fosse necessário.

Apenas nossas cabeças se mexiam, conduzindo nossos olhos em busca daquilo que, só agora sabíamos, nunca quiséramos encontrar.

Outro barulho, desta vez mais forte, logo à frente e um sonoro farfalhar de mato indicava que algo vinha em nossa direção, vagarosamente.

De repente, um som horrível quebrou a nossa concentração e a nossa moral: “Brrrrsssshhhhhhhh! Brrrsssssshhhhssh!”

E, depois de ouvir o que ouvimos, nós vimos o que vimos!!!

Acima de nossas cabeças, uns três metros à frente, um vulto branco se balançava, à esquerda e à direita, acima do chão, enquanto se aproximava de nós, esvoaçante e, é claro, perigosamente.

No limite do pavor, vi o Zico esticar ainda mais o estilingue e disparar. Uma fração de segundo depois, ele gritou:

“Aaaaaiiiii, mãe, o fantasma me acertou!”, enquanto nos mostrava uma marca de sangue, vívido e fresco, escorrendo do seu dedo polegar.

Então, mais rápido do que ninguém imaginava que ele pudesse correr, ele disparou em desabalada carreira, gritando a plenos pulmões:

“Coooooorrre, turmaaaa! A freira vai pegar a geeeeennnteeeee!”

Foi tudo o que deu para ouvir. Eu só me lembro de que nós corremos também, desvairadamente, como nunca antes, em nossas vidas, cada um para sua própria casa.

Eu pulei, não sei como, sem nem me arranhar, o muro cheio de espinhos do jardim da minha casa e, tropeçando cá e lá, fui direto para o meu quarto, como um relâmpago. E me tranquei a chave.

Naquela noite, pela primeira vez em anos, eu dormi de luz acesa. Ou melhor: eu não dormi nem um minuto, isso sim. Eu estava assustado, apavorado mesmo. Não entendia nada do que aconteceu. As imagens do fantasma e do dedo ensanguentado do Zico não me saíam da cabeça.

Dia seguinte, logo cedo, fui à casa dele.

O dedo do meu amigo, bastante inchado, estava coberto pelo curativo de esparadrapo e gaze. O ego dele, evidente, estava ainda mais machucado que o dedo.

“Eu só corri porque a freira me acertou. Quando eu atirei nela, a pedra voltou em mim e machucou meu dedo”, dizia, se justificando pela fuga da noite anterior.

Eu não o critiquei, porque eu e todos fizemos o mesmo que ele. E ficamos, os dois, a discutir sobre o acontecido, um fato que seria marcante em nossas vidas de crianças.

Os anos se passaram. Desde então, até hoje, quando encontro o Zico, nós sempre rimos daquele episódio, um tentando ridicularizar o medo do outro.

O fantasma que nós vimos, soubemos semanas depois da nossa aventura, era um lençol branco atirado sobre uma armação de madeira instalada sobre as costas de um burro que puxava a carroça de um sitiante, nosso vizinho. O barulho apavorante que ouvimos era do animal, que também se assustou conosco, tanto quanto nos assustamos com ele.

O filho do sitiante, um rapaz bem mais velho que nós, de vez em quando se divertia “materializando” o fantasma da freira sobre o lombo do animal, para assustar o pessoal que passava perto do seu sítio.

Naquela noite, fomos nós as vítimas da brincadeira dele, que ficou o tempo todo escondido, rindo do efeito da sua travessura sobre os moleques medrosos, metidos a valentes.

O machucado do Zico, concluímos depois, aconteceu porque ele, apavorado e na pressa de disparar o estilingue, soltou a pedra de qualquer jeito e atingiu o seu próprio dedo. Esse, aliás, é um acidente comum que acontece com quem não tem prática de usar um estilingue.

No final das contas, nós ficamos felizes pelo fato de que tudo não passou de um acidente fortuito, resultado de uma brincadeira muito sem graça (para nós, não para o rapaz que nos pregou a peça).

Porque de caçar fantasmas, nós desistimos, naquele dia. Pelo menos, EU desisti. Definitivamente.

Deus me livre …!! Cre´nDeusPai!! Amém!!


Edgar Jorge

Edgar Jorge nasceu em Amparo (SP), em 09 de Maio de 1953. Escritor prolífico, Edgar Jorge reuniu alguns textos em seu primeiro livro de crônicas, causos e devaneios, “Partes de Mim” (Editora Becalete), aos 71 anos de idade, em 2.024. Está terminando seu segundo livro, “Varandas”, romance no estilo realismo-fantástico, que pretende publicar em 2026. Edgar Jorge comanda o Podcast “Palavraiada” e publica suas crônicas, poemas e comentários políticos em vídeos no “De Prosa Com O Edgar Jorge”.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *