VERA IONE MOLINA – Camaleoa [crônica]
VERA IONE MOLINA – Camaleoa [crônica]

VERA IONE MOLINA – Camaleoa [crônica]

Ontem, na oficina, fui incumbida de escrever sobre uma memória que eu tivesse urgência de visitar. E escrevi sobre um ex-amor. Medo de escrever sobre ti, pois teria que discordar de algumas afirmações contundentes e temi ser tachada de antifeminista. E não teria tempo para demonstrar bem demonstradinho o que tentava dizer. Que talvez eu seja uma exceção, ou talvez tu fosses feminista e não quisesse que tuas filhas fossem porque poderiam perder bons casamentos. E ter esse objetivo na vida era o que “se usava na época”, como costumavas justificar hábitos que tiveste e então criticavas, quando fazíamos alguma coisa que não gostavas. Dizias: eu fiz porque era o que se usava na época.

E eu não disse nada quando todas as minhas colegas falavam do quanto não haviam lido autoras antes de tomarem a decisão de lerem predominantemente mulheres.

O fato é que na minha casa, sempre existiram livros escritos por mulheres. De onde eles vinham? Por que lias Marília Penna e Costa, Margaret Mitchell, Pearl S. Buck?

A primeira vez que me descobri leitora, foi quando li Hotel Edelweis. Era verão e eu saía da piscina do clube e ia pra casa ver a continuação de uma cena daqueles casais em lua de mel.

Minha continuidade na literatura feminina deu-se pela leitura de E o vento levou. Fiquei extasiada com a Scarlet O’hara, com o Rhett Butler, com a Mommy. Eu era uma menina e nunca tinha lido sobre os Estados Unidos, sua história e para mim, o Sul, na Guerra da Secessão, era o que defendia os negros escravizados, porque tratavam bem os negros da casa. Quando terminei o livro, fechei, abri de novo e reiniciei a leitura.

E depois, li Pearl Buck, filha de chinesa com inglês ou vice-versa. E gostava daqueles relatos de costumes do oriente.

É, eu devia ter dito que eu era exceção, que esses livros escritos por mulheres caíram nas minhas mãos por milagre. Que tu, uma mulher que só tinha cursado metade do curso normal, fizeste, muitas vezes, meus trabalhos de literatura brasileira, enquanto eu fazia os de literatura Norte Americana e Britânica porque mãe opera milagres para ajudar os filhos.

E quando escrevi minha novela na qual me sinto mais segura, intitulada Quarentena e, que mais tarde teve o título modificado para “Notícias da Guerra e o Destino de Laura, eu te consultava sobre literatura da época e por tua causa, falei de Colette quando quis construir uma atmosfera erótica.

É, só tive medo de discordar de todas ou preguiça de construir uma tese de história da literatura que justificasse minha introdução, tão inusitada, ao mundo da leitura. Mas era a tua memória que precisava ser passada a limpo.


Vera Ione Molina

Vera Ione Molina é graduada em Letras e pós-graduada em Teoria da Literatura (ambos na PUC-RS). Ministrou oficinas literárias na Casa de Cultura Mário Quintana e no Centro Municipal de Cultura em Porto Alegre, anos 1990, na Secult Uruguaiana, em 2007 e 2008. Foi jurada do Prêmio Açorianos de Literatura, do Prêmio Histórias do Trabalho em 2003, do Prêmio Ages 2023 e 2024, integrou a Academia do Prêmio Fato Literário. Publicou ensaios e artigos em diversos jornais e revistas do estado, com ênfase para Uruguaiana, sua terra natal. Integra várias coletâneas e antologias, inclusive como organizadora e possui livros individuais de literatura infantil, contos e novelas.

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