Sabe, tem a Xuxa. Ela é colorida. Branca, mas colorida. Diferente. Especial, sabe? Brilhosa, toda brilhosa: os dentes, os olhos, até o cabelo. É tudo branco e amarelo e a roupa e as chuquinhas muito coloridas. Tudo brilhando mais do que estrela. E todo mundo gosta dela. As crianças amam. Eu amo e as outras crianças também, claro. Mas os pais também gostam. Acho que meu pai gosta mais dela do que minha mãe. Ela chega numa nave e tem um planeta só dela. Ninguém é igual a Xuxa. Será que ela faz? O Jô Soares também é legal. É engraçado, esperto e é gordo e mesmo assim todo mundo também gosta dele. O pessoal da novela e os cantores e outras pessoas da televisão quer conversar com ele e todo mundo ouve o que ele fala. E tem a Sandy Junior que são crianças, e não criancinha, são maiores do que eu, mas mesmo assim aparecem cantando e dançando na TV e são amigos da Xuxa e conversam com o Jô e são muito legais também.
Só não sei como fazem. Será que fazem? A Sandy Júnior, o Jô e a Xuxa acho que não fazem. Nunca aparece fazendo. Nem falando que faz. O meu irmão eu sei que faz. Demora pra caramba e mamãe tem que bater na porta pra apressar ele às vezes. A minha irmã também, ela já me falou que faz e que eu sou um bebezão que não sabe fazer nada sozinho e fico enchendo o saco da minha mãe. O meu pai faz e todo mundo é obrigado a saber que fez mesmo sem querer. Já mamãe faz e manda eu fazer. Mas eu explico pra ela que eu não faço. Não sai. Igual a Sandy Júnior, o Jô e a Xuxa, eles também não fazem. Eu os vejo quase todo dia e eles nunca param o que tão fazendo para fazer. Por que será que não fazem? Porque são brancos, será? Mas o Dudu meu amigo da minha escola é branco e faz todo dia, às vezes nem espera a tia. Acho que só os brancos da TV é que não costuma fazer. Os outros é igual todo mundo. Mas eu não sou igual todo mundo. As pessoas mais velhas gostam de falar que eu pareço com o meu pai, mas eu não quero ser igual ele. Ele não aparece na TV e às vezes nem em casa aparece. Eu sei que sou diferente, sou especial.
– Mas você tem que fazer meu filho, todo mundo faz é só forçar um pouquinho assim, ó…
– Não sou todo mundo. Eu não faço, mãe. A Xuxa não faz, o Jô não faz e nem a Sandy Junior faz. Eu também não faço. Vocês fazem, eu não.
– Ah Thiago, tenha dó. Quer ficar aí no trono igual um reizinho de gracinha, então fica. Depois só não me venha encher o saco chorando de dor de barriga.
Ela então saiu do banheiro bufando e me deixou lá sozinho. Acho que ela ficou brava… mas às vezes ela fala pra eu relaxar, outras vezes pra eu fazer força. Acho que ninguém sabe explicar direito como as coisas acontecem, nem as coisas que faz todo dia. Acho que não sabe explicar porque não entendeu direito como as coisas funciona. E se ela não entende nem o coco dela, como é que vai entender o meu? Eu tentei explicar, mas mesmo assim ela não entendeu. Mesmo assim fiquei triste por ter deixado ela brava. Então eu decidi forçar um pouquinho igual ela pediu. E fiz força até molhar a testa, muita força mesmo, só que não sei direito qual era o jeito certo de forçar, se estava forçando pra sair ou pra prender.
Então, depois de um tempão forçando, com minha barriga e meu bumbum doendo, eu escutei o barulho da bolinha batendo na água. Me levantei depressa. Queria ver logo o que que eu tinha feito.
– Nossa…. Mãe, mãe, vem cá! Eu fiz, vem ver o que eu fiz.
Fiquei lá abaixado olhando no fundo do vaso o que eu tinha feito, esperando minha mãe vir ver também, mas ela não veio. Acho que foi melhor ela não ver. Eu não queria apertar a descarga pra água levar embora o que eu fiz, então enfiei a mão lá no fundo e tirei do vaso. Era durinho, que nem uma pedrinha. Eu mordi com força e doeu meu dente. Tinha gosto de chave. E como brilhava, brilhava mais que a Xuxa, brilhava feito o sol meio-dia. Então entendi porque não fazia cocô. Minha barriga tá cheia de pepita de ouro. Acho que nem a Xuxa, nem o Jô e nem a Sandy Junior tem ouro dentro da barriga. Só eu. Por isso eu sei que sou mesmo especial.

Eduardo Giraldez possui formação acadêmica em História e atua como professor da rede FAETEC-RJ na cidade Volta Redonda e como Técnico em Assuntos Educacionais na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Entre idas e vindas, na correria do dia a dia, se mete a escrever contos e, em raros momentos de inspiração, poesia. Teve textos publicados em algumas antologias, incluindo: “O Melhor do Crime Nacional V.2”, “20 contos, 20 autores”, “Pouco Tempo”; “Inspirações: José Saramago”, entre outras.

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