HIGOR FELIPE – Samba lamento [conto]
HIGOR FELIPE – Samba lamento [conto]

HIGOR FELIPE – Samba lamento [conto]

Acordei essa manhã com o canto do galo na minha janela. Grão de café, água fervendo. “Vai mesmo tentar a vida na cidade?” Ismael me disse ontem quando fui procurar um último conselho. Empacotei a pergunta junto com o pouco que me sobrou. Um documento com o nome de meu pai, um bordado que era da minha mãe. “Fica com a maloca caso um dia eu volte”. Ismael sambista nato, improvisou na palma da mão um pandeiro e me fez um último lamento de adeus. Pra lá do trilho do trem a vida é outra, dizem quem em Curitiba se ganha dinheiro. Pego a esperança por último e coloco no meu bolso.

Sem medo vou seguindo, mas a cada passo me pesa uma lembrança. Madeira, ferro, Maria Fumaça. À frente desejo incerto, atrás a Vila Tássi onde nasci.

Deixo Jussara. Linda, forte, casada com Binho. Tinha o cheiro do alecrim que carregava atrás da orelha. Com seus dois metros de altura flutuava nas pontas dos pés. Ele, miúdo que só, morria de ciúmes e viviam os dois num pé de guerra. Nem uma, nem duas vezes a gente viu Binho apanhar. O trilho que trouxe Jussara pra cá é o mesmo que piso agora. Meu pai construiu. Se enferrujado pelo tempo ou suor, isso não sei dizer. Olho uma última vez pra trás e ouço o mesmo som de quando era moleque. A batida era só bum, bum, bum, sem o surdo de resposta. Colher, corrente, caixa de fósforo ou latinha, tudo virava instrumento pra dança da Jussara. Foi atrás da casinha do Maé que ela me ensinou a sambar.

Pé descalço, terra batida, era embaixo de três árvores que a vida acontecia. Penso nelas e me lembro do vento e do sol tocando meu rosto de criança, do calor da fogueira no centro para afinar o couro do tambor. Andava por trás das saias de minha mãe. Lavadeira, estavam sempre macias. Protegido pela minha armadura de algodão, eu via os meninos cantando em círculo. Quando eles paravam para tomar um gorózinho, eu batia no tamborim. A vila tinha umas vinte casas, mas quando a fogueira acendia e a música começava, uma multidão surgia, até mesmo as árvores dançavam em união. Deixo o sorriso de minha mãe que só aparecia quando o pandeiro chorava.

Mais um passo rumo à Curitiba, sonho do meu pai. Ele fugia pra cidade toda semana, tinha o futebol como amante. Quando não ia pra lá, roubava a bola do Juca pra brincar com os cobras. Em cada estação de trem tinha um campo de futebol. No Corityba não joga negro, Forquilha disse uma vez. Meu pai, indignado, um dia vou jogar. Os cobras, sambistas, colorados, transformavam qualquer partida num batuque de roda. Entendiam de ritmo e faziam da bola seu instrumento. Meu pai era o melhor, embora não soubesse tocar. O primeiro gol era sempre pra mim.

A malha férrea da baixada foi o pai de meu pai quem teceu. Não o conheci, nem um nome sei dizer. Talvez eu o encontre nos ladrilhos das ruas de Curitiba ou nas belas alfaias da Matriz. Me pergunto se cantava pã pã pam no intervalo do martelo, ou se ajudou a plantar as velhas árvores da roda de samba. Talvez as tenha feito crescer com o som de um agogô. Deixo a memória de algo que nunca vivi. Foi em maio de 1880 que Dom Pedro II pisou nesses trilhos. Que a festa do Momo satisfaça o meu bamba, e carros enfeitados desfilem em mim o gracejo da cuíca. Que as máscaras de Veneza me aqueçam como os lábios de Jussara, e me chamem pra dançar embaixo de um pinheiro alto, antigo, ao lado de uma fogueira. Não deixarei de dar um gole pro santo, como meu pai de muita fé sempre fazia, e que Rosário guie meu desaviso. Maxixe, lundu, jongo. Que da polícia eu não ouça o som seco de um tambor.  E se eu nunca mais voltar, que o samba me encontre na Rua XV. Muito embora vagabundo, na vila deixo meu coração. Romário, trança, malandro ou miudinho. Giro no calcanhar e me despeço com um beijo. Mais um passo, gosto amargo, como o café de minha mãe.


Higor Felipe

Higor Felipe é graduado em História pela Universidade Paranaense e, desde então, aposta no diálogo entre a historiografia e outras linguagens artísticas. Escreve quando não tem ninguém olhando.

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