Azul de amanhecer é a cor ideal para fazer ziguezague de rua, ligação de ponto entre sacos de lixo. Garimpo barato que muito não dá, mas ajuda. Depois, completar o troco vendendo pano de prato na frente do metrô. Ali tem amigos ambulantes. Ali tem o seu Chan da lanchonete, que dá pingado e pão com manteiga de boa vontade, apesar da cara fechada.
A dona Maria Irene também vive de cara fechada. Após engolir a caridade do seu Chan, estaciona seu corpo no banquinho branco, sempre o gorro na cabeça, faça calor ou frio, o saco preto de reciclados ao lado. E não cumprimenta ninguém – chega e pronto – com sua cara de lua cheia, rasgada por vincos, onde Deus fincou dois olhinhos redondos e fundos. Monta o mancebo de panos-de-prato em frente ao moço do cachorro-quente.
Se gente passante não estivesse de rosto enfiado no celular ou tão atrasada que não enxergasse ao redor – somente a finalidade da viagem, a chegada ao trabalho, a bronca do chefe – então poderia muito bem notar a dona Maria Irene ali, com seus produtos, o enorme saco preto ao lado, olhando o vazio ou brigando com os rapazes.
Era daquelas cenas que ninguém repara numa segunda-feira de manhã, ressaca dos dias de folga, dia de doer perna em fila grande para comprar bilhete e trens sempre mais cheios de braços e malas. Mas se dona Maria Irene estiver zangada, gente passante será obrigada a levar susto como se fosse confusão de polícia, porque a gritaria é grande. A voz da dona Maria Irene é camiseta do avesso, mostra todo o seu dentro: gravidade, dureza, desalinho. Caverna de alma preenchida pela falta.
Sempre tem a primeira vez de alguém com a dona Maria Irene. De repente, um grunhido sem sentido causa franzimento de sobrancelhas, viradas de pescoço e olhares em suspensão (e suspeição). Gente que reage oferecendo dinheiro passa vergonha. Como aquela mulher, que quase apanhou da dona Maria Irene e levou bronca: “não quero dinheiro, não, menina, eu trabalho, tá pensando o quê?”.
A tarde seguia embalada por esse modo de vida até o sol se cansar e deixar a luz dos postes iludir aleluias. Dona Maria Irene não tem ilusão e por isso, nessa mesma hora, sai para ligar os pontos de novo, agora com o saco preto mais pesado. E some pelo bairro, aleluia ao contrário. Ninguém sabe ou não quer saber onde mora, para onde vai.
É fevereiro que chegou sem aliviar o calor de janeiro e dona Maria Irene insiste na touca. Os dias de carnaval são bem rentáveis, o bairro abriga alguns pequenos blocos. Mais gente jogando latinha no chão, mais de saco cheio fica dona Maria Irene. A quantidade de olho olhando estranho é proporcional ao tamanho do troco que ganha.
Então ela vai para o meio da muvuca, segurando a boca para não xingar. O chão é sua mina, as ruas, sua Serra Pelada.
Mas naquele dia, naquele bloco, a catadora encontrou com um dos camelôs do metrô, que aproveitava a sede dos foliões para vender cervejas. “Pega uma, dona Maria!”, e a velha, suada e sedenta, aceitou. Abriu a latinha com cerveja nova e gelada, muito diferente das latas azedas do chão.
Com as fuças não mais enfiadas no asfalto, Dona Maria Irene teve tempo de olhar para frente enquanto engolia aquele líquido que a confundia – de um lado, a frescura que lhe aliviava o corpo; de outro, a estranheza daquela amargura, uma das poucas que não era rotineira.
Viu a banda pela primeira vez. Viu cores, sorrisos, fantasias. Viu dança bonita e dança de bêbado. Sentiu os cheiros: de mijo, suor, vômito e perfume. Viu gente em turma e também os solitários. Viu o cantor limpar a cara molhada enquanto não vinha o refrão. Ouviu um não, dado por uma moça a um rapaz, e reparou nas duas meninas de mãos dadas. Viu-se chacoalhando o metal para aproveitar as últimas gotas, o antes da lata, cujo depois ela sempre amassava e repassava, para outro saborear.

Ana Paula, mineira de Itajubá, tem 46 anos e escreve desde pequena. É formada em Comunicação Social com ênfase em Jornalismo e tem mestrado em Comunicação e Semiótica. Atua no campo da Comunicação Corporativa e Divulgação Científica.

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