Poemas inspirados nas músicas do Milton Nascimento (considerando o atual momento dele, fica como uma homenagem carinhosa).
O FIM, UM COMEÇO
(Inspirado pela música Encontros e Despedidas)
partimos como loucos
em busca de temperança
de estação
em estação
a roda da fortuna
nos conecta
à gerações
faz do fim
um começo
um cenário
de diversos mundos
pessoas que chegam
que partem
que ficam para sempre
d’alguma forma
pessoas que dão um recado
e seguem
torres se rompem
na dinâmica do sol
e da lua
as mortes nos ensinam
a deixar ir
a sincronicidade
dum grande encontro
através duma estrela
chegamos
brilhamos
através do que faz sentido
APITO
(Inspirada na música Ponta de Areia)
pisei na Ponta de Areia
num trabalho
no Sul da Bahia
a música
acompanhou-me
nos trilhos
de quando era pequena
e ali
de Cambé a Londrina
uma festa
quando pulava o trem
no caminho da escola
ia para Londrina
quando ainda
levava pessoas
“ali, passava boi
passava boiada”
ia de trem até Morretes
fazer o Itupava
quando na faculdade
acampava no Marumbi
depois que pisei
na Ponta de Areia
fui picada
por memórias
no Trenzinho do Caipira
Villa-Lobos e Egberto
sons da infância
nas letras do Goular
nos trilhos da vida
a voz do Edu
no Tom
ficaram para sempre
EM FORMAÇÃO
(Inspirado pela música Travessia)
cada qual
com seu canto
no canto
uma história
por traz de tudo
um caminho
uma escolha
feita de montanhas
pedras que se deixam mover
fluidas como o rio de baixo
que se desgastam
no atrito
do toque da chuva
do assopro do vento
no desprendimento
da rocha mãe
pedras que se movem
se confundem com liquens
deixam de ser exatas
transformam-se
com o que lhes falta
no ciclo da vida
tocam nas trocas
mudam de função
deixam de ser
sendo
algo novo
em formação
ANTES DO TEMPO
(Inspirado pela música Evocação das montanhas)
(poema sonoro)
no alto das montanhas
a história em movimento
relictos dum tempo
onde não havia passado
nem futuro
fora do tempo
os esfagnos colonizaram espaços
nos acúmulos de algo diferente
gerado por fungos
bactérias
na ação do vento
nos campos de altitude
na ação da chuva
que brindava
o princípio
o silêncio
a palavra primordial
no alto das montanhas
veios da d’água
escorriam com a existência
de algo em formação
soerguimentos de rochas
a paisagem ampla
refletia os processos
por onde todos passavam
florestas nebulares
a construção
e a desconstrução
numa dança
na arritmia
do descompasso
uma orquestra regida
por entropia
e quantum
de beleza
SOLO
(Inspirada pela música Cio da Terra)
“Plantar é a arte de colher o sol”
saborear a cor do solo
suas propriedades
cada planta
se planta
no seu solo
num solo
uníssono
de sua espécie
nos indica
onde estamos
e nos diz muito
dali
saborear o seu nicho
o seu ciclo
solo
mel da melipona
do cálice
se jorra
para tudo
o que é vivo
elementos fragmentados
no silêncio
da dinâmica etérea
solo
em cada pétala
estigma de vida
onde estames
unidos
paira na inércia
do movimento dos planetas
e nos conecta
num banho de barro
com a terra geradora
dos princípios
que nos mantêm vivos
tudo está ali
na formação
dos cacos
de rochas
em poeiras
sedimentadas
nosso fim
o mesmo
início
solo
RAMOS DA ESPINHA
(Inspirado pela música Cais)
minha espinha dorsal
cais
donde brotam copas
o mar
que me conectam ao céu
donde brotam minerais
minha espinha dorsal
cais
me âncora
nos princípios
de minha geração
me quebra
caos
quando me solto
mar
volto ao Cais
através
de minha espinha dorsal
uma flor
sobre a copa que já existia
sem folhas
outra coisa
caos
acontece no cais
eu mesma reagrupada
depois que me soltei
para além da solidão
um fruto da espinha dorsal
se solta
no bico duma ave
se expande para além de mim
eu mesma
minha sombra
que não tenho controle
invento um espaço
entre a poesia que aflorou
na superfície da paisagem
e a espinha dorsal
que me resgata
do tempo sem som
donde inconsciente
estive
lúcida voltei
através do Cais
que invento
quando preciso ser ninfa
no ciclo do vento
DA COR DA TERRA
(Inspirado pela música Sentinela)
da cor da terra
reflete a transparência d’água
na tela do céu
morte
vela a vida
na teia
do ciclo em flor
sentinela sou
do presente
que aqui estou
a vida
uma oportunidade
aprender morrer
sentinela sou
das histórias
que constam
nos anéis de crescimento
da árvore defronte
da casa grande
ela está ali
tortuosa
como os traços
das lembranças
desafios do processo
que finda
nos micélios
e renasce em mistério
no choro
dum novo ser
que rebrota
dum ventre

Joema Carvalho é Engenheira Florestal e escritora. Autora dos livros: Crônicas de Uma Jornada Florestal (2024) e Luas & Hormônios (2010,2020). Coautora do Livro Entre Botânicas Decoloniais: As frutas silvestres de H. D. Throreau e as frutas brasileiras (2022). Organizadora do eBook Tuíra ed. Amazon (2020,2022). Participou de coletâneas nacionais e internacionais e de projetos literários. Membro da Academia Poética Brasileira – APB, Academia Brasileira de Letras – ABL Paraná e do Grupo de Ecocrítica – GECO/UFPR. https://www.instagram.com/joemacarvalho/

