por Mayk Oliveira
poeta e colunista da Revista Navalhista
A ausência sofrida e a ressaca do instante
De Shakespeare até os escritores modernos como Lemiski, sempre houve aquele poeta embebido de amor e desejo para escrever seus versos. Versos urgentes, com destinatário certo, ainda que muitas vezes jamais entregues. Versos que parecem nascer já dobrados dentro de uma garrafa lançada ao mar ou preparados como flechas disparadas contra o horizonte. Os sentimentos que pressionam o corpo, a mente e a alma de tal maneira que ao poeta resta apenas uma saída: escrever. Talvez por isso a poesia amorosa seja uma das formas mais antigas e persistentes da literatura.
O crítico Octavio Paz observava que o amor é uma tentativa de transformar um instante em eternidade, enquanto Roland Barthes via o discurso amoroso como uma fala marcada pela espera, pela ausência e pela imaginação do ser amado. Entre a eternidade desejada e a ausência sofrida, nasce grande parte da poesia amorosa.
O poeta Lucas Cunha se move nesse território. No seu livro O instante que me habita (Patuá,2025) os poemas carregam a intensidade de um amor corajoso e sem reservas. E também por isso, os versos caminham da praia à estrada, do afeto à solidão, da contemplação à embriaguez do mundo, nos apresentando um sujeito poético que parece incapaz de permanecer imóvel.
Observemos também o mar de Adelmo Genro Filho e o mar de Herman Melville: em ambos, o oceano ultrapassa a condição de paisagem para se tornar uma dimensão existencial. Em Melville, o mar é o território do mistério, da obsessão e do confronto entre o homem e as forças que o excedem. Já em Adelmo Genro Filho, o mar aparece frequentemente como espaço de reflexão do sujeito e da imensidão do mundo.
Outro ponto importante, Lucas Cunha dialoga, à sua maneira, com essa tradição, desde os primeiros poemas, e faz o mar se estabelecer como a principal matriz simbólica da obra. Ondas, marinheiros, navios, ressacas, ventos e cais aparecem continuamente, não se resumem ao simples cenário, sendo efetivamente a linguagem da experiência.
O poeta observa a vida a partir da lógica das marés: tudo muda, tudo passa, tudo retorna transformado. Essa percepção é explícita em poemas como Mar Budista, nos quais a impermanência se converte em princípio filosófico, vejamos os versos: Impermanente mar budista cria/de repente/ calmaria tufão vendaval chuva trovão /roupa no varal/ voando/ gaivota/ alertando/ chapéu de praia/ balançando/ o mar budista/ de repente/ meditando/ sob a linha de Capricórnio

É evidente que seus poemas são atravessados pela ausência, não necessariamente de alguém que partiu, mas de algo cuja falta transforma a vida em página incompleta. Talvez por isso sua escrita seja marcada por um lirismo exacerbado, impregnado de nostalgia, como se sentisse saudade até mesmo de experiências que nunca viveu. Temos um outro aspecto marcante em O instante que me habita (Patuá,2025) que é a presença do amor e do desejo. Os poemas amorosos são permeados por uma sensualidade espontânea, muitas vezes associada à água, à saliva, aos corpos e aos ciclos da natureza.
Na sua escrita há algo de lascivo e juvenil, não no sentido da provocação gratuita, mas da intensidade emocional que deixa surpreender pelo encontro amoroso. Em “Agridoce Desejo”, por exemplo, o erotismo surge como experiência simultaneamente doce, dolorosa e corporal: Outono que lambe/Fogueira e saliva/Me desfolha à vontade/E me esquenta, ainda viva
Nota-se aí, uma espécie de devoção romântica que irá atravessar todas as páginas do livro, como também, toda a disposição para idealizar, desejar e contemplar o outro apaixonadamente. Seus versos nos dão certeza absolutas de que os sentimentos não pedem explicação. Essa disposição confere ao livro uma atmosfera de romantismo intenso.
Identificamos nesse ponto, a influência de Charles Bukowski. Não tanto pela crueza verbal característica do autor norte-americano, mas pela construção de um personagem poético que valoriza o acaso, a bebida, o cigarro, a marginalidade e certa recusa às convenções sociais. Se há um parentesco, ele está na defesa da autenticidade e na valorização das pequenas experiências cotidianas. O poeta prefere o café, a cadeira de praia, a conversa e o horizonte ao espetáculo da grande cidade. Lucas Cunha é um poeta situado pois seu imaginário permanece ligado à cultura caiçara e ao sentimento de pertencimento à natureza de onde é nascido.
Poemas como “Me chamaram maluco”, “Destino?” e “Arquiteto”, revelam esse espírito errante e boêmio, interessado mais na experiência vivida do que na estabilidade. Como vemos nos versos a seguir do poema “Arquiteto”: Penhoro a loucura/ Depois pago caro/ Ponho o casaco/ E caminho simbora/ Paro na esquina/ Tomo uma quente/ Acendo o tabaco/ Penso na vida. É por meio de uma entrega sem reservas, que o poeta transforma a própria busca em poesia
Também chama atenção a recorrência da figura de Dionísio, símbolo da liberdade, da loucura criadora e da recusa aos enquadramentos normativos. O livro sustenta uma tensão permanente entre razão e desmedida, ordem e improviso. O sujeito poético não deseja ser catalogado, preferindo permanecer em trânsito, fiel às contradições da própria existência.
Formalmente, os poemas alternam textos breves, aforísticos, e composições mais narrativas. Essa diversidade contribui para o ritmo da leitura e reforça a ideia de fragmentos de experiência reunidos em um mesmo horizonte sensível.
O instante que me habita (Patuá,2025) é, acima de tudo, um livro sobre presença. Lucas Cunha transforma o instante em morada poética e faz do mar uma metáfora da condição humana. Entre a ressaca e a calmaria, seus versos recordam que viver é aceitar o movimento das águas sem abandonar a capacidade de se encantar com elas. Lucas Cunha escreve acreditando no encantamento, sem temer expor suas vulnerabilidades diante da figura amada. Seus poemas amorosos, que não se escondem.

Lucas Cunha veio de onde a onda beija a areia (Ubatuba) e tem raízes onde o café é forte e a prosa é longa (Lorena). Esse capricorniano sério(?) encontrou na leitura um vício precoce – cortesia da mãe. Autor do livro de poesias ”O Instante que me Habita” lançado na FLIP 2025- Feira Literária Internacional de Paraty [Ed. Patuá], concorrendo ao Oceanos 2026. Finalista do Prêmio Sesc de Literatura 2025 na categoria romance com “Tempo de Clarisse” e foi escritor selecionado para as Antologias Poemas do Eu da Editora Persona e Melhores Escritores 2025 Vol.1 pela Editora Vip. Estudante de Filosofia, aposta na escrita como forma de resistência ao absurdo da existência.

![LUCAS CUNHA – O Instante que me habita [resenha]](https://revistanavalhista.com/wp-content/uploads/2026/06/10002099831.png)