NAAMAN BLANCO – Apoteose & dor urbana [resenha]
NAAMAN BLANCO – Apoteose & dor urbana [resenha]

NAAMAN BLANCO – Apoteose & dor urbana [resenha]

por Mayk Oliveira

poeta e colunista da Revista Navalhista

O movimento leve do esvoaço

Desde o romantismo até a chegada da poesia contemporânea, muitos autores tentam reconstruir um elo entre homem e natureza. Não se trata apenas de contemplar paisagens, mas de reconhecer nos animais, rios, árvores e toda as manifestações naturais um espelho ético da experiência humana. Em A Queda do Céu, Davi Kopenawa afirma que “A floresta está viva. Só morre se for destruída”. A frase nos revela uma percepção de que o mundo natural participa da existência humana e sofre junto dela.

É nessa perspectiva que o poeta Naaman Blanco insere seu segundo livro de poesia Apoteose & Dor Urbana (M.inimalismos, 2026). A natureza descrita em sua obra não se limita a um simples cenário contemplativo, mas surge como espaço simbólico onde os dilemas humanos se manifestam. A natureza funciona como uma extensão dos sentimentos do eu lírico ao se hibridizar com os signos. O poeta aproxima corpo e ambiente, instinto e sociedade, fazendo das aves a legitima interpretação do mundo contemporâneo.

Para tanto, Blanco nos leva a pairar sobre seus versos e, sobre eles, avistamos a divisão em duas partes de sua “Apoteose e Dor Urbana“; a primeira, intitulada “A História das Aves” e a segunda, “A História dos Homens“. Juntas, essas duas partes nos oferecem a noção de um céu que não é apenas azul, luminoso e primaveril. O poeta constrói o céu que se apresenta escuro, chuvoso, por vezes nublado. Não é um “céu de brigadeiro”. Há nele dores, amores, quedas e travessias. E tudo isso se revela por meio dessa mitologia construída entre as aves e os homens que compartilham a mesma atmosfera existencial, o mesmo espaço de conflito, liberdade e fragilidade humana.

O poeta realiza um percurso de devaneio que surge em estado poético, contudo desperto. A poesia devaneia diante das imagens do mundo e, ao observar aves, céus e homens, o poeta descreve paisagens exteriores, mas transforma essas imagens em matéria sensível da experiência humana. Trata-se de uma experiência permitida ao leitor, que passa também a habitar esse espaço suspenso de contemplação. Abre-se a dimensão de um novo horizonte a adejar durante a leitura do livro, com os verso conduzindo o olhar para além da paisagem visível, alcançando também suas camadas de dor e transcendência. Vejamos.

Na primeira parte do livro, intitulada “A História das Aves”, os pássaros deixam de ser simples figuras zoológicas e passam a representar impulsos, fragilidades e conflitos do homem contemporâneo. O livro transforma o voo em linguagem. Em “O Pardal”, por exemplo, a ave “morrendo lentamente / definhando / sucumbindo” se utiliza da simbologia de sujeitos esmagados pela vulnerabilidade social e afetiva. Já em “A Andorinha”, o enfrentamento do predador expõe a coragem produzida pelo medo, sugerindo resistência diante da violência.

As aves também revelam tensões entre instinto e consciência. Em “O Urubu”, “estar à beira / do precipício” aproxima o animal da condição humana diante do risco e da queda. Em “O Beija-Flor”, o silêncio da ave diante das provocações do ego sugere uma liberdade impossível para quem vive aprisionado pela razão excessiva.

Nesse esvoaço, encontramos um contraste repetido entre cidade e natureza. Fios elétricos, concreto, muros pichados e lixo aparecem invadindo o espaço dos pássaros, como se o ambiente urbano contaminasse também o espírito humano. As aves observadas por Naaman Blanco são metáforas de sobrevivência, desejo, medo e ruína.

Elas são ambivalentes porque nunca representam apenas liberdade ou beleza. Em muitos momentos, carregam também sinais de ameaça, fome, desgaste e violência. O voo dessas aves tanto pode sugerir escape quanto desorientação. Os pássaros de Naaman Blanco habitam um tipo de abrigo precário entre o céu e o concreto, entre a tentativa de ascensão e o peso da cidade. Seus ninhos, fios e telhados funcionam como espaços infinitos de resistência, lugares onde o humano tenta ainda preservar algum resto de sensibilidade diante da brutalidade cotidiana.

No entanto, na segunda parte do livro, intitulada “A História Dos Homens”, essa relação entre homem e natureza permanece em deslocamento simbólico. Se antes as aves funcionavam como espelhos do comportamento humano, agora a metáfora abandona os pássaros e passa a surgir por meio de elementos como “Aurora”, “Dúvida”, “Sonho” e “Luar”. Se tornam, por assim dizer, pontos cardeais da experiência existencial, substantivos abstratos que ampliam a densidade do texto e conduzem o leitor para temas ligados à morte, miséria, guerra e desejo. Podemos compreender, por tanto, que em Apoteose & Dor Urbana, o homem continua atravessado pela paisagem, mas já não observa apenas o voo das aves que agora encaram o concreto, os becos e a violência cotidiana.

No poema “Aurora”, a madrugada deixa de representar esperança e passa a revelar abandono social. O verso “dormir no colchão velho posto aos cães” expõe a degradação humana diante de uma cidade indiferente. A Lua, tradicional símbolo de beleza poética, aparece distante da fome e da miséria, criando um contraste entre contemplação e sofrimento.

Já em “Dúvida”, o eu lírico questiona a própria função da poesia num mundo marcado por guerras e desigualdade. Quando pergunta “como falar das aves / seus voos, paixões e cores”, o poeta retoma a primeira parte do livro para problematizar a arte diante da brutalidade histórica.

Tanto as aves quanto os homens habitam espaços de ameaça e resistência, o que faz que ambos mantenham um elo profundo e indissociável. O medo, a queda, a fome e o desejo atravessam os poemas como experiências comuns. Naaman Blanco constrói, assim, uma poesia em que natureza e cidade permanecem ligadas por uma mesma tensão existencial. O sublime não aparece separado do social, mas surge do atrito entre ambos. A beleza dos voos, da lua e da aurora não apaga a miséria urbana; ao contrário, torna-a ainda mais visível. A a leitura de Apoteose & Dor Urbana (M.inimalismos, 2026), nos auxilia a contemplar o mundo e no mesmo adejo também encarar suas feridas.


Naaman Blanco

Naaman Blanco (2000) é um paranaense em Minas que tem na escrita sua maior obsessão. É autor de As Nuvens de Netuno (Toma Aí Um Poema, 2024) e Apoteose & Dor Urbana (Minimalismos, 2026), ambos de poesia. Colabora em antologias e coletâneas desde 2022 e em 2026 passou a integrar a equipe de poetas do Portal Fazia Poesia.

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