Saudade é aquilo que faz a passagem do tempo ter sentido.
Lúcia observou a filha dobrar cuidadosamente a folha de papel em quatro. Era desses papéis de carta coloridos, enfeitados nas margens com figurinhas mimosas.
As mãos pequeninas, geralmente inquietas e estabanadas, moviam-se gentilmente, quase numa carícia. Depois, a menina apanhou um envelope, escreveu seu nome na parte referente ao remetente e, do outro lado, colocou o destinatário.
Apesar do que sentia, Lúcia não pôde deixar de sorrir interiormente. Carta assim, escrita a mão, era algo tão fora de moda. Porém, era compreensível, afinal, a menina era nova demais para saber mexer no computador e, só de vez em quando, enviava mensagens pelo whatsapp. E Lúcia sequer estimulava que ela fizesse uso dessa tecnologia tão cedo. Mas desconfiava que, mesmo que pudesse, a menina teria preferido o papel e o lápis.
Ele a ensinara assim.
A criança, então, deixou o envelope sobre a mesinha de centro e saiu, chamando o cachorro para brincarem lá fora, no quintal.
Lúcia prosseguiu em seus afazeres. Vez ou outra passava pela sala e via o envelope. A filha não tinha passado cola nele. Lúcia ficou curiosa. Não pretendia desrespeitar o espaço da menina, invadir a sua privacidade ou, pior, cometer um crime ao violar uma correspondência, mesmo sendo de sua própria filha. Mas, simplesmente, não pôde evitar, afinal, também lhe dizia respeito. Então, ancorada em todos os pretextos possíveis – inclusive do envelope sequer estar lacrado -, observou através da vidraça, viu a criança divertindo-se com o cão. Aproveitou-se do momento, apanhou o envelope e, sentindo-se simultaneamente péssima e ansiosa, leu seu conteúdo.
***
Querido vovô.
Tá chovendo lá fora.
O tempo está como eu: triste. Tem sido difícil não me sentir assim. Minhas amigas telefonam para conversar ou mandam mensagens no celular da mamãe. Não sinto vontade de falar ou escrever para elas. Eu gosto delas, mas estou sem vontade.
Tem bastante água empoçada no quintal. Olho através do vidro. Fico vendo as gotas caírem nas poças e as ondas redondas que formam. Gozado, o pensamento vai longe, como se a gente se soltasse do corpo e fosse embora.
Hoje, assim que acordei, tomei uma decisão: escrever para o senhor, vovô.
Mamãe fez uma cara esquisita quando contei isso pra ela. Talvez não devesse ter contado, mas preciso dela para lidar com palavras mais difíceis ou “expressões”, isso, “expressões”. Por que se usa “x” no lugar de “s” e dois “ss” no lugar de um só ou de cedilha, nunca vou saber. Pra que cedilha se já existe o “s” e por que se usa “s” em “usa” em vez de “z”? É tudo misterioso demais para mim.
Escrevo para o senhor porque sinto sua falta. Para o senhor eu preciso escrever. Eu quero escrever.
Se estivesse aqui, eu perguntaria sobre os mistérios das letras e o senhor me explicaria direitinho, como sempre fez. E o mundo deixaria de ser tão difícil. Seria mais alegre.
Eu pergunto as coisas pra mamãe, mas não é a mesma coisa. Ela não tem paciência (palavra difícil para dizer que não tem vontade) e também anda triste, embora faça de conta que não.
Vou mandar essa cartinha para o senhor e, no envelope, escreverei: “Para o vovô que tá no céu”. O carteiro vai achar o senhor no céu? Não tem rua? Não tem número de casa? Ou é número de nuvem?
A mamãe diz que isso é bobagem, que esta carta nunca chegará ao seu destino. “Destino” é uma palavra nova que aprendi. Não sei se entendi direito o que é destino. É um lugar ou uma coisa que acontece com a gente? Não sei se acredito em destino. Acredito em coisas boas e ruins. Sua ausência não é coisa do destino: é uma coisa ruim.
Chorei bastante do que a mãe falou.
Papai passou um sabão na mamãe e ela parou de falar coisas assim para mim.
Comecei a perguntar as coisas para o papai também. Mas ele tem menos dessa paciência do que a mamãe. Ele até queria vender a sua cadeira! Eu não deixei.
Olho a sua cadeira de balanço vazia e o coração fica apertado, vovô. Não está certo ela ficar vazia. E é mais errado vendê-la. Ela ainda cheira a colônia de barbear e roupa velha, sua roupa.
Toby também sente sua falta e fica deitado junto da cadeira de balanço, esperando o senhor voltar. Ele não entende que não vai ter volta. Não late. Só espera. Talvez seja melhor assim e o coração dele não fique tão apertado quanto o meu.
Quando eu ainda ia na escola, um coleguinha chamado Zezinho falava que esse coronavírus (outro nome que aprendi, mais difícil do que paciência e destino) era uma “peste de velho”. Contou que foi o pai dele quem disse. Fiquei brava e quase bati nele.
Depois, veio a quarentena (mais um nome chato) e eu não o vi mais. Soube ontem que a doença levou ele embora também. Se o Zezinho estiver aí perto do senhor, vovô, diz pra ele que ele tava errado, afinal, ele não é velho. Mas desconfio que ele já sabe disso.
A chuva aumentou. As poças de água estão agitadas. Parece um mar bravo. Lembra de quando a gente foi pra praia, vovô? Saudade de correr na areia, molhar os pés e catar concha. Lá, tudo é tão grande! O mar. O céu. O senhor levou-me nas pedras para ver os peixes e caranguejos. Tive medo, mas foi muito bom. Depois, as nuvens apareceram, choveu e fomos embora. Que chuva gelada! Tem praia no céu, vovô? Nuvem eu sei que tem.
Nossa, estou escrevendo bastante. Nunca escrevi tanto na vida toda. Os dedos estão doendo.
Eu lembro das vezes que, em seu colo, o senhor me contava histórias de quando era moço, criança até. Ainda acho difícil pensar no senhor tendo a minha idade. Para mim, foi e será sempre o vovô. Que pena que, agora que estou presa em casa, o senhor não está aqui para falar mais. Eu gostava de ouvir sobre as brincadeiras de seu tempo, dos lugares que ia, de quando conheceu a vovó e quando a mamãe nasceu e como era chorona e arteira (hoje, briga comigo quando sou eu que faço arte). O senhor deve estar feliz agora, ao lado da vovó. Manda um beijo pra ela. Pelo menos isso teve de bom. Queria poder ouvir mais histórias. Queria estar ao seu lado. Dizem que o céu é o melhor lugar do mundo; ao mesmo tempo, ficam assustados quando falo que eu gostaria de estar lá.
Mamãe fica fungando e dizendo que tudo irá passar, que logo eu vou crescer e esquecer.
Eu não quero esquecer. Nunca vou esquecer! Mas, por precaução (ah, essa aprendi ontem), eu tenho anotado num caderno tudo o que me faz lembrar do senhor, o que eu sinto, o que contou, aquilo que me ensinou, a praia, o jogo de dama, a moeda velha que me deu. Colei uma foto bem bonita da gente na capa. Chamei de “Diário do Vovô”. Acho que iria gostar.
Agora a mão não aguenta mais! Foi bom escrever. O coração ainda dói, só que está mais leve.
Mamãe também deveria escrever em vez de só fungar.
A chuva está diminuindo. Vou no quintal brincar com Toby e pular nas poças de água.
Tchau, vovô! Me avise se o carteiro não entregar a carta.
Te amo muito.
Um beijo grande e cheio de saudade.
Mariazinha
***
Lúcia reprimiu um soluço.
Sua mãe falecera alguns meses antes de se ouvir falar em pandemia.
O pai, desde, então, andara meio perdido pela casa, revirando suas recordações pessoais e impedindo qualquer um de mexer nas coisas da esposa e, muito menos, desfazer-se delas.
Talvez tivesse sido melhor assim, embora o coração de Lúcia se recusasse a aceitar isso e a lembrança do sofrimento do homem idoso nos momentos que antecederam a internação fizesse esse clichê soar um sacrilégio. Ainda se lembrava do último olhar que ele lhe dirigira. Depois disso, ela e a família foram impedidas de vê-lo novamente. Sequer puderam dizer adeus.
Não teve jeito, fungou e soluçou ante a lembrança.
Viu a garatuja da menina no envelope, seu nome, endereço e até o CEP. Virou-o. Lá, a filha escrevera meio apressada:
“Para o Vovô”
E, como endereço, simplesmente:
“Céu”
O peito doeu e Lúcia sentiu um nó na garganta. Apanhou o lápis sobre a mesinha, agachou-se e, no espaço que sobrara abaixo da carta de Mariazinha, escreveu:
P.S.: Obrigada por tudo que me ensinou, papai, e para Mariazinha também. Te amo. Envio o meu beijo ao senhor e à mamãe. De sua filha, Lúcia.
Tornou a dobrar o papel e enfiá-lo no envelope.
Apesar do remorso e da tristeza, sentiu-se infinitamente melhor por ter feito o que fez e por haver escrito o que escrevera. A filha – ainda tão jovem – tinha razão: era melhor extravasar a angústia do que fazê-la ocupar todo o seu espírito. Só assim, sobraria espaço para, outra vez, preenchê-lo com esperança, alegria e as boas lembranças que, certamente, ficariam.
– Adeus, papai – despediu-se, enfim.
Então, parou de chorar.

Roberto Schima é paulistano e neto de japoneses, nascido a 01/02/1961. Agraciado com o “Prêmio Jerônymo Monteiro”, promovido pela “Isaac Asimov Magazine” (Ed. Record), com a história “Como a Neve de Maio”. O conto “Ao Teu Dispor” foi premiado na antologia “Crocitar de Lenore” (Ed. Morse). Colaborador das revistas digitais “Conexão Literatura” e “LiteraLivre”. Participou de trezentas e setenta e cinco antologias. Escreveu: “Pequenas Portas do Eu”, “Limbographia”, “O Olhar de Hirosaki”, “Sob as Folhas do Ocaso”, “Os Fantasmas de Vênus”, “Cinza no Céu”, “Tio Vampiro”, “Caçada no Planeta Duplo”, “Era uma Vez um Outono”, “Vozes e Ecos” entre outros.

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