MARIA EDUARDA ALMEIDA DE NORONHA – Adão e Eva, Deus como testemunha [crônica]
MARIA EDUARDA ALMEIDA DE NORONHA – Adão e Eva, Deus como testemunha [crônica]

MARIA EDUARDA ALMEIDA DE NORONHA – Adão e Eva, Deus como testemunha [crônica]

Aos sete anos de idade, a mocinha soube seu lugar no mundo.

            Faltava alguns dias para o natal, talvez dois ou três, e uma jovem mocinha tinha ido passar alguns dias na casa de sua vovó para aproveitar a companhia dela naquele finalzinho de ano. Sua mamãe a deixou no sítio de seus pais e viajou sozinha para tentar colocar os próprios pensamentos no lugar, afinal aquele ano fora muito delicado e doloroso, emocionalmente dizendo.

            Naquele mesmo ano, o pai da mocinha tinha morrido. Tanto ela quanto sua mamãe não sabiam lidar com a ausência daquele homem — pelo menos não juntas. Para sua mamãe, encarar os olhos de sua própria filha era um lembrete do par de olhos vazios do cadáver que precisou identificar no IML como sendo do homem com quem dividiu os últimos nove anos de sua vida. Mesmo amando sua filha, ainda era doloroso associar, mesmo sem querer, o olhar inocente de sua pequena com o do marido abrindo os olhos involuntariamente que fitavam através de seu corpo.

            A mocinha já conhecia todos os seus primos, mas como morava na cidade não era próxima de nenhum deles e passava o dia andando atrás de Maradona, um cachorro três anos mais velho que ela. Eles passavam as tardes explorando o sítio, Maradona na frente despreocupado e ela atrás rindo das formiguinhas que faziam cócegas entre seus dedos do pé, ou distraída com as flores que cresciam entre um mato e outro.

            Sua vovó não gostava que ela andasse sozinha com um cachorro pelo sítio, mas não a impedia de caminhar porque o avô e o primo mais velho da menina também estavam por lá.

            O primo tinha dezesseis anos e sempre acompanhava a mocinha com os olhos, fosse de longe quando corria atrás do gado ou de perto quando capinava as daninhas do terreiro. Ele a olhava como se esperasse algo que o fizesse se aproximar dela e como esse dia não chegava, o rapaz decidiu ir ao encontro da mocinha. Ele parecia ser gentil, sorriu de canto e pediu que ela o acompanhasse a um lugar que ainda não tinha ido no sítio. A mocinha ergueu sua mão para ele, sendo levada até a granja abandonada dos seus avós.

            Lá ele propôs uma brincadeira diferente, uma que a mocinha desconhecia.

            Essa brincadeira se chamava: Adão e Eva, Deus como testemunha. O primo mexeu com falsa despretensão nos cabelos dela, parecia buscar confortá-la antes de fazer o que queria — era sua forma de pedir licença para “brincar” com o corpinho da pequena ainda em formação.

            Impotência. Naquela época, a mocinha não sabia o nome dessa palavra, mas já conhecia muito bem seu significado. Essa forte emoção, acompanhou ela com a mesma intensidade que a presença do primo de dezesseis anos segurando com certa serenidade sua mão enquanto caminhava rumo a granja abandonada a acompanhava.

            A mocinha contou a sua mamãe sobre a brincadeira que aconteceu mais de uma vez. De repente, ela viu o semblante tranquilo da mamãe mudar e seu olhar revelou o mesmo pesar que a mocinha passou sentir depois das brincadeiras com o primo. A mamãe se sentiu impotente diante do relato da sua filha de apenas sete anos de idade, e chorou puxando ela para seus braços. Agora, a mamãe via sua filha adentrar o mesmo barco que ela junto de outras centenas de milhares de crianças, bebês, mocinhas, moças, mulheres e senhoras navegavam com o pesar da impotência que as acompanharia até onde quer que aquele barco pudesse levar.

Maria Eduarda Almeida de Noronha, pernambucana, estudante e aspirante a escritora. Escrever é uma busca por compreensão e, ao mesmo tempo, uma forma de não esquecer.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *