JÚLIA DE ANDRADE GOMES – A loucura [conto]
JÚLIA DE ANDRADE GOMES – A loucura [conto]

JÚLIA DE ANDRADE GOMES – A loucura [conto]

Eu não sei que dia foi que dia. eu não sei quando foi que eu peguei a faca e decidi que iria me matar. eu não sei quando foi que você tentou evitar. eu não sei o que você me falou.

Eu sinto que a loucura começa pelo dedinho do pé e sobe passando no estômago, como um soco, e sobe vai até a cabeça, queima como fogo. eu pensei que você fosse hidrante, me enganei, erro meu, não confio em mais ninguém.

A loucura come de fora pra dentro como se eu fosse um rato morto e as larvas me devorassem. não dói mais, não sinto dor, estou caída no chão fingindo de morto pro gato não me pegar. o louco só é louco perto de uma mente sã.

Brinco de esconde-esconde no escuro, não quero que acenda a luz, deixe minha mente brilhar. o louco só é louco perto de uma mente sã.

Quem é que é são hoje em dia? seu João, gritando no ônibus, dizendo que vê gente dentro da gente, ele não é gente; é louco.

Silvânia, que saudades, louquissima ao me ver. Abraçou, abraçou como se eu fosse filha, nunca mais me viu na vida. Doida de varrer, toda carta era Às de paus na mão dela.

Angélica, Angélica, dizia que ia comprar veneno de rato e colocar na comida, de mãos atadas, mais uma louca varrida, gritavam, as outras loucas diziam que era doida, doido com doido não se dá, a loucura de um sempre tem que ser maior que a do outro. afinal, dois loucos juntos são duas pessoas sãs. E dois sãos são dois malucos, depende de quem ver.

Entretanto eu não enxergo nada, nada consigo ver. Loucura nos olhos, seu médico. Dizem que é psicossomático, fiquei cega assim no dia que a ouvi. Uma voz de gente morta falando comigo, ignorei, mas só via gente morta pra cima e pra baixo. Fiquei assim, seu doutor. Um louco só é louco perto de uma mente sã.

E a loucura que me rasga que me dói a cabeça, que me cega os olhos e que dói ao ouvir. A loucura que me deixa de cama, e a que me levanta, todos os dias não deixo de ouvir. A voz dela que me desperta, ela é quem manda, tem gente fazendo morada em mim. Ela tem nome, mas não posso dizer em vão, é dona da ruína, a Senhora do Mau, manda e desmanda e me manda matar. Ela, seu doutor, não vai embora nunca. É a mais pura loucura, essa que vocês gostam de estudar.


Júlia de Andrade Gomes

Júlia de Andrade Gomes, 27 anos. Estudante de Letras da UFRGS que, nas horas vagas, gosta de escrever.

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