GEOVANA BOGÉA – Antes que se esvaia [crônica]
GEOVANA BOGÉA – Antes que se esvaia [crônica]

GEOVANA BOGÉA – Antes que se esvaia [crônica]

Era meia-noite, quando cheguei em casa. Ainda estou um pouco anestesiada por hoje, e elétrica, não sei como isso pode ser possível, mas de algum modo é. Corri e peguei meu caderno verde oliva, ao mesmo tempo, tento me livrar da bolsa que carrego. Ela vai parar na cama, já desarrumada pela confusão de antes da saída. Dessa vez, não vou deixar a lembrança esfriar. Ou ela sumirá como tantas outras.  Tantas que eu julguei rotineiras e, talvez, eu odeie a rotina.

Então escondia minha caneta. Recusava-me a escrever, mesmo com os meus dedos tremendo emocionados. Eles queriam contar uma história feliz. Coitados, estavam tão cansados daqueles velhos dramas. Mas como escrever sobre algo que tão pouco se conhece?

Não importa! Dessa vez, não vou deixar passar. Eu nem preciso tirar a maquiagem. As imagens estão começando a se dissipar, como tantas outras que se foram, e que hoje me fazem chorar, pois já não se mostram com clareza. Elas fogem de mim, assim como um dia eu fugi delas. E não posso escrever…

É que além da rotina, eu odeio a felicidade. Não consigo compreendê-la. Ela não me foi apresentada. No meu vocabulário faltam palavras que combinem com ela, mas hoje ele me trouxe uma flor tão bonita… Que cor era aquela?

Talvez se pareça com a cor desse vestido vinho, já não tenho certeza. Quem sabe se eu ficar descalça, conseguiria lembrar-me da sensação de caminhar naquele gramado. Eu poderia ir lá fora e esperar que uma brisa soprasse sobre meu rosto. Ela bagunçaria meus cabelos, e eu lembrar-me-ia como é ter alguém para arrumá-los.

Um pouco ansiosa, livro-me dos calçados que abrigam meus pés. Tiro minhas meias 5/8, e caminho até a porta de entrada novamente. Logo após, está a pequena varanda. Busco aquilo que os poetas das mais famosas epopeias almejavam ao evocar as musas ou os deuses. Aquilo que o senso comum chama de inspiração.

Mas olhando bem para este vestido, esta cor em nada me agrada. O chão não pode se parecer com a grama. Volto e me sento no soalho da varanda. Espero. Nenhuma brisa em mim sopra. Meus cabelos permanecem parados.

Então, canso-me da longevidade dessa espera. Como se um balde com incontáveis cubos de gelo tivesse sido jogado em mim, adentro a casa decepcionada. Por sorte, não há nenhuma outra alma acordada vagando pelos cômodos. E, de repente, cá estamos de volta a esse quarto revirado. A caneta está perto e o papel está sob a mesa, mas meus dedos aos poucos se aquietaram. Esperaram muito para serem usados. Passaram de elétricos, para inquietos, um pouco animados, inertes e agora estão como mortos. E a inspiração daquele momento cessou…


Geovana Bogéa

Geovana Bogéa é ludovicense de 27 anos apaixonada pelo ato de escrever. Acadêmica de Letras, Língua Portuguesa e Literaturas (Universidade Estadual do Maranhão), o que significa a realização de um sonho antigo. Além de gostar de se expressar por meio da escrita literária, é professora de Língua Portuguesa e Produção Textual. Ou seja, tem conseguido trabalhar com tudo o que mais gosta: escrita, literatura e educação.

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