Última pétala
Como brincadeira usava as pétalas,
Desfazia-se,
Sou amada,
Não sou amada,
Sou amada,
Não sou amada…
Última pétala.
Resposta supostamente esperada:
NÃO SOU AMADA!
Tudo premeditado,
Destino atroz,
Vida inconformada.
Agruras de uma pobre alma que insiste …
Em amar e não ser amada!
Promessas
Prometeu não magoá-la,
Prometeu cuidá-la,
E assim ela refez-se.
Crendo em promessas,
Já que pelo amor ela tinha pressa.
Hoje, sente-se destroçada,
Arranhaduras e rachaduras povoam o seu ser.
Promessas mais uma vez descumpridas,
Ilusões vividas!
Apneia
Em momentos de tédio busca fôlego nas palavras,
Nessa apneia descompassada, mergulha em busca de encantamentos.
Florescem assim, poesias…
Respira o odor inebriante do sentimento denominado: Amor!
Gesso
Passava horas e horas em silêncio,
Fazia tal façanha constantemente.
Incredulidade da alma,
Provedora da calma.
Atributos contraídos desde o feto.
Seguiu taciturno uma vida inteira.
Embalando seus sonhos…
Sonhos estes, engessados no vão de cada destino!
Sobremesa
Suas palavras eram cortantes,
Sempre demorava a digeri-las!
Entre soluços e nós na garganta,
Passava as noites em claro,
Na tentativa de preencher o vazio ardente no estômago,
Preenchia-o com palavras amargas e indigestas,
As mesmas envenenavam seu âmago,
Como vidro moído,
Mesclados a uma saborosa sobremesa pérfida!
Modéstia
Seu eu fosse um homem se apaixonaria por mim mesma,
Repetia tal frase incessantemente,
Ria descaradamente,
Sua modéstia não possuía censura,
Cruz, credo!
Distraia-se sem propósitos!
Demência
Temia perder-se de si mesma,
Via casos na família,
Parentes que não mais se reconheciam.
Esquecidos e dizimados do seio existencial.
Singulares fatos não mais lembrados,
Rotinas que se repetiam cotidianamente,
Hoje não passam de memórias adormecidas!
Histórias murchas e ressequidas.
– Quem é você?
Quem sou eu?
Não me lembro, são as frases mais ditas.
Fazer-se entender e compreender tornou-se sôfrego e lamurioso.
O viver para contar perdeu-se na memória demente,
Recordar é viver perdeu-se na vaga memória.
Nem chegada, nem partida,
Letargia do pensamento,
Ausência de sentimentos,
Perdeu-se de si,
Perdeu-se da alma,
Experiências não mais relatadas,
Poda da existência, memórias arquivadas.

Márcia da Luz Leal tece sua poesia em um multiverso de saberes. Sua jornada é um mapa lírico que navega com igual profundidade da sintaxe das Letras/Espanhol e da Hotelaria à complexidade da Gestão Ambiental. Mestre em Políticas Públicas e Doutora em Desenvolvimento Rural Sustentável, a autora constrói pontes sólidas entre a academia e a vivência do campo. Essa vasta experiência se materializa em obras essenciais como “Lacunas da Existência” e “Mulheres que Transformam: Vozes e Retratos da Sustentabilidade“, onde a autora traduz, com rara sensibilidade, os saberes técnicos e os depoimentos humanos em pura arte literária.
