por Mayk Oliveira
poeta e colunista da Revista Navalhista
Depois do abismo: poesia diante a brutalidade
O filósofo alemão Theodor W. Adorno (1903–1969), um dos principais teóricos da Escola de Frankfurt, afirmou que “escrever poesia depois de Auschwitz é bárbaro”. Essa formulação, no contexto pós-Holocausto, reflete sobre a crise de sentido e a brutalidade da civilização ocidental, questionando a possibilidade de produzir arte após tamanha atrocidade. A frase aponta para a aporia moral de criar beleza em um mundo que permitiu que a humanidade chegasse ao fundo do poço. Ainda assim, Adorno não defendia a proibição literal da poesia, mas criticava como a arte poderia se tornar superficial ou “bárbara” ao tentar estetizar ou encontrar um sentido lírico no horror extremo.
É a partir dessa tensão que se pode compreender no livro Brutalidade jardim: A Tropicália e o surgimento da contracultura brasileira, do pesquisador estadunidense, Christopher Dunn , como apesar estar sob a brutalidade da repressão da ditadura, a criação artística encontra formas de florescer, fazendo da cultura um campo de confronto entre violência e invenção.
Se formos um pouco mais além, encontra-se essa mesma consciência ecoando na canção “Poison Heart”, dos Ramones, quando o eu lírico, um poeta, reconhece que deve buscar em sua alma a sua responsabilidade mesmo tendo um coração venenoso. É desse solo que emerge a poesia de Giovani Miguez, no livro “Poéticas do Cuidado, das brevidades e das suturas” (Editora Folhas,2025) transformando a experiência fragmentada da vida em escuta, presença e tentativa de sutura.
A experiência proposta pelo livro é grandiosa, no entanto vai se construindo na delicadeza das brevidades, nos pequenos quadros cotidianos. Trata-se de uma experiência de atenção. O leitor é convidado a desacelerar e a reaprender através dos poemas a espessura do banal. Nesse sentido, podemos qualificar como uma poética da observação que se desdobra em uma pedagogia do sensível onde o mundo não se reinventa por inteiro e segue reencontrado em sua pulsação mais simples. E é dentro dessa simplicidade que a poesia de Miguez se afirma como possibilidade de reorganizar a própria existência.
No livro “Poéticas do Cuidado, das brevidades e das suturas” (Editora Folhas,2025), a poesia se organiza num percurso existencial que não se resume ao temático, sendo ético e pedagógico. No poema “Unidade” temos os versos: não há o humano e a natureza / disto devíamos ter certeza, exemplificam bem essa postura. O tema recorrente que sustenta a obra é o cuidado entendido em sua dimensão ampla como gesto cotidiano, como forma de resistência ao endurecimento do mundo e, sobretudo, como modo de permanecer humano diante da dispersão contemporânea. Um caminho que parte do instante mínimo, atravessa o olhar como prática e desemboca na tentativa de recompor aquilo que a vida fragmenta.
À medida que o livro avança, essa experiência se adensa. O cuidado aos poucos vai deixando de ser percepção do entorno e se configura como um imperativo ético. Vai surgindo uma tensão entre dois modos de estar no mundo: o controle e o cuidado. Enquanto o primeiro se associa à técnica, à racionalização e à frieza das estruturas, o segundo se ancora na presença e na responsabilidade com o outro. Essa oposição nada simplista, constitui o conflito da contemporaneidade.

A tensão aparece de forma exemplar em poemas que orbitam esse embate, como vemos no poema “Cuidado”: o cuidar / esse ato circular / nos envolve / pois todos somos capazes de cuidar”. O cuidado evoca que a vida não se deixa capturar inteiramente pela lógica da técnica, mas exige entrega. O poeta Miguez sugere que, sem o cuidado, a técnica se torna desumanizante; sem o afeto, o progresso se converte em distopia. Assim, a obra mantém a reflexão sobre a urgência de uma “sociedade do cuidado”, capaz de enfrentar o cansaço e a indiferença das relações espalhadas em seus poemas.
Então, destacamos aqui, que o livro nesse ponto revela sua necessidade no mundo atual. Em uma época marcada pela aceleração, pelo excesso de estímulos e pela fragilidade dos vínculos, falar de cuidado de forma poética, é um posicionamento político e existencial. Miguez sem ignorar a miséria, o abandono, a alienação e tantas outras feridas sociais, se recusa a tratá-las apenas como denúncia. Em vez disso, aposta na palavra como sutura; um modo de remendar, de manter coesa uma subjetividade ameaçada pela fragmentação.
Na parte final, dedicada às suturas, a experiência se torna mais sombria. Miguez enfrenta suas próprias fissuras. A poesia assume um caráter terapêutico e super estético. Não, não é resolução dos conflitos buscados pelo poeta, mas sim, a possibilidade de habitá-los de outra forma. Escrever para sobreviver. A ideia de que “a poesia não cura, mas sutura” surge como uma espécie de mantra, do fazer poético demarcando que ele é ao mesmo tempo, frágil e indispensável como vemos no poema “Reparo”: há nas palavras um fio mínimo / que tenta costurar o que se rompe.
Ao fim, como lembra a filosofa italiana, Luigina Mortari, “conservar-se na responsabilidade do cuidado é difícil”, pois não há controle sobre as ações nem garantia de reconhecimento, o que torna o cuidado um gesto ético ainda mais radical. Portanto, “Poéticas do cuidado, das brevidades e das suturas” (Editora Folhas,2025) se apresenta como um livro que insiste na delicadeza em tempos de brutalidade. Sua força reside justamente nessa recusa do espetáculo e na aposta no mínimo, no gesto simples, no detalhe que resiste. De forma ampla a obra propõe um deslocamento, convidando o leitor a cuidar de si, do outro, do mundo como se escrevesse um poema, com atenção, com presença e com a consciência de que, mesmo sem curar, ainda é possível suturar.

Giovani Miguez é poeta, escritor e servidor público. Especialista em Sociologia e Psicanálise, mestre e doutor em Ciência da Informação, com formação em Biblioterapia e mediação de leitura. Nascido em Volta Redonda (RJ), hoje reside no Rio de Janeiro. É autor de 18 livros, entre eles Um elogio à preguiça, Amor fati e Notações paridas (Uiclap, 2024) e seu mais recente livro de poesia, Poéticas do cuidado, das brevidades e das suturas (Editora Folhas, 2025). Na sua poesia, Miguez explora a expressão e reflexão existencial. Ora lírico, ora político, ora científico, mas sempre est(ético), o poeta segue sendo profundo em suas generalidades.

![GIOVANI MIGUEZ – Poéticas do cuidado, das brevidades e das suturas [resenha]](https://revistanavalhista.com/wp-content/uploads/2026/06/1000294434.jpg)