MARIANA DE LOS VALLES – O fio que corta o mundo [crônica]
MARIANA DE LOS VALLES – O fio que corta o mundo [crônica]

MARIANA DE LOS VALLES – O fio que corta o mundo [crônica]

Quando criança, lembro de me perguntarem o que eu queria ser quando crescesse. E por mais que a pergunta fosse simples, algo em mim sempre travava. Talvez porque, mesmo pequena, eu já intuía que o mundo não funcionava como diziam. Que havia algo errado — um jogo sendo jogado muito acima da nossa cabeça.

Nas séries, nos filmes, nas novelas e até no xadrez, vemos como o poder é disputado por táticas e estratégias nas mãos de poucos. Nós, a maioria, somos apenas peões — peças movidas de um lado para o outro. E somos muitos.

Se por aqui já temos nossos próprios problemas, hoje — graças à globalização e à velocidade com que a informação circula — conseguimos saber o que acontece do outro lado do planeta, até mesmo nos lugares mais distantes e esquecidos.

Ignorar o conflito entre Israel e Palestina é estar completamente adormecido. Mas a pergunta é: o que podemos fazer daqui?

Não é preciso ser de esquerda ou de direita para desejar, implorar e se manifestar contra qualquer guerra, contra qualquer injustiça que derrame sangue inocente — principalmente o de crianças.

Mas estamos até o pescoço de programação: a educação que recebemos, os meios de comunicação, a grande indústria cultural — aquela que foi Hollywood — nos lavou o cérebro a tal ponto que já não sabemos mais “de que lado ficar”. E, por fim, a pandemia nos isolou e individualizou, transformando-nos em meros consumidores na era do marketing digital.

Hoje mesmo vi um vídeo: mulheres se manifestando contra a guerra durante uma conferência da Microsoft. Eram funcionárias da empresa e foram demitidas por isso. Uma delas acabou sendo readmitida, talvez para acalmar os ânimos. Bill Gates estava ali. Irônico, pensei — protestar contra a máquina usando a própria máquina, alimentando com visualizações o mesmo sistema que aniquila.

Mais irônico ainda: eu estava assistindo àquilo usando o Word — um produto da própria Microsoft, a mesma que apoia o Estado de Israel no genocídio do povo palestino. A verdade é que desaprendemos a sentir. A distinguir o bem do mal. Perdemos a capacidade de reagir.

Mas ainda dá tempo.

É urgente se posicionar: contra o mal e a favor do bem. Voltar a ser humano. E nos fortalecer diante do fio que corta o mundo — esse mesmo fio que um dia cortou minha infância, minhas certezas, e que hoje me atravessa inteira, como mulher, mãe e sobrevivente de uma era onde o silêncio se tornou cumplicidade.

Mas há algo que ele jamais poderá cortar: o fio da memória, do amor, daquilo que ainda nos torna humanos.


Mariana de los Valles

Mariana de Los Valles é argentina, vive no Brasil, é mãe e escritora. Formada em Pedagogia e idiomas, escreveu um livro sobre sua travessia a pé pelo litoral brasileiro. Hoje escreve sobre sua história pessoal atravessada pelo contexto político-social latino-americano.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *