ESTEFANE SILVA – Epístolas: uma enunciação. (Do êxtase à livre associação) [crônica]
ESTEFANE SILVA – Epístolas: uma enunciação. (Do êxtase à livre associação) [crônica]

ESTEFANE SILVA – Epístolas: uma enunciação. (Do êxtase à livre associação) [crônica]

(…) As obras dos grandes poetas até hoje não foram lidas pela humanidade, porque só grandes poetas podem lê-las. […] A maioria dos homens aprendeu a ler tendo em vista a utilidade mesquinha, do mesmo modo que aprendeu a calcular a fim de tomar nota das receitas e despesas e não ser trapaceado nos negócios; mas da leitura enquanto exercício intelectual nobre, pouco ou nada sabe. — Henry D. Thoreau, in “Walden” (vida nos bosques).

Um retrato, ou caricatura de boa parte dos leitores. Há princípio, eu, inclusive, estive entre os que faziam parte desta realidade. Partir de quando fui apresentada à literatura, sujeita fazer parte da ala dos que encaram o exercício da leitura como obrigatoriedade, no sentido acadêmico. No entanto, após esta primeira experiência, um verdadeiro convite à adentrar no enlaço de outra dimensão, passei a encarar de modo delinear, à julgar pela sensação tão aprazível! Uma das melhores, dita a oportunidade de experimentar variadas formas de conhecimento.

É quando passamos a nos sentir diminutos. Pequenos demais para equiparar-nos. É quando deixamos de estar no modo automático, quando compactuamos com o fato de que nada sabemos, e quanto há para se descobrir, enamorar-se. Inexoravelmente, forjamos uma aliança com o divino. Com o cosmos, com o quanto nos torna fluídos! Não há como explicar tamanha congratulação, uma conjuntura! É bradar, como Gonzaguinha em uma de suas canções mais celebres: “Cantar, e cantar, e cantar, a beleza de ser um eterno aprendiz”.

É descobrir-se em uma das mais propaladas teorias, pouco explorada e compreendida, a kafkiana. É deixar de ser efêmero, deixar de ser só matéria, um amontoado substancial e massivo. Em outras palavras, é espiritualizar-se, deixar de ser um mero mortal, para tonar-se um ser transcendental, como haveria de dizer-me um amigo, em um de vossos diálogos efervescentes. E que esperar, se não concordar com isto? Pois, sabemos in memória, quão significativo, é sentir-se infindo. (…)

Tenho a modéstia de lhes confessar, que não devoro grandes obras frequentemente. A leitura para mim tem de vir no sentido mais castiço, como uma necessidade vital, para alimentar as vossas cernes. Naturalmente, há dias em que não estamos dispostos a encarar e interpretar de forma clara, a exegese de cada parágrafo, com a mesma excentricidade, um salto, ou um grande mergulho, como um idílio à tornar o que estamos lendo/envolvendo-nos, algo representativo. Mas, posso dizer, que sempre que estou com um livro em mãos, ofereço-o o meu coração, a mais generosa forma de alteridade.

Em todo caso, faço o possível para continuar os exercícios e dar resistência aos músculos do córtex (ventrículos, lobos e área de wernicke). Pois não sou apta à academias, de alguma forma tenho de praticar algum esporte. Caso contrário, estaria pondo em risco a própria saúde e sanidade mentais, e graves seriam as consequências/sequelas desta letargia: Atrofia dos músculos encéfalos, este o sendo o principal diagnóstico. Com os neurônios já obstruídos, o terminal do axônio não conseguiria formar e estabelecer uma corrente elétrica que impulsionasse e induzisse a pensar com clareza o bastante.

Apesar de minha inconstância meio à tentativa de preenchimento, desde todas as perífrases às chances de subterfúgio, certifico-os de que me seja terapêutico. Pois o ato de transcrever meia dúzia de sensações per captas, convertendo-as em palavras de gênese e natureza eferentes, sobre o que nos é inerente de fato, por puro êxtase. Em máxima: funciona como uma lâmpada do Thomas Edson, que acende inesperadamente e sem planejamento, através de ondas eletromagnéticas, acoplando as ideias em uma estratagema (num estalar de dedos, uma única faísca à por a prova uma centelha). Tamanha a minha indulgência, levaria à uma dose fragmentária de expressões e verbos de ligações, que resultariam na construção de uma dialética parca, mentecapta e promissória. Causando-os uma dislexia nervosa.


Estefane Silva

Estefane Silva é poeta e fotógrafa, natural de Caruaru, PE. Em sua escrita, transita entre o efêmero e o transcendental, captando a beleza e a intensidade do cotidiano. Fascinada pelo encontro entre literatura, memória e sensorialidade, explora palavras como quem traça mapas da alma humana, registrando fragmentos de existência e silenciosa poesia. Sua obra busca despertar percepções sutis, convidando o leitor a mergulhar no êxtase da reflexão e da livre associação.

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