LAÍS EFSTATHIADIS – 4 poemas
LAÍS EFSTATHIADIS – 4 poemas

LAÍS EFSTATHIADIS – 4 poemas

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E AQUI TANTOS ROSTOS

 

palavras que percorrem rostos pela linguagem do traço e cumplicidade da íris.

Enxergar rostos apagados como espelhos, paradoxos,

entre tragicomédias e a veracidade de um gesto,

da repetição à exaustão até que se torne verdade,

da invencionice,

entre progresso e massacre, terra e fome, mercado e mito, a memória

na palma de uma mão que não morre, o olho na ponta da faca

apontada para o que não tem nome.

 

A faca que se aproxima do olho

como se o músculo atrofiado fosse de sempre duro. Um estímulo

mover um dedo

uma pálpebra

erguer um punho

um rosto acaricia a musculatura e memórias celulares colidem pelo

toque de seus dedos

reconhecimento nervoso dos mapas,

o contorno ilusório de um corpo, de uma cerca

é um limite

outro rosto se atenta à história das cicatrizes e textura, formato e

violência do corte:

– aqui caberia um país inteiro!

 

e se despede com um beijo

de bocas

que sopram estátuas de sal em direção ao mar

e, deste sal,

que é suor e grosso

é carnaval

bocas anárquicas do fim do mundo

com gosto de cachaça e sangue,

bocas com sede

bocas que renascem em outras línguas e nessas línguas imergem no

íntimo e do íntimo

bocas que dilaceram bocas

bocas póstumas, bocas putas.

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ESCREVER UM POEMA DESARMARIA UMA BOMBA ?

 

 

palestinas

 

mesmo quando

sob os destroços

(depara com jesus recém-nascido, envolto na keffiyeh e sente

as cores da bandeira)

 

mesmo quando

sobre as lacunas

(ocupá-las com nomes esquecidos)

escrever um poema, cometer um delito

como quando

uma gota de petróleo

(e as de choro e sangue quente)

como quando escorrem na ordem geográfica

como quando se carrega a casa nos ombros

como se culpássemos as mãos e não as cabeças

escrever um poema, cometer um delito

 

como se

um poema fosse

uma criança

como se

um poema fosse uma pergunta

como se

um poema fosse

um prato de comida

como se

um poeta fosse

quem ousa desarmar uma bomba.

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QUANDO ME REFIRO A VOCÊ

 

me refiro a todos os murmúrios das ondas do mar e do vento

como se perguntasse a um reflexo o que se encontra de errado nos

homens, e ele me respondesse com um sorriso, manso, mudo,

e ali estariam todas as respostas.

Há certos dias em que me esqueço de certas palavras,

como se não existissem

como quando se sonha sair sem roupas,

como quando se caminha sem direção

e você está lá, sem ter um nome

um menino, uma mãe, uma mulher qualquer em uma rua qualquer

é um instante entre o dia e a noite,

o encontro improvável entre extremidades

desobediente, indisciplinado

o olho na ponta da faca

porque a voracidade dos dias é dura demais

e isto é menos sobre um país do que sobre

 

Há algo aqui que te devora, assim como fazem com tudo que

transborda.

Há um gosto metálico na boca, talvez do peso

é uma sensação

a liberdade é um desaforo,

um estilhaço

uma dança, um ferimento

saiba que os dois pulsam assim como pulsam

imagine as cordas de um instrumento,

depois os dedos

é isto a música.

Sou uma cadela e babo raiva pelas órbitas

porque tenho medo de um olho que é morto

medo da morte pessimista e derrotada

sou uma cadelinha

latindo essa espécie

de indignação.

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CORRO

 

como um animal limitado

e minhas patas de cadela

e meu instinto animal

ouço uma espécie de música que nasce do,

ou seja, silenciosa

e todos os espaços em branco cheios de saliva babo, rosno

retorcendo meus braços tentando alcançar outros braços:

esses também procuram.

E o som preenche este vazio, transborda

pequenos pontos irradiam e formam imagens:

são constelações

– existe presença no escuro,

assim me contestam as estrelas

como corpos celestes dentro e fora do meu corpo

excessivamente fortes e explodem e despencam

 

a imagem de um buraco

no centro da Terra

buracos negros do tamanho de um punho

perturbam a paisagem

e todos os tremores inomináveis:

as estrelas

o escuro

o som

atravessam meu coração rendido.

LAIS EFSTATHIADIS

Laís Efsrathiadis é poeta, atriz e educadora formada pela Escola Livre de Teatro. Integrante do coletivo Verborrágika, grupo independente de pesquisa a partir do diálogo entre performance e poesia. No teatro, escreveu as dramaturgias das peças “Sopa BR” (2021), “Venganza” (2021), e a performance “O fundo do olho do trabalhador” (2023). Em 2024, publicou o livro de poesias “Desobediência do olho” pela editora Selo do Burro, e atualmente é educadora na Pinacoteca de São Paulo.

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