‘Minha cumade, eu li num livro que a paixão é a coisa mais brega do mundo! Consome o ser humano. Vai na carne, entendeu?’
Eu sou puta. Não beijo na boca de homem nenhum e não quero cafuné na foda. Faz o teu e me dá o ‘faz-me rir’. Já falo logo assim pra não esticar a conversa.
Bateu o copo trincado na quina da mesa e só então percebeu já tê-lo usado outras tantas vezes. Encheu-o em outras noites, antes de outros homens, com pitú ou cerveja — o que estivesse pago pelo cliente da vez. Aquele copo, a única testemunha de suas retiradas da madrugada para o cabaré Selva de Pedra.
Na cama, o sexo ereto em meio a um turbilhão de linhas negras, fosforescidas pela luz vermelho-turva da placa que batizava aquele canto isolado.
Poucos metros acima, ficavam a igreja e, logo atrás, o cemitério onde sua mãe e sua avó agora se encontravam. A prefeitura, a escola. E aqui embaixo, ela. No puteiro. Uma instituição também importante para o bom funcionamento da cidade. Era isso que repetia para si mesma quando a olhavam atravessado. Nem se lembrava de onde tinha lido ou ouvido essa palavra “instituição”, mas parecia ter peso de respeito.
Ela pensou que aquele homem tinha se preparado demais pra um evento daqueles; sentia o cheiro de colônia que não era tão barata e até do gel usado pra conter os cachos pretos, insistentes e desordeiros, agora contidos à esquerda.
Ele a puxou suavemente. Seus olhos, porém, não se atreveram a subir para o rosto dela; cravaram-se, espantados, nas cicatrizes dos seios. Cicatrizes que pareciam rogar para que ele se pusesse de joelhos por aquela mulher. E ele o fez.
“Você parecia não querer quando te chamei… Vou pagar mais, quanto você quiser.”
“Pra que essa pressa toda?”
“Puta não se demora na cama.”
“E por quê?”
“Uai, pra não se apaixonar!”
Marinalva não sabe, mas hoje há de ser o dia em que será promovida.

Gustavo Lago nasceu em Vila Velha/ES, em maio de 1997. É leitor, aspirante a escritor, entusiasta das artes e advogado. Esse e alguns outros escritos são feitos em momentos de precisão.

![GUSTAVO LAGO – Meu coração? Eu rifei [conto]](https://revistanavalhista.com/wp-content/uploads/2026/08/unnamed1-scaled.jpg)