Para Malala Yousafzai
As crianças em casa, assistem na televisão
As crianças em Gaza, sem casa
Elas já não se comovem,
As crianças em casa, aprenderam desde cedo…
Ou melhor esqueceram: a diferença
Entre a morte e o genocídio
Diante da tv tudo é fragmento
Se não de corpos, de prédios, de coisas…
De pensamento!
As crianças em casa
Diante da tv desaprenderam a pensar
As crianças em Gaza não tiveram…TEMPO.
Foi mais rápida, a autoritária
Ave carniceira da morte!
Somos todos crianças…
Não tivemos casa, amor, nem sorte…
Sem passaporte nem nome
Atravessamos muros e mares
Passamos por cima de nós mesmos
Para sobreviver…
E desaprendemos a pensar
E nesse desaprendizado frágil
Nos esquecemos de amar!
Eu, assim como Martin Luther King…
Sonho! com o dia em que todas as crianças poderão sonhar!
Daqui de casa até Gaza poucas léguas são de distância
No meu país também se morre de fome e diante da tv
Sob a globalização também nos tornamos miseráveis
Filhos bastardos de uma terra que nunca foi nossa
Ela até foi nossa mas nós ainda não éramos nós…
Sonho com um dia em que todos…
Levantaremos juntos, contra a injustiça
Não haverá mais polícia nem exército:
Deus, Oxalá, Buda, Tupã e Alá…
Reinarão juntos sobre a terra
E nenhum de seus filhos será esquecido…
E tu? Que me lês? Sonha com o que?
Meu coração pescador
Meu coração pescador
Quer encontrar o teu que é do mar
Meu coração selvagem
Quer te encontrar, em alto mar
Meu coração pescador
Foje da dor, quer te beijar
No meio das águas, em alto mar
Meu coração que é de flor
E meu corpo que é selvagem
Quer te encontrar na beira do mar
De lá até Salvador é todo teu o meu amor
Francisco
Meu coração pescador
Foge da dor…
Meu corpo mar…
Quer te encontrar
Como as ondas
A te molhar
Teu coração caçador
Palpita…
Como ave de rapina
Teu corpo lobo
Me alucina
No meio da noite
Meu corpo e o teu
É a minha sina
Então vem e me assassina…
Me mata mesmo
Me mata!
Para que eu possa
Nascer de novo
Por entre as pedras
Na Mata Atlântica
Serra da Ibiapaba.
Amor(a)
A amora de tanto amor
Tornou-se doce
De tão doce, caiu
E de tanto cair
Morreu..
Pisoteada por um transeunte
Desatento ao seu amor.
Terça-feira
O sol me atravessa o peito
E encontra o meu coração
Encontram-se e se confundem
A chama revolucionária da transformação
E o fogo primitivo da vida
Num só corpo: o meu.

Darlan dos Santos Pereira, tem vinte e três anos de idade sendo que desde os seus quinze anos se dedico formalmente às artes. Seja nas artes cênicas ou na escrita através da publicação dos seus textos em antologias, concursos literários, rodas de poesia e saraus, sua arte se manifesta carregada de um discurso a partir do lugar de quem sempre questiona: “Quem sou? Quem somos? De onde vim/viemos? Para onde quero/queremos ir/chegar?” tudo isso o interessa e importa muito como artista. Atualmente, vivo no centro de Porto Alegre, numa ocupação do movimento sem-teto, onde também trabalho na fundação de um ponto de cultura: a Garagem da Cidade.

