Diogo Santiago
Tradutor, romancista, ensaísta, crítico literário e colunista.
Um pequeno rio tranquilo
Mencionada mais de duzentas vezes na Bíblia, Babilônia é a Babel do Antigo Testamento. É a cidade em que os homens querem erguer uma torre que chegue no céu; cidade cuja destruição é profetizada pelos livros de Isaías e de Jeremias. É, em outros termos, a “grande prostituta” do Apocalipse.
Reza por outro lado a historiografia ocidental que, perto do ano 450 antes de Cristo, Heródoto percorreu a Mesopotâmia: Babilônia existia ainda mas estava arruinada, caindo aos pedaços por causa do impiedoso castigo de Xerxes, o persa, contra o império do qual ela se tinha revoltado, entre 478 e 477 a.C.
O Eufrates corta a [Babilônia] pelo meio, dividindo-a em dois quarteirões. O rio é grande, profundo e rápido; vem da Armênia e desemboca no mar Eritreu. Algumas das muralhas se prolongam sobre o rio formando cotovelos, e é daí que parte um muro de tijolos, bordejando o Eufrates. (Heródoto, Histórias, l. 1, § 180.)
NʼA cidade do sonho de Eufrates (2026), obra de Henrique Auroux publicada pela Urutau, nenhuma ocorrência do vocábulo “Babilônia”. Ué, mas por onde passa o rio? Pela vida das personagens, responderia quem tivesse na mente a canção de Paulinho da Viola. Por onde passa o rio? Se deixasse os amplificadores de lado e voltasse ao livro, o fã de MPB notaria que, até quando não quer, o texto de Auroux dá as respostas certas: o rio era “tão antigo que parecia anterior às montanhas”, era “um rio tão extenso que atravessava terras que ninguém conseguia enumerar”.
Como o título da obra indica, Eufrates é aqui uma entidade no sonho da qual consta uma cidade. Eufrates não somente sonha, mas também se multiplica.
“Numa tarde a Bruxa encontrou um desenho preso ao tronco de uma árvore. Mostrava três Eufrates. Um dormia. Outro desenhava. O terceiro observava os dois.”
E não é só Eufrates que sonha com a cidade na qual a trama se desdobra.
“O homem começou a sonhar. Primeiro, sonhos pequenos. Uma rua. Um rio. Um cachorro. Depois, sonhos maiores. Uma noite acordou assustado. — Vi uma cidade. — Que cidade? — Não sei.”
Embora Eufrates se multiplique, de modo a poder observar-se tanto sonhando com o rio quanto o desenhando, o rio, por sua vez, permanece uno: é o fio condutor das histórias necessárias e das estórias impossíveis. E a cidade por onde ele passa, seja ela Babilônia ou não, é aqui um ponto de convergência dos elementos, das temporalidades, e dos pensamentos.
“O homem chegou à cidade numa tarde de chuva fina. Trazia apenas uma mochila e um segredo. O segredo pesava mais. A primeira pessoa que encontrou foi a velha cega. Sentada diante da banca de frutas vazia. Como sempre.”
E para quem sabe que nesta cidade “existe um bairro que só aparece para quem está prestes a recordar alguma coisa”, no qual “as ruas são estreitas”, “as casas possuem portas verdes”, “as janelas estão sempre abertas e em todas elas alguém parece observar mas nunca há ninguém”, a presença da velha cega é sempre um alívio.
A despeito portanto de vir dissimulada por uma terminologia genérica que dá à ficção uma etiqueta de conto de fadas, a cidade da trama de Auroux, a cada evento, palpita sem enigmas. Diferente da “mochila” do “homem”, o fio narrativo aqui, em outros termos, não contém segredos, nem pesados nem leves. E não é somente a “velha cega” que está geralmente presente para que a encontre o visitante.
Na segunda noite [o homem] voltou a sonhar. Desta vez viu o rosto. Uma menina. Oito anos. Talvez nove. Lembrou-se imediatamente. Vinte e três anos antes. Uma estrada. Bebida. Velocidade. Pânico. Uma criança atravessando a pista. O impacto. A fuga. O silêncio. A mentira. Ao despertar estava chorando. Fazia vinte e três anos que não chorava. Passou o dia inteiro sentado na capela. A única construção da cidade que nunca desaparecia. As velas queimavam dia e noite. Mesmo quando não havia ninguém. Sobre as paredes havia desenhos presos por alfinetes. Centenas deles. Todos mostravam o mesmo bebê encolhido. Braços dobrados. Joelhos junto ao peito. Olhos fechados. Sob cada desenho uma legenda diferente. Eufrates dormindo. Eufrates ouvindo uma oração muito antiga. Eufrates sonhando com uma cidade que não conseguia esquecer. Eufrates lendo livros sobre sonhos que nunca terminam. O homem observou os desenhos durante algum tempo.
A equação é simples: de um lado, a “velha cega” acolhe os que chegam nʼA cidade do sonho de Eufrates; do outro, a menina os desenha. Ficamos com a tentação de postular que, embora desenhe sem parar “um bebê encolhido, braços dobrados, joelhos junto ao peito, olhos fechados”, embora pareça existir somente para desenhar e pregar os desenhos nalgum lugar, a tal menina, assim como a “velha”, também reconforta viajantes e transeuntes com sua presença garantida.
Para quem lê o texto, aliás, fica difícil crer que o verbo curto e simples no qual se encarna esse eterno retorno não garanta, para além de qualquer psicologia, o tão sonhado sentimento de ergonomia: zero risco de repetir a leitura por não ter entendido uma frase. Flertando com jargões, poderíamos daí concluir que A cidade do sonho de Eufrates é um texto que não para de avançar, e isso seria suficiente, mas um tanto impreciso, pois sua leitura provoca sobretudo um suave sentimento de queda: parece até a água do manancial de montanha que, límpida e discreta, escorre pela rocha.
Se admitirmos por outro lado que, como na canção de Nação Zumbi, no sonho de Eufrates “a cidade não para”, nada impedirá que a percebamos ela mesma como um rio. E no que tange ao próprio Eufrates, nomeado por sua vez mais de cinquenta vezes no texto, digamos que, na sua complexão, a parcela de rio permaneceu decerto profunda mas deixou de ser primária. Melhor dizendo, sua essência deixou de ser rio.
“Eufrates dormindo. Eufrates ouvindo uma oração muito antiga. Eufrates sonhando com uma cidade que não conseguia esquecer. Eufrates lendo livros sobre sonhos que nunca terminam. O homem observou os desenhos durante algum tempo.”
No curso dessa hidráulica textual, a brevidade das frases se ajusta naturalmente à profundidade do texto, e confere à língua uma simplicidade com a qual o leitor brasileiro já esteve habituado e que, de tão massacrada pela vaidade de certas plumas de palanque e pela cobiça cada vez mais bilionária do mercado editorial, terminou escanteada pela frase longa e obscura. Considerando a conjuntura atual do campo literário brasileiro, a textualidade de Auroux, em outros termos, é uma câmara de oxigênio em águas pantanosas. Se na vida real o regime do Eufrates enfrenta uma inundação espetacular entre abril e maio, ligada ao derretimento massivo da neve nas montanhas do leste da Anatólia, na ficção de Henrique Auroux, em suma, o regime do texto, sem se deixar transbordar por derretimentos de vaidade, segue seu curso sobriamente.
Isso posto, vale salientar que, assim como o rio que desce das montanhas da Armênia, o conto de Auroux, embora sóbrio, também se divide e se subdivide. Uma viúva que viaja, uma cega que espera, um Exterminador sem rosto, carpinteiros que pregam os próprios dedos e esquecem de instalar janelas, engenheiros que invadem cidades, enfim, nʼA cidade do sonho de Eufrates, as personagens são os braços, e os canais são os seus sonhos, através dos quais o leitor se deixa levar de mansinho pelo estilo depurado do autor; um estilo, por assim dizer, “código-civil”, para retomar os termos de Stendhal (1783-1842).
Para encetar nossa conclusão, poderíamos tentar um novo paralelismo. Digamos que se os soberanos babilônios tentaram dominar o curso do Eufrates, e principalmente mantê-lo no seu leito durante suas enchentes espetaculares, a topografia interna de Babilônia, por ter sofrido uma profunda mudança na época persa, não podia mais ser domada. Ora, se a vontade de parecer tanto legítimo quanto original terminou inoculando no escritor brasileiro um estilo enfadonho e obscuro, a topografia interna de Henrique Auroux, por ter sido profundamente moldada pelos estudos de direito e pelo exercício da advocacia, parece resistir às exuberâncias da vibe neo-barroca dos nossos tempos, gênero internet, tipo startup.
Melhor dizendo: a textualidade curta e grossa dʼA cidade do sonho de Eufrates (Urutau, 2026) permite notar que seu autor, além de jurista, é antes de tudo um leitor. Quanto a nós, leitores da sua aventura, ficamos com a nítida impressão que ele foi vacinado contra o vírus da frase longa e sem nexo que assola o leitor de aeroporto, esse sujeito de paletó que não tem tempo de estudar e adora achar-se inteligente.
Dessa sensação de inteligência perante obscuridades e contrassensos que constitui a espinha dorsal do festival de idílio e contemplação no qual o capitalismo das fusões transformou a literatura brasileira, Auroux nos poupa com elegância, e sem perder a modéstia.
Enfim, com A cidade do sonho de Eufrates (Urutau, 2026), foi não uma torre para chegar no céu da literatura que nos deu o seu autor: embebido de generosidade, ele nos deu foi um pequeno livro de águas tranquilas, para que a gente as navegue, ou para que elas naveguem a gente.

Henrique Auroux é escritor e advogado, nascido e residente em Santos, São Paulo. Sua ficção transita pelo fantástico, pelo horror e pela ficção especulativa, explorando temas como memória, identidade, afeto, metamorfose e os limites da condição humana. É autor de Fábulas Brutas (Ópera Editorial), e de Corpus Vorax (Caravana Grupo Editorial), além de participação em outras coletâneas de contos.

![HENRIQUE AUROUX – A cidade dos sonhos de Eufrates [resenha]](https://revistanavalhista.com/wp-content/uploads/2026/10/HENRIQUE_AUROUX_CONTRACAPA_COR-scaled.jpg)