HENRIQUE PERIN – Artéria [conto]
HENRIQUE PERIN – Artéria [conto]

HENRIQUE PERIN – Artéria [conto]

– Olha como vai este ano, Artéria. Todos os dias as tropas chegam e partem, sempre tem gente morrendo…

– Dois primos do Valente se foram quando os homens do General Honório Lemes passaram por aqui, Ilna. Outro também está servindo, mas do lado dos chimangos. Estão dizendo que na paróquia em Cáscara tem recrutamento de soldati.

– E o velho Domênico? Ele disse alguma coisa ou continua calado?

– Não disse nada. Ele está meso mato. Não recorda de nada, não fala niente. E também o Valente está brabo. Não sei a razão. Desde que voltou, ele está sempre brabo. Sempre olhando pro velho com raiva. Acho que é por causa da revolução. O Domênico e três zii do Valente estiveram na guerra de 1893. Pensei que ele entendesse como essas coisas acontecem.

– Teu sogro não ficou assim por causa de 1893?

– Não, foi muito depois. A guerra se passou faz uns trinta anos e o velho está meso mato há uns três. Hoje ele só fica sentado na cadeira da cozinha, sem se mexer, com os òcii vazios. Fica murmurando coisas sem sentido, remoendo os seus pecados. Aqueles òcii asuli pálidos não têm vida, nem vontade. Antes eram tão vivos, tinham uma chama que brilhava quando conversava. Hoje, niente. Eu que preciso colocar polenta na boca dele.

– Eles têm sorte por te ter em casa.

– O Valente não estava aqui quando o Domênico adoeceu. Estava na colônia Dona Isabel, explodindo pedra pra abrir o caminho pra Alfredo Chaves. Eu que precisei cuidar de tudo.

Ti já estava de barriga?

Si. Foi na última semana antes do Valente ir pra vila Dona Isabel.

– Quanto tempo ele ficou lá?

– Quase un anno e mezzo. Eu fiquei sozinha com o Domênico. Ele ainda estava bem, mas não demorou a perder o juízo. Ainda me ajudava na roça e em casa. Aí fiquei sozinha, prenhe e com un nono bestemador. O Valente só conheceu o toseto uns meses depois que nasceu, foi trabalhar sem saber que eu estava grávida.

As duas mulheres conversavam enquanto o filho de Artéria brincava com alguns sabugos no chão. Sua mãe se levantou, abriu a porta da cozinha e respirou os primeiros ares de outono. Voltou a se sentar ao lado de Ilna.

– O tempo está mudando. Logo o inverno vai chegar e os homens vão continuar a guerra. E que guerra estúpida! Não entendo por que brigam tanto. Ou é branco, ou vermelho. O Valente colocou um lenço vermelho e foi pra vila essa manhã.

– Mas é assim mesmo, Artéria. Eles se separam entre brancos e vermelhos. Il mio uomo não foi pra guerra, mas me diz que aqui em cima somos todos vermelhos. A paróquia, o juiz, os professores, todos no Barracão são vermelhos.

– Branco, vermelho… Pra mim é a mesma coisa. Continuo acordando pra tirar o leite das vacas, fazendo o almoço, colhendo os ovos, plantando na horta, alimentando a criação e roçando no morro. Nada mudou. E nada vai mudar. Nem em 1893 e nem agora. Vamos continuar dormindo, acordando, trabalhando e cuidando dos bambini.

Artéria olhou para seu filho que continuava brincando, absorto na conversa, com seus olhos azuis claros quase transparentes, mas vivos, como que se chispassem. Passou a mão na sua cabeça e falou baixinho para Ilna, quase que em tom de confissão:

– O Arcido é diferente. Já nasceu diferente. Ele vai crescer e aprender a ler. Vai ser cura, ou doutor, ou professor. Vou mandar ele estudar com os padres, vai aprender as letras, os números e as coisas. Não vai ficar aqui na roça.

– Já disse isso pro Valente?

– Ainda não, mas vou falar. O Arcido é mais que esperto as outras crianças.

– Os olhos são mais vivos. E asuli. Não como como os seus ou os do Valente.

– São asuli, como de suo nono.

– O que o Valente foi fazer na vila?

– Foi falar com o padre. Queria saber dos primos que foram para a guerra.

Artéria voltou até a porta e novamente respirou o ar gelado do outono. Olhou para o céu e calculou o horário pelo sol. Os dias estavam escurecendo mais cedo. Já era tempo de voltar. Arcido continuava brincando com os sabugos.

– Temos que voltar. Logo o Valente chega e ainda preciso tirar o leite e preparar a janta. Isso se o Valente ainda não chegou.

– Deixa o Arcido aqui e vai fazer as tuas coisas. Assim não se atrasa. Hoje a minha filha está cuidando da criação e posso ficar na cozinha. Deixa o toseto e vai pra casa. Depois de tirar o leite você vem e pega ele.

Grazie tanto!

Artéria se despediu. Atravessou o quintal da vizinha e voltou pela estrada. Andou pouco menos de 800 metros quando chegou em casa, e contornando-a, sentou na escada ao lado da entrada do porão. Descalçou seus chinelos de couro e encontrou as botas de Valente, seu poncho, sua sela e seus arreios pendurados. Acreditando que seu marido estava cuidando dos porcos, tirou o casaco e também o pendurou na parede. Aproveitou para subir a escada, espiar dentro da cozinha e ver seu sogro dormitando ao lado do fogão à lenha. Fechou a porta, desceu as escadas, calçou novamente os chinelos e saiu. Foi até o paiol, pegou a foice, o chapéu de palha e duas cestas de vime. Circundando-o, passou pelo chiqueiro e antes de entrar na horta, parou por um instante e olhou para dentro da pocilga, procurando Valente. Os porcos estavam inquietos, com fome. Não deu importância e abriu a portinhola da horta, ao lado do paiol. Atravessou o espaço entre as cebolas e as alfaces e acessou, saltando um arame no palanque que prendia a cerca, o campo com o pasto para as vacas. Deveria levar duas cestas cheias, uma para aquela tarde e outra para a manhã seguinte.

Já no campo, Artéria segurava o pasto pela raiz e com um movimento seco da foice o ceifava. Rápida, não demorou até encher a primeira cesta. A segunda também ficou pronta em pouco tempo. Colocou a foice dentro de uma das cestas, e com as alças em cada antebraço, voltou. Puxou o palanque com o arame da cerca, cruzou pelo centro da horta, passou novamente pelo chiqueiro e entrou na estrebaria, junto ao paiol, pela porta dos fundos. Encheu os sete cochos com o pasto, pendurou o chapéu em um prego e fincou a ponta da foice na parede, ao lado da porta que abria para o potreiro. Depois, acessou o paiol por outra porta interna, encheu uma cesta de espigas secas e a deixou pronta. Saiu do paiol e foi até o tanque, atrás da casa, pegou uma caneca esmaltada, um balde e retornou ao paiol. Entrou, pegou a cesta com as espigas e quando abriu a porta que ligava à estrebaria, Valente a esperava de pé, atrás da porta.

– Artéria.

Porco cane! Quase me mata de susto, Valente!

– Estava na vila em Cáscara, Artéria. Depois de conversar com o padre fui na bodega do Milo.

Artéria passou pela porta, desceu a escada de quatro degraus que ligava o paiol à estrebaria e começou a colocar as espigas nos cochos, dando pouca atenção a Valente. Finalizada a tarefa, abriu a porta da estrebaria que dava para o potreiro e chamou as vacas. Valente fechou a porta com o ombro, derrubando Artéria.

–  Ma porco cane! O que aconteceu, uomo?

–  Disse que fui na bodega do Milo.

–  Sim, mas che sucede? O que aconteceu no Milo? Teve notícias dos teus primos?

Niente. Nada da boca do padre. Na bodega conversei com outras pessoas.

– A bodega do Milo sempre está cheia.

– Mas hoje o juiz de Guaporé estava lá. E conversei com ele.

– E o que o juiz te disse? Tinha notícias dos primos?

Niente. Mas tinha outras notícias. Notícias do meu pai.

– Quais notícias? Ele está na cozinha, agora. Eu mesma vi. O teu pai não caminha mais, não consegue nem comer direito, só fala baixinho aquele monte de palavras sem sentido, não se entende niente. Ele está pagando pelos pecados, isso sim.

            Enquanto se levantava, apoiada em um cocho, Artéria arrumou a saia. Valente mostrou suas mãos sujas de sangue e perguntou:

– Onde está o bastardo?

– Quem?

– O bastardo! O juiz me disse! Acha que já não desconfiava? Gli òcci, putana! Gli òcci não mentem! Il bastardo degli òcci asuli!

Artéria pegou a foice na parede. Com um movimento rápido, cravou-a no peito de Valente, que deu alguns passos para trás e fez menção de procurar sua faca. Não a encontrou e sacou sua pistola.

Putana!!! Valente disparou dois tiros, perfurando a coronária de Artéria. Arcido brincava com os sabugos na cozinha de Ilna quando ouviu os disparos. Domênico, na cozinha, na cadeira ao lado do fogão à lenha, com a faca de Valente no peito, expirou seu último sopro e apagou, tal qual uma vela em um final de tarde.


Henrique Perin

Henrique Perin é jornalista e historiador. Duas vezes vencedor do Prêmio Dyonélio Machado da Academia Rio-Grandense de Letras (2019 e 2023) e finalista do 31º Prêmio Açorianos – Categoria Ensaios de Literatura e Humanidades, também atua como pesquisador, professor e escritor..

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *