O galo canta enquanto o sol anuncia o dia.
Alguém de dentro de casa grita:
– Bota o café no fogo, Maria.
Talvez seja a voz do meu avô, ainda sonolenta demais para reconhecer.
No canto da varanda, perto da pia, as trouxas estão prontas, amontoadas, um lençol grande cheio de vestimentas e sentimentos entrelaçados. O café coado no coador de meia aromatiza a manhã. Tomo um gole pra acordar o estômago, na tentativa de diminuir o barulho do ronco. É dia de descer pro rio. Meu pai e meu tio carregam suas redes de pesca e pequenas balsas de madeira. No caminho, o verde das plantas contrasta com o branco das dunas. Depois de descer e subir grandes morros, chegamos ao pequeno grande rio — pequeno na largura, mas profundo e cheio de mistérios. É preciso se silenciar pra ouvir o rio, os peixes e todos os seres. Enquanto minha vó lava as roupas e bebe água pra matar a sede, me banho nas águas sagradas, faço festa e brinco de sereia.
O rio sereno espelha a vida e espia os acontecimentos da rotina. Minha vó se banha; já está perto do meio-dia. Ao retornar no caminho de casa, cata as azeitonas roxas do chão. Esta estrada é marcada pelo roxo das azeitonas com o avermelhado do barro batido. Vó sobe a ladeira com as trouxas, passa na cerca e cumprimenta a comadre Zefa. Ao chegar em casa, estende as roupas, que têm cheiro de rio, úmidas, frias e silenciosas — assim como sua voz: pouco ouvida, mas muito vivida. Ela fala com o olhar, vive os dias a observar. O vento seca ao sol os pedaços de pano que cobrem a vida do corpo em movimento. O fogo de lenha aquece o feijão com tripa e a carne de porco. Um pouco de farinha pra engrossar o almoço, preenchendo o vazio do corpo. Com galhos de arruda, manjericão e alecrim, benze os que a procuram sem fim, deixando de lado seu prato, seu descanso e, em silêncio, exercendo o dom que o sagrado lhe deu, sem ter hora ou data combinada. Com suas rezas e a vela acesa, ilumina o caminho da saúde. Imagino que seja para ela poder retornar para quem tanto a espera, trazendo assim o sabor da vida.
Com seu quintal enorme e cheio de plantas, minha vó caminha em sua floresta. Ela sabe exatamente o que usar em cada reza, onde plantar, o que germina. Ela entende os ciclos e processos da vida e assim os ensina. Já são 16h30, ligam as lamparinas. Vovó traz casca de laranja, espanta as muriçocas e aromatiza a casa. Em sintonia, as imagens se eternizam feito quadros, trazendo o cheiro doce e cítrico da infância. Árdua como a vida brotando dos olhos de uma criança, que ora é água, feito rio e mar; ora é terra, sólida feito barro; ora é fogo, que queima os medos e anseios; ora é ventania, que devasta todas as agonias no bailar do dia — sempre firme e presente nas horas do dia. Mainha via com maestria os passos de vovó — outra mulher bonita, com olhos que espelham a vida e marejam sabedoria.
São 19h, a janta está servida: tem macaxeira, manguzá, batata, broa e café. Vó se senta em sua cadeira de balanço. É sexta, e tem o movimento da vida subindo e descendo as ladeiras de barro de Contendas. Às 21h, os colchões estão na varanda, assim como as redes armadas. Vovó sempre gostou de casa cheia — a representação da santa ceia. Olho atenta para os vagalumes que dançam no quintal. Os sapos e grilos cantam em sintonia. A lua mansa brilha no céu. Antes de dormir, peço a bênção aos meus pais e à vovó. Ela diz, com a voz rouca: que Deus e o sagrado abençoem minha vida. E ela não imagina o quanto sou abençoada pelas suas rezas.
Durmo e acordo invadida com a saudade, essa malvada que invade e arde meu peito. Tanto, que, para aliviar, viro enxurrada. Vó sempre me ensinou o segredo de ser água. Menina correnteza, lágrimas, estuário — e sempre deságuo em suas histórias, que soam como abraços na memória. Minha vó falava do meu avô. Eu não o conheci, ele faleceu antes do meu nascimento, mas vovó falava do amado com olhos correntezas. A mulher firme se faz menina, se faz nascente a desaguar em um rio de memórias e afeto — rio contínuo em mim, rio que nos liga e nos faz mulheres água.
Na sala, ao lado do Santíssimo Sagrado, a foto de seu casamento. A casa é grande, com quartos espaçosos, sala ampla, com varandas. Pronta pra receber a família, como um abraço ou coração de mãe. Mas não fazia sentido: o jardim triste sem seus passos, as flores murchas, o cheiro frio, o aperto no peito — e eu, menina, segurando um rio.
No seu velório, o céu cinza. Segurava as lágrimas. Eu não entendia. Talvez anestesiada pelo peso da notícia, talvez incerta, talvez miúda. Tantas lágrimas que se conectavam, tantas águas: meu pai, minha tia, eu, mainha. Tantos rostos, gostos e dúvidas. Peguei seu terço, sagrado, importante. Guardei feito diamante. Rezo do mesmo jeito que me ensinou. Canto a mesma música: “Belas laranjas, que cores têm elas? Elas são verdes e amarelas.” Assim como minha saudade, com minha arte, minha face. Que nada quebre as rezas da minha vó, que no sagrado seu peito continue me guiando. Daqui de baixo, continuo te orgulhando.
Com saudades infinitas e rio transbordando,
sua neta.

Bárbara Maria, também conhecida como Babs. Mora na cidade de Extremoz/RN. É poetisa, poeta-Slammer e escritora. Estudante, bolsista e pesquisadora do Instituto Federal do Rio Grande do Norte. Aluna do curso de Tecnologia em Gestão Ambiental pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN). Filha de doméstica e auxiliar de serviços gerais. Neta de Pescador e Curandeira/Benzedeira. Autora do livro “Subversos de Um Mundo Poético”. A escrita me salva e me faz ser livre através dos versos.

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