NAVALHAR É PRECISO – MATEUS MA’CHA’ADÖ [entrevista]
NAVALHAR É PRECISO – MATEUS MA’CHA’ADÖ [entrevista]

NAVALHAR É PRECISO – MATEUS MA’CHA’ADÖ [entrevista]

REVISTA NAVALHISTA – A tradição greco-romana é apontada no seu ensaio“O principado greco-romano e o resgate do cânone judaico-cristão (Uma introdução)” como o alicerce da literatura ocidental. Que aspectos dessa herança ainda moldam o imaginário literário contemporâneo, mesmo de forma inconsciente?

MATEUS MA’CHA’ADÖ A própria maneira de pensar a literatura, por exemplo, de pensar a poesia e suas formas originárias, quando nos atentamos para a tradição clássica. Para se entender bem a origem do cânone greco-romano, é preciso ter a mentalidade moldada por essa tradição, e nossas academias foram estruturadas com base nesse pensamento. A filosofia ocidental advém dos gregos. Somos cercados por símbolos da mitologia greco-romana, incluindo nas áreas profissionais; no Direito temos o símbolo da deusa grega Têmis com sua espada e sua balança. Na Psicologia temos a representação da deusa Psiquê, no comércio temos o Caduceu de Hermes, na Medicina temos o Bastão de Asclépio, e por aí vai. O nosso modo de pensar é grego, inclusive o termo Hermenêutica, usado na teologia cristã, tem a sua raiz etimológica associada ao deus Hermes.

R. N. – Há intelectuais que defendam a ideia de que o Ocidente foi criado a partir da Odisseia e da Bíblia e veem esses dois textos como pilares fundadores da cultura ocidental, tanto no âmbito da literatura, quanto do pensamento filosófico e da religiosidade. Harold Bloom, argumenta que essas obras são modelos de narrativas que moldaram a tradição literária e cultural do Ocidente ao longo de séculos. E que tudo quem veio depois é só “nota de rodapé”. A partir disso, nos diga porque se faz necessário abordar e compreender o tema do cânone literário judaico-cristão?

M. M. E esses intelectuais estão corretos, em boa medida. O livro que mais influenciou o imaginário ocidental ao longo do tempo, e ainda exerce tamanha influência, é a Bíblia, seguida pela Odisseia de Homero. Aliás, a própria literatura romana começa no século III antes de Cristo, a partir da tradução para o latim da obra homérica. A questão é que, de um lado temos um cânone literário oficial, reconhecido mundialmente pelas academias, que é a tradição greco-romana desde Homero, enquanto os textos bíblicos foram relegados apenas ao âmbito religioso, anulando o literário. Ainda que a bíblia tenha sido uma fonte de influência literária para muitos poetas e escritores ao longo dos séculos, ela acaba sendo, na maioria das vezes, enxertada junto da raiz greco-romana, criando um hibridismo canônico, pois o modo de pensar ocidental é greco-romano, e isso é um problema se atentarmos para antagonismo que há entre esses povos; de um lado o paganismo greco-romano, e do outro o monoteísmo judaico-cristão. Água e óleo não se misturam, porém, a cabeça ocidental, enevoada por mitos e filosofias, parece não perceber esse antagonismo. Isso porque, muitos intelectuais no meio literário e acadêmico tratam essas histórias bíblicas da mesma forma que as histórias greco-romanas, ou seja, para eles tudo é mitologia. E o próprio entendimento de mitologia para a mentalidade moderna está associada com o fantasioso, e no pior dos casos e mais popularmente difundido como “mentira”. Ao nos deparamos com os textos, com os livros bíblicos, nosso olhar se volta para o religioso, porque fomos ensinados a olhar as escrituras sagradas sem a sensibilidade estética, fomos ensinados a ler bíblia sem a qualidade artística/literária que é intrínseca nesse conjunto de textos, de Gênesis ao Apocalipse. Isso não acontece quando lemos Homero, outros autores greco-romanos, ou qualquer autor alinhado com esse cânone. Afinal, o que chamamos de mitologia, para os gregos e romanos era religião e era a realidade desses povos. O nosso problema é entender o passado com esse “olhar” moderno. Daí a necessidade de trazer o tema para a discussão.

R. N. – Você afirma que a Bíblia é o “Código dos códigos” da literatura ocidental e que, paradoxalmente, o cânone bíblico foi relegado à esfera da religião. Como essa afirmação se relaciona com o próprio processo de “canonização” literária e com o papel das academias na legitimação do cânone? Por que, mesmo sendo um texto fundante da cultura ocidental, a Bíblia foi afastada do campo literário e confinada ao religioso? E, por fim, como você imagina que seria uma literatura verdadeiramente judaico-cristã dentro da estética ocidental moderna?

M. M. – Essa afirmação foi primeiramente feita por William Blake, depois usada e sustentada por Northrop Frye que usou essa expressão como título de sua obra mais conhecida, O Código dos Códigos – A Bíblia e a Literatura. O processo de canonização foi acontecendo ao longo da história, ao mesmo tempo que o cânone greco-romano já vinha se firmando aqui no ocidente, influenciando poetas como Virgílio, Dante e muito depois Camões, além de tantos outros, o cânone bíblico foi cada vez mais sendo apropriado pela igreja católica romana, isso já nos primeiros séculos, como produto exclusivamente religioso. E a ruptura foi drástica já que essa apropriação constituiu, entre outras coisas, tirar as escrituras sagradas das mãos dos judeus, excluindo, por exemplo, o direito da autoria judaica na escrita do chamado Novo Testamento que, originalmente foi escrito em aramaico, a chamada Peshitta, e não em grego. Aliás, recentemente nós ganhamos uma tradução direta do aramaico para o português, pelo rabino Tsadok Ben Derech. Antes da reforma protestante, todo o culto cristão era feito em latim, o povo não tinha acesso às escrituras. Com a reforma isso mudou, já que a bíblia passou a ser traduzida para outros idiomas, dando abertura ao conhecimento geral, ainda que o povo em sua maioria fosse iletrado, eles podiam ao menos ouvir a palavra pregada em seu idioma natal. No entanto, isso não foi suficiente para trazer o entendimento estético das escrituras como literatura, ou seja, como expressão artística da palavra, e essa nem era a intenção; talvez porque isso pudesse anular o teor espiritual, sagrado, das escrituras. Como se, ao reconhecer o artístico da escrita bíblica fosse profanar o aspecto sagrado. Ainda hoje a bíblia é pensada assim, pelos próprios cristãos, sejam católicos, protestantes e afins. A maioria dos cristãos não enxergam o aspecto literário da bíblia, quando muito isso fica apenas no âmbito mais acadêmico, ainda assim de forma superficial.

Com o início da era moderna, em especial no período da revolução francesa, o progresso tecnológico, o cientificismo e todo o cenário filosófico e socio-político, contribuíram para uma discriminação da religião. Afinal, a ciência poderia explicar tudo e não faria mais sentido D’us estar no centro do universo; as teorias darwinianas reforçaram essas bases e o homem tornou-se um ser não apenas independente de D’us, mas autossuficiente. E ao se tornar o novo centro do universo, o homem passou a criar as próprias regras. A religião passou a ser uma prática exclusiva para os supersticiosos. Diante desse cenário, penso que seria constrangedor ter um cânone literário judaico-cristão, uma produção literária que pudesse se equiparar aos clássicos contemporâneos da época, desde Homero, ou pior, um cânone que poderia ser superior ao greco-romano. A elite intelectual da época abraçou o cânone greco-romano como parte do modelo antropocêntrico em oposição da influência da igreja cristã; era melhor ter vários deuses de um panteão mitológico distante, do que ter que encarar um D’us único que enviou o seu filho para morrer por nossos pecados e ressuscitou três dias depois de sua morte. Como encaixar uma situação dessas dentro do modelo antropocêntrico que apoia a evolução humana através do macaco?

O hibridismo pode ser visto como um “casamento do céu e do inferno”, é um jugo desigual. Para uma literatura genuinamente judaico-cristã, é necessário um divórcio desse casamento, um divórcio do pensamento greco-romano, um remodelar de mente, na forma de pensar. Não mais pensar com a mente dos poetas e filósofos gregos, mas com a mente de Cristo. Daí teremos, de fato, uma literatura judaico-cristã contemporânea, sem a influência dos elementos pagãos.

R. N. – O processo de secularização a partir do Renascimento, tirou a literatura do seu eixo e identidade originais, ou seja, a centralidade da religião, seja pagã ou judaico-cristã, fonte cultural importante para povos antigos. Percebemos que não existe muita receptividade para o cristianismo em meios mais intelectualizados. Como enriquecer o debate na perspectiva estética/literária, e mostrar uma alternativa além das ideias canônicas greco-romanas que originaram a modernidade sem que pareça pregação?

M. M. O problema da secularização é que no século passado, houve um afunilamento dessa secularização, de modo que se antes o cristianismo era desprezado como mera crendice, a partir da modernidade do final do século XIX e mais intensamente a partir do século XX, o cristianismo passou a ser combatido através das artes. Surgiu a estética do feio, não apenas como tendência, mas como oposição ao belo nas artes. A harmonia deu lugar ao desproporcional, o sentido deu lugar ao nonsense, a ordem deu lugar a um apelo ao caos. Surgiram artístas que, armados de um senso revolucionário, levou as artes até as últimas consequências, do ready made de Marcel Duchamp ao pop satânico dos dias atuais e, nesse caso, temos uma estética espiritual e ritualística.

Não apenas a receptividade ao cristianismo é inexistente, mesmo em um mundo que se proclama tão plural, mas há uma perseguição ao cristianismo acontecendo no mundo; o genocídio de cristãos está acontecendo agora em vários países da África. A revista Veja, em janeiro de 2025, publicou uma matéria sobre os países onde os cristãos mais são perseguidos e mortos; da Coreia do Norte até a Índia, passando por Somália, Iêmen, Líbia e Nigéria. E o meio intelectualizado não está nem aí para isso. É uma pauta que não vende. É um cenário desértico. Há hashtags em favor da Palestina, há hashtags sobre o “aquecimento global”, há hashtags sobre o novo single da Lady Gaga. Não. Não há hashtags, nem espaço, nem indignação para os cristãos nigerianos violentados e mortos.

Esse resgate do cânone judaico-cristão faz parte do propósito da minha vida, é a implantação do Reino de Cristo através da literatura. Jorge de Lima e Murilo Mendes falaram sobre “restaurar a poesia em Cristo” com o livro Tempo e Eternidade. Antes de qualquer debate, é preciso ganhar terreno, conquistar espaço, e isso se faz com fé e trabalho; daí que estamos tendo essa conversa. Afinal, é no deserto que acontecem os maiores milagres.

R. N. – Em sua visão, o hibridismo entre o pensamento pagão e o cristão, como em Dante ou Milton, empobrece a literatura espiritual ou cria uma nova dimensão estética?

M. M. Cria uma nova dimensão estética, sem dúvida, ainda que nos moldes de Frankenstein ao tentar misturar água e óleo, o que é bem a dinâmica adotada pelo modernismo. E também empobrece a literatura em sua perspectiva espiritual pelo mesmo motivo, é um tipo de ecumenismo que gera um novo elemento, algo morno, pois distorce os princípios de uma ou de ambas as crenças. Mas ambos os autores citados criaram obras geniais. Dante me traz a seguinte questão: O purgatório é uma invenção religiosa ou uma criação artística? Entendendo que o poeta Florentino visualizou e narrou de forma vívida, além de estruturar aquilo que no imaginário medieval ainda era muito abstrato.

R. N. – No texto do ensaio você cita Auerbach e a diferença entre a clareza narrativa de Homero e a ambiguidade da Bíblia. O que essa diferença nos ensina sobre os modos distintos de compreender o humano?

M. M. Fica muito complicado interpretar textos de origem hebraica, alinhados com a cultura semítica até se afunilar ao judaismo-cristão, considerando aqui os cristãos primitivos, antes do advento do catolicismo, com uma mentalidade de um povo culturalmente oposto como o grego, cuja base do pensamento é a lógica, o abstrato, o individualismo, o culto ao corpo e à razão, além do panteão de deuses e semideuses. Ao passo que a mentalidade hebraica, depois judaica e aos primórdios cristãos, tem uma mentalidade teocêntrica, corporativa, concreta, com foco na ação, na obediência e aliança com um único D’us, com uma perspectiva de vida mais integrada, sem uma divisão muito clara entre o sagrado e o secular.

A ambiguidade literária é comum à poesia, já a clareza narrativa é buscada mais na prosa. Mas essa ambiguidade nos textos bíblicos enriquece o próprio contexto literário, aprofundando seus significados. O desafio é que, ao longo da bíblia, encontraremos certas tensões narrativas, certos “conflitos”, que a princípio parecem contraditórias com aquilo que a própria bíblia prega, e isso muitas vezes acaba gerando interpretações fora do contexto geral, principalmente quando breves trechos são interpretados isoladamente. Essas “contradições” narrativas acabam sendo um desafio muito maior para a mentalidade moderna forjada pelo pensamento greco-romano, que funciona meio no “preto no branco”. E nem sempre é assim dentro do pensamento bíblico.

E um dos ensinamentos é justamente que não devemos misturar uma coisa com outra, cada cânone traz a sua proposta, a sua visão e expressão artística, cultural e espiritual. Como está escrito no livro de Apocalipse 3:16 – “Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca“.

R. N. – A literatura ocidental é frequentemente guiada por “Musas”. Que significado teria ao substituir as Musas gregas pela inspiração divina do Espírito, em termos de criação artística?

M. M.Não é uma substituição, do lado greco-romano temos as Musas, e do lado judaico-cristão temos o Espírito Santo, também chamado de Ruach HaKodesh. São coisas completamente diferentes, enquanto as Musas fazem parte do panteão de deuses e semideuses, o Espírito Santo é uma emanação do próprio D’us que se manifesta como se fosse “uma pessoa” distinta, mas é a potência criativa do próprio Adonai.

Creio que a melhor maneira de ilustrar essa pergunta é através do livro A Quarta Dimensão, do pastor David Yonggi Cho. No início de sua conversão o jovem Cho não via razão de seguir os passos de Cristo, uma vez que no budismo, como em outras religiões antigas, os milagres também se manifestam. Mas então o próprio Espírito Santo lhe revelou a diferença fundamental através do que ele chamou de a Quarta Dimensão; que é a definição do mundo espiritual que influencia o nosso mundo físico. Essa dimensão é acessada pela fé, através do Espírito Santo, e o indivíduo pode participar do processo criativo que se manifestará em nosso mundo natural, da terceira dimensão. É assim que os milagres acontecem; quando as orações são respondidas elas ativam a manifestação do sobrenatural sobre o mundo natural.

Porém, Yonggi Cho ressalta que não apenas os agentes da luz, mas também os agentes trevosos acessam essa dimensão espiritual, e assim conseguem manifestar fenômenos milagrosos em nosso mundo físico. A diferença está na fonte de onde surgirá o sobrenatural, se da fonte criativa da luz ou da fonte das trevas.

R. N. – Aristóteles defendia que a epopeia homérica buscava a unidade e contemplação. Já Paul Ricoeur propunha que o texto sagrado convocava mediar a existência.  No seu ensaio “O principado greco-romano e o resgate do cânone judaico-cristão (Uma introdução)” você afirma que a narrativa bíblica exige participação ativa do leitor, enquanto a narrativa homérica o torna passivo. Nos diga como essa diferença de abordagem reflete duas visões distintas de mundo e de divindade?

M. M. Penso que Aristóteles estava se referindo ao nível da perfeição da técnica narrativa construída por Homero, mesmo ele sendo mais favorável à tragédia. Muitos clássicos da literatura nos levam a meditar sobre a existência, mas somente as escrituras o faz de maneira mais profunda e reveladora, se nos abrirmos para isso. O leitor da bíblia é desafiado e instigado a ir além do texto literal, isso porque há aparentes “contradições”, certos “conflitos” narrativos, diferente da mentalidade greco-romana, moldada pela razão e pela lógica, na busca da clareza. Além da razão natural, do logos, há no texto bíblico o Memra, que é mais ou menos o Rhema na versão grega, que em resumo é a palavra revelada, a palavra que age e transforma mente e coração.

A bíblia é chamada de escrituras sagradas por um motivo; a sua origem supra-humana, ou seja, os textos foram revelados diretamente pela potência criativa divina para serem escritos, expressados, em nossa linguagem humana. Esses textos tem o poder de transformar, de mudar vidas; essa dinâmica fica muito clara nos evangelhos, nos milagres de Jesus. As curas do corpo é a parte mais superficial, são as transformações internas os verdadeiros milagres, e elas acontecem pelo Memra, o Verbo expresso.

No exemplo que dei, segundo o próprio Auerbach, o leitor de Homero torna-se passivo pela inexistência dessa ambiguidade e dessas aparentes “contradições” que encontramos na bíblia, ele não precisa investigar o que está por trás do texto, ele não precisa preencher as aparentes “lacunas” narrativas. Esse leitor apenas lê e aceita a narrativa homérica, apesar dos dramas e conflitos narrados pela história, porque o autor já entregou tudo no texto, ao passo que o autor supra-humano das escrituras, o Espírito Santo, revela os mistérios por trás da palavra literal, por trás do logos, a partir do momento que o leitor se relaciona com o próprio Espírito Santo, é através dele que o Memra se expressa e se revela.

R. N. – Santo Anselmo de Cantuária enfatizava que a fé deve vir primeiro para que a razão possa buscar o entendimento. Em outras palavras, não se busca entender para crer, mas se crê para poder entender. O texto fala de um “ato de fé” em fazer literatura sob o espírito do nosso tempo. O que significa ter fé na escrita em meio a um cenário literário dominado por simulacros e egolatria?

M. M. Parece-me que Anselmo conhecia aquela anedota judaica que diz que D’us intentou dar às nações da época a torá, mas as nações rejeitaram por não saberem o que estava escrito na torá ou por não aceitarem as leis, mas quando a torá foi oferecida para as tribos de Israel, eles disseram: “Nos dê a torá, Adonai, e vamos crer nela, depois a conheceremos”. Só podemos ser convencidos pelo Espírito Santo. O logos, a razão natural do homem, não consegue alcançar onde o Espírito alcança, daí vem o ato de fé. Um dom do espírito, isso é fé; acreditar no que não existe como se já existisse.

Ter fé na literatura, na arte como um todo, em meio a um cenário dominado por simulacros e egolatria, é justamente se posicionar de forma contrária. Gosto de usar como exemplo, Bezalel, escolhido para a construção do tabernáculo e de todos os seus utensílios, desde a arca da aliança até as vestes dos sacerdotes. Em Êxodo 31, Adonai diz a Moisés: “Separei Bezalel, o filho de Uri, neto de Hur, da tribo de Judá. Eu o enchi com o Espírito Santo, com sabedoria, entendimento e conhecimento de todas as espécies de talentos artísticos” – Bezalel significa “Debaixo da sombra de D’us”. É o modelo do artista alinhado com o propósito divino, consciente de que todo o conhecimento e talentos naturais são dados por D’us. O artista é apenas um veículo, uma ferramenta, escolhido por D’us para expressar o potencial criativo através das artes. Reconhecer isso é negar a egolatria, que é a idolatria de si, e a autoilusão, ou se preferir, temos as palavras do próprio Cristo – “Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me”.

R. N. – Em tempos de algoritmos e redes sociais, a literatura parece cada vez mais moldada pelo desejo de visibilidade. Que tipo de resistência estética pode nascer da consciência de um cânone sagrado?

M. M. A mesma resistência do semeador e da semente – “Um lavrador saiu para semear. Enquanto espalhava as sementes pelo campo, algumas caíram à beira do caminho, e as aves vieram e as comeram. Outras sementes caíram em solo rochoso e, não havendo muita terra, germinaram rapidamente, mas as plantas logo murcharam sob o calor do sol e secaram, pois não tinham raízes profundas. Outras sementes caíram entre espinhos, que cresceram e sufocaram os brotos, sem nada produzirem. Ainda outras caíram em solo fértil e germinaram, cresceram e produziram uma colheita trinta, sessenta e até cem vezes maior que a quantidade semeada” – Eis aí a resistência estética, e já dura mais de dois mil anos – “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça com atenção!”.


Mateus Machado

Mateus Ma’ch’adö é antipoeta, escritor e ensaísta, formado em gestão ambiental pela Faculdade Prof. Luís Rosa (Jundiaí). Em 1997 foi cofundador e diretor de cultura da AEPTI (Associação dos Escritores, Poetas e Trovadores de Itatiba-SP). Participou em antologias e na revista literária Beatrizos (Argentina), vencedor de prêmios literários, entre eles, Ocho Venado (México), e um dos finalistas do Mapa Cultural Paulista (edição 2002). Entre 2017 e 2018, foi aluno de música clássica indiana com o citarista, escritor, tradutor e poeta Alberto Marsicano. Autor dos livros publicados Origami de metal (poemas, Editora Pontes, 2005), com prefácio do poeta Thiago de Mello; A mulher vestida de sol (poemas, Editora Íbis Líbris, 2007); A beleza de todas as coisas (poemas, Editora Íbis Líbris, 2013), com prefácio de Alberto Marsicano, onde finalizou sua primeira etapa como anti-poeta; As hienas de Rimbaud (romance, Editora Desconcertos, 2018); 17 de junho de 1904 — O Dia que não amanheceu (ensaio, Editora Caravana, 2022), sobre a obra do escritor irlandês James Joyce, e Nerval (poemas, Editora Caravana, 2022), um livro de transição. Em 2023, iniciando uma nova fase no seu trabalho, publicou o primeiro livro da trilogia Poiesis Religare, intitulado YHVH, pela UICLAP, através de autopublicação. Agora, em 2025, está publicando o novo livro de poemas O Evangelho segundo as HQs, pela Editora Mondru, iniciando a sua segunda trilogia poética. Atualmente está finalizando o livro Um bode para Adonai — outro para Azazel. É autor do canal de literatura Biblioteca D Babel no YouTube.

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