No vilarejo empobrecido onde nasci e fui criada existia apenas uma pequena capela, igualmente pobre. as únicas imagens que adornavam as paredes da pequena igrejinha eram dos santos que a nomeavam: São Miguel e Santa Rita. desde antes de eu aprender a falar, minha mãe dizia que Rita era minha madrinha e talvez por isso que, em muitas das poucas fotografias que tenho de minha infância – e que foram tiradas durante os sacramentos católicos meus ou de meus irmãos – estou com a mãozinha encostada na roupa da imagem da santa que devia medir um pouco mais de cinquenta centímetros.
Para nós, meninas, o isolamento e as condições miseráveis do bairro em que morávamos nos faziam estabelecer um tipo de relacionamento místico com a santa, uma vez que ao adentrarmos na igreja (muitas vezes o único espaço de lazer de todas nós) nos reconhecíamos em suas doces feições e não nos causava estranheza a coroa de espinhos que a imagem ostentava em sua cabeça. durante a infância fui descobrindo aos poucos que eu não era a única afilhada de Rita, embora minha mãe me fizesse acreditar que eu fosse a favorita através de narrativas fantasiosas do poder que ela tinha sobre minha existência.
na adolescência a vida dos conventos me encantou e seguindo uma direção oposta de todas as meninas da minha idade que estavam descobrindo a sexualidade, quis seguir os caminhos de minha madrinha espiritual e foi quando a história de sua vida chegou até mim; Rita era uma mulher que viveu durante a Idade Média e teve uma vida tão dura quanto qualquer uma de nós que vivia em um bairro onde o risco de estupro, abusos e violência física pairava literalmente em qualquer esquina, por isso, quanto mais lia sobre sua vida mais me identificava.
No auge dos meus quinze anos, o mundo em que eu vivia mostrava todos os dias que o lugar de uma mulher é dentro de casa, ora juntando os cacos quebrados por seu homem, ora correndo o risco de ser ela própria quebrada por um outro homem caso ousasse sair desacompanhada na rua.
Durante boa parte do início da vida adulta mesmo me declarando ateia, eu acreditava que não teria caminho fechado onde minha madrinha não pudesse abrir para que eu passasse. me sentia sortuda, corajosa e sempre antes de qualquer acontecimento importante em minha vida rogava por ela e não tinha dúvidas de que seria atendida.
A vida me trouxe Rita diversas vezes, sempre no dia vinte e dois de maio minha mãe me lembrava de rezar uma ave maria agradecendo à madrinha que tanto tinha me agraciado, embora a dureza da realidade já tivesse me trazido o amargor de quem descobre que não é a afilhada preferida de ninguém.
Na velhice quando já não tinha mais mãe para me lembrar, o dia vinte e dois de maio passou em alguns momentos despercebido e às vezes penso que foi por isso que Rita fez de sua história a minha: levou-me marido e filhos, diferente dela não fui empurrada por outros santos para um mosteiro porque minha pouca fé não permitiria, as chagas de Cristo que ela carrega na testa em mim estão marcadas na alma, nos rins que pararam de funcionar – me obrigando a fazer hemodiálise diariamente e na solidão de uma casa gelada do tamanho de um castelo que cheira a rosas pois foi a única coisa que me dediquei a cultivar desde que fiquei só.
Aos oitenta e sete anos a morte já me encontrou algumas vezes, me mostrou seu rosto zombeteiro, deu meia volta e partiu: aparece apenas para me lembrar que está tão viva quanto eu. por isso, nesses últimos dias minhas preces têm se destinado à minha madrinha, para que me prove que eu realmente sou a afilhada favorita dela e me leve imediatamente para onde minhas chagas não doam mais e eu possa enfim descansar do fardo que é existir no mundo sendo mulher.

Thais Machado é uma historiadora apaixonada por literaturas, palavras e o mundo que a escrita me proporciona.

![THAIS MACHADO – Rita [conto]](https://revistanavalhista.com/wp-content/uploads/2026/01/IMG_20240928_144718_752-1.png)