Um dia
Um dia serei, uma foto guardada
Amarelada, esquecida em algum baú
Serei apenas uma voz calada
Sem som, sem palavras
Que insiste em ficar
Nem mundo que desconheço,
Sem ter apreço, sem ter pressa de chegar
Serei apenas um vaga lembrança
Que alguma criança, teima em se lembrar
Daqueles que se foram
Sem se fazer notar.
Inexplicável
A vida é curta? Não tem tempo?
Mas, imutável é o tempo
A vida é que tem pressa
Delimitando o incansável
Na pressa de existir
Improvável ou implacável
É o tempo, que flui sem explicar
Que viver despreocupado
Não te leva a nenhum lugar
E o tempo não estica,
Não espera e alcança,
Quem não sabe caminhar
Não se paga o tempo roubado
Despreparado e sem valor
De uma vida sem propósito
Indolente, repetida
Sem glória e sem amor.
Viver e amar
Que bom viver o dia
No dia a dia poder viver
Acontecer em tudo com alegria
Com alegria ver acontecer
No amor cantar, sem anunciar
Sem espanto, esparramo
Sem demonstrar estardalhaço
Esse infinito que cabe no abraço
Do ser que se ama.
Trazer o amor inteiro
Dentro do peito
Sem que o mundo corriqueiro
Saiba desse dom perfeito
De amar e ser amado
Sem confidenciar a outros
As conquistas ou os pecados.
Costurando
Passei a vida costurando sonhos
Juntando os retalhos dos amores
Em cada ponto arrematando
A estrada por mim percorrida
Aconteceram nesses caminhos
Desvios que trouxeram dissabores
Nem tudo são flores no pontilhado
Do tecido fino e as vezes descuidado
Rasga sem querer, remendar é preciso
Mas quando os amores acontecem
A vida se enfeita e vai bordando
As almas que ali se ajeitam
Para que a felicidade seja plena
E o coração com muito cuidado
Com a linha dos sonhos vai costurando.

Ivete Rosa de Souza é poetisa, contista e cronista. Nascida em Santo André SP. Com 5 livros publicados, entre poesias, crônicas e contos. Escreve sobre terror, fantasia ou simplesmente o cotidiano. Colaborando com revistas e jornais na internet.
