As sanfonas se silenciavam. A puta agora tinha os seus passos calculados.
“Desde quando puta é gente?”
Puta era liberdade presa entre as paixões dos outros, constantemente comida pelos olhares que tantos lhe davam. O poder de ceder às vontades alheias. Só as gostosas. Aquelas que não derramavam sangue.
Era puta e mansa. Não provocava ou zombava as beatas como as suas companheiras irmãs. Ficava calada, apreciando o que não poderia ter. O olhar sereno que adora mais a mutilação que a Deus.
Quando entrava no local sagrado, era onde mais tinha desejos sórdidos, marcava o dia e o segundo da morte santa. Entrava pelo portão da frente, mas deveria mesmo entrar pelos fundos. Tinha uma aparência feia e mal cuidada. Coisa de gente mal amada. A cada passo que adentrava o local, sentia os susurros arrepiarem o seu corpo.
“Essa é a condenada, a que nasceu puta, a mais puta das putas”
Colocava, então, o crachá de usuária química no pescoço e queria sentir como era cortar a carne com ele — é cortando a carne que se atinge o sagrado.
Formaram-se grupos de meninos e meninas e, assim, a puta explorou bastante todo o ambiente, desejando o paraíso. O seu maior sonho era pisar nas nuvens e brilhar prateado.
Olhava com fascínio todos os santos e santas. Via nas aréolas as mais belas coroas, iluminando os mais belos corações.
As freiras os levavam para buscar um lanche enquanto o violão se espalhava, até que a puta de repente parou. Ficou para trás. Se escondeu atrás de uma coluna com a imagem da Santíssima Virgem Maria, a quem mais apreciava. Queria tanto um carinho da Maria, a temia e a amava profundamente. Ficou estática ao observar uma mancha vermelha entre as cabeças da multidão.
Vira a beata mais beata das beatas e nunca desejara tanto sangrar.
Entretanto, por ser vagabunda, não escorria o sangue santificado, era drenada pelo egoísmo de ter nascido puta, parasita, verme que quase não saía do organismo materno — mesmo quando saiu, continuava sugando as veias da boa vontade. Sentia dor, mas o rasgar de sua pele nunca era o suficiente. Cada corte retirava apenas um milímetro da sua quilométrica carne — e expunha ao mundo um corte seco e profundo, uma cicatriz escancarada mostrando o seu fracasso — a vergonha da família.
Quando se faz puta, a vida anterior não se desfaz. Puta também tem pai e mãe, primo, tio e papagaio.
Mas e se a puta nasce puta?
Esta tem uma série de decepcionados e uma grande lista de erros para cometer.
Nasce seca e feia, cresce contestando. Em resposta aos questionamentos impuros, fica com medo do inferno. Acredita na morte prematura e tem prazer no grotesco do não fértil, que existe pela sua maldição.
Fora comida à força na área com mais chances de olhares da vizinhança: na sala repleta de janelas. No meio do ato educador, acabou sendo flagrada somente pela beata dona do lar.
“Uma puta parasita dando pro meu marido,
encosto vagabundo que sugou meu precioso leite materno,
com certeza o provocou.”
A puta foi exorcizada, se escondeu nas gavetas da cozinha, onde sangrou pela primeira vez com um corte.
“Sangue ruim! De santa você só tem duas gotas! É mais fácil perder o braço do que se tornar virtuosa”.
Mesmo bem comida, a puta não desejava o ouro entre as pernas masculinas. O remédio que foi lhe dado não possuiu efeito.
A beata sentia muitos ciúmes. Seu marido fez o mesmo ritual com ela quando tinha a mesma idade da puta — e a comeu bem, virtuou-a. Depois disso, sangrava muito mais que rios e a sua carne saía de seu corpo. Possuía a mais bela cintura, braços que pareciam esculturas de mármore. Sentia profundo ódio que passara pra puta as suas características, mas ela ainda era imbatível. Por ser santa, ela possuía o mais bonito dos corpos. Era generosa, gentil e amigável, sentia muito apreço pelo marido e o ajudava mesmo que ele fosse perverso. Nunca o deixara um segundo, além disso, tinha a vida toda dedicada a ajudar os outros e fazer com que todos tenham uma vida virtuosa longe da carne.
Entretanto, no dia que o esposo não estava por perto, a pegaram e a comeram bem. Ela lutava e temia a drenagem pecadora. Sofrera muito e, como fruto desse momento maléfico, perdera parte da sua virtude ao parir a personificação da carne.
Continuava bonita, formosa e elegante. Sangrava e tirava qualquer resquício de carne que possuía com louvor, agradecendo por não ter que pagar o preço dessa violência com o seu organismo.
Mal esperava para despejar a puta, com o intuito de tirar qualquer resquício de carne do seu lar, pois ela se metera no seu casamento, no seu bem mais sagrado e virtuoso.
Por sorte, ninguém vira tamanha perversão, tamanho desafio. Esse era o empurrão que ela esperava para cortar de vez a carne da sua casa.
Colocou a puta pra rua.
Como ela não era santa, tinha que comer, vomitar e mijar, fazer tudo o que era mais nojento.
Cumprindo o maldito ciclo da sua vida, também foi pega e mais uma vez comida bem.
Como era muito miserável, Deus permitiu que fosse infértil, para acabar logo com essa raça pecadora.
Assim, a puta viu que só conseguiria sobreviver com a sua carne sendo comida e muito bem comida, de novo e de novo pelos quilates que passavam na rua, que tinham os desejos mais gostosos, que a pagavam com entorpecentes.
“Essa criatura não tinha jeito.
Quem não gosta de ouro?”
Com tantos promotores de virtude entrando nela e despejando o dourado, ela continuava com cara azeda, não sangrava mais nenhuma gota, só viajava nos céus brancos dos saquinhos que ganhava.
Apesar de não ter jeito, toda maldade tinha limite.
Olhava as suas companheiras com o desejo de mil almas, o desejo de se unir e, por si só, virar Deus. Concretizar a síntese de duas almas, carregando na cabeça dessa criatura a luz do sangue, o Ser mais brilhante que jamais existiria, assim, ela brilharia pela primeira e última vez.
Só que nada fazia, ficava estática nesse olhar culpado, mas frenético, que capturava as partes mais devassas desses corpos feios.
Apesar de feios, os outros corpos eram irrigados e até brilhavam no ato virtuoso, liberando o seu cobre de baixo valor, coisa que as belas virtuosas não faziam, já que a virtude sempre acompanha o sacrifício.
Entretanto, o corpo da puta não refletia um raio sequer, não esperava as tão sonhadas aréolas da virtude, nem expeliram o cobre inferior, mas continuava opaco.
Continuando com essa rotina miserável, sem as suas decepções e a efetivação de almejo pelo brilho, a puta fermentou, cresceu barriga, coxas, costas. A gordura a abraçava e prendia a sua respiração ao ficar presa à parte de trás das suas costelas.
Perdeu o seu “ser mulher”, sua delicadeza e formosidade.
Deixara agora de voar com o pó, passou a rastejar.
Virou uma barata cascuda, moribunda às calçadas, nojenta e perseguida pelo desprezo.
Nem os outros bichos que se esfregavam na imundice a olhavam, era o mais indesejável que já existiu, o puro fruto do mal.
Assim, com o seu último pagamento, criou coragem e voltou imunda ao mesmo local que encontrara a sua beata vermelha. Tão santa que no silêncio se solidificou em imagem. A personificação do sangue.
Caminhando pela calçada, ousou novamente entrar pelas grandiosas portas da frente. Ao andar, esperava raios de olhares santos e espantados, mas não encontrou ninguém.
Começou a ver o tapete se mexendo com autonomia. Até fizera o Sinal da Santa Cruz, inefetivo em suas mãos sujas.
Tinha medo de ser engolida, mas a puta de nascença acabara de ser convidada pelo próprio organismo da Igreja, que estendia a sua língua para ela caminhar.
De passo em passo, devagar como uma noiva manca e pesada, via um dos seus sonhos se concretizando.
“Uma verdadeira intervenção divina”.
Viu Maria estendendo os braços, como se fosse unir os corações das duas. A puta sentiu profunda euforia, mas não se aproximava de Maria, nem Maria dela. Ela tinha medo de apodrecer o coração da Virgem Sagrada com o seu profano e condenado.
Ao continuar nessa caminhada, de passo em passo, via as cadeiras no entorno ficando cada vez mais brancas, escondidas entre raios que iluminavam o altar.
Um caminho unidirecional.
A puta aproveitava cada segundo. Olhava as pinturas, os santos e os vitrais, todos com vida própria, espalhando notas musicais.
O organismo da Igreja fazia festa com a chegada dela.
Finalmente estava chegando nas escadas que levavam ao mais alto dos altares. A cada andar, a gravidade aumentava e o pulmão tinha mais dificuldade de subir ao descer. Mas ela não suspendia a caminhada por um só segundo. Estava vendo a mais preciosa luz naquela cruz.
Chegara ao topo.
Para a sua surpresa e para a maior felicidade da sua existência, expeliu raios nas mais diversas direções — Estava virando prata!
Era muita felicidade para um coração tão pequeno e estava custando cada vez mais caro a cada batida.
Seu passo mais lento e arrastado. Caíra de quatro apoios e voltava à infância, ao cuidado da beata vermelha.
Continuou,
um joelho
uma mão
um joelho
uma mão…
Com os passos, ia virando um Sol prateado.
Até que finalmente chegara à Cruz, o tão desejado sofrimento que gerara a salvação.
Ficou perplexa e só nesse momento, então, p a r o u.
Virou uma estátua, que, de olhos arregalados, encarava o sacrifício do Santo Deus. Aquele que permitiu o alcance do paraíso, das nuvens flutuantes. A entrega de aréolas.
Atrevida, a puta tocou a ponta dos seus dedos nesse material santo — e o sol prateado se multiplicava por mil.
Os pulmões passaram de quilos para toneladas.
Os letárgicos batimentos do miúdo coração diminuíam severamente a velocidade.
Os olhos perderam seu marrom, tornaram-se prata.
O mal morreu.
A carne por fim foi removida.
Outro sacrifício foi feito na cruz.
Agora o mundo pôde sangrar.

Sofia Maria, 20 anos, graduanda em Psicologia na Universidade Federal do Ceará, exerce a sua expressão artística a partir do desenvolvimento de pinturas e da escrita. Participou, em 2024, da exposição “Azul infinito” do artista Rafael Gomes, no Estúdio Arcano. E obteve a colocação de décimo lugar com o seu conto “Mal” no Prêmio Socorro Acioli promovido pelo Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Ceará.
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