por Mayk Oliveira
poeta e colunista da Revista Navalhista
Um cotidiano de trágicas fortunas
As tragédias gregas ensinaram que o ser humano é capaz de alcançar grandeza e ruína pelas mesmas paixões. Ao colocar reis, guerreiros e cidadãos comuns diante de escolhas extremas, dramaturgos como Ésquilo, Sófocles e Eurípides transformaram a literatura em um espaço de reflexão sobre culpa, desejo, violência, destino e responsabilidade. Séculos depois, essas tragédias continuam vivas, sem fixar a retratação de um passado distante, revelando conflitos que permanecem atuais. O palco mudou mas as paixões humanas, não.
Na literatura, poucos escritores brasileiros transformaram as paixões e as violência cotidiana em matéria literária com tanta precisão quanto Rubem Fonseca. Antes de se dedicar exclusivamente à literatura, foi policial, experiência que lhe permitiu conhecer de perto os subterrâneos da sociedade brasileira. Sua escrita rompeu com o excesso de ornamentos que durante muito tempo caracterizou parte da nossa prosa e aproximou-se da tradição dos autores norte-americanos, especialmente de Ernest Hemingway, cuja economia verbal, frases curtas e confiança na inteligência do leitor influenciaram gerações de escritores. Tal qual Hemingway, Fonseca acreditava que o essencial de uma história não precisava ser explicado; bastava sugeri-lo para que o leitor percebesse o peso do que permanecia oculto. Seus contos começam no centro da ação, dispensam apresentações demoradas e fazem do silêncio, da violência e da ambiguidade elementos fundamentais da narrativa.
É misturando essas tradições que se apresenta o escritor potiguar William Eloi, com seu mais recente livro, As Moscas na Sala de Jantar, publicado pela Editora Sertão Pasárgada (2026) . O autor constrói uma coletânea com pequenas e imensas tragédias surgidas do cotidiano. Sua prosa cortante e direta, conduz despojadamente, personagens comuns a situações extremas, nas quais a violência, a culpa, os vícios e os traumas deixam de ser exceção para revelar-se parte da própria experiência humana. A obra divide-se em duas partes, “Moscaria” e “Sinantropia e Fezes“. A separação organiza dois movimentos complementares. O primeiro, as tragédias sociais e familiares; depois, os conflitos íntimos e as obsessões que corroem silenciosamente seus personagens.
Mas antes, anotamos ainda um aspecto curioso na leitura de As Moscas na Sala de Jantar (Editora Sertão Pasárgada, 2026). Em diversos momentos do livro, os contos ganham, a cadência da voz do dublador brasileiro Luiz Carlos Persy. Imaginem o timbre marcante, a forma pausada, grave e carregada de tensão com que Persy conduz suas interpretações.
O título da coletânea é irresistível. As moscas expressam uma reputação literária invejável pois são testemunhas involuntárias daquilo que apodrece, rondam banquetes, guerras, cadáveres e segredos humanos sem jamais serem convidadas. Provavelmente veio dai a velha expressão de “ser uma mosquinha” para ouvir certas conversas. Em As Moscas na Sala de Jantar (Editora Sertão Pasárgada, 2026), a vontade muda um pouco de endereço fazendo o leitor desejar ser uma mosca para pousar discretamente no canto de alguns contos e descobrir o que aconteceu antes da primeira frase, ou o que continuou acontecendo depois da última. São poucas as criaturas tão vocacionadas a frequentar os bastidores das tragédias humanas quanto elas.
Feito isso, a leitura irá adquirir um ritmo quase cinematográfico antecedendo um impacto maior. Essa impressão reforça a natureza visual da escrita de William Eloi. Seus contos além de contar histórias “pedem” para ser narrados. É como se cada personagem estivesse diante de nós fazendo sua própria confissão.
Na primeira parte intitulada “Moscaria“, William Eloi cria histórias em que a violência nasce da convivência. São personagens levados ao limite pelo acúmulo de frustrações, abusos, doenças psíquicas, abandono e relações afetivas deterioradas. Percebemos que os conto iniciam sua historia no instante em que o abismo do personagem já se abriu, recurso que imprime ritmo intenso à narrativa e elimina qualquer sensação de conforto.
No conto, “No Fim da Madrugada“, dois personagens flertam enquanto adiam um encontro íntimo. A tensão cresce a partir daquilo que não acontece imediatamente, lembrando ao leitor que a vida costuma romper nossas expectativas quando acreditamos controlar os acontecimentos. Isso fica evidente no conto “Anal Retentivo“, que nos revela uma explosão emocional de um assassinato confesso. O conto expõe como os sentimentos aparentemente suportáveis podem, de forma abrupta, romper a barreira da racionalidade e transformar uma pessoa comum em autora de um ato extremo.
“Enquanto o Senhor Lobo Não Vem” apresenta uma sequência de violências narradas pelo próprio violentado. O texto acompanha a lenta deformação psicológica da vítima, revelando como o sofrimento continuado pode levar alguém à reprodução da mesma crueldade que o constituiu. Eloi evita respostas fáceis e faz do ciclo da violência um dos eixos centrais da narrativa.

Em “Pegar o Lugar“, a exclusão social e a dependência química ocupam o centro da história. O conto questiona até onde uma pessoa marginalizada pode chegar para alimentar seu vício, recusando qualquer romantização da pobreza ou da criminalidade. A narrativa funciona como um duro retrato das desigualdades sociais e das escolhas desesperadas produzidas pela exclusão. Ao longo dessa primeira parte, instituições tradicionalmente associadas ao acolhimento, família, igreja, escola e casamento, aparecem como espaços de silêncio, abuso e opressão. A monstruosidade nasce dentro da normalidade cotidiana enquanto a aguardamos sua chegada pelo lado de fora.
Na segunda parte de As Moscas na Sala de Jantar (Editora Sertão Pasárgada, 2026), “Sinantropia e Fezes“, os conflitos tornam-se ainda mais interiores. Se antes predominava a tragédia social, agora William Eloi volta seu olhar para os vícios, os desejos distorcidos, as obsessões e a incapacidade de estabelecer relações saudáveis.
No conto “Vícios“, o protagonista revela uma percepção completamente deformada pela pornografia. Incapaz de enxergar as mulheres como indivíduo, passa a classificá-las segundo sua semelhança com atrizes de filmes pornográficos. A violência dessa conto não depende do contato físico, porém se manifesta na objetificação constante do outro e na incapacidade de construir vínculos autênticos.
Essa percepção fica mais latente no conto “Testemunho“, cuja a narrativa acompanha um protagonista que resiste às tentações até o limite de suas forças. O conto cresce pela contenção e nos conduz a uma reviravolta que desmonta qualquer final previsível, reforçando uma das qualidades da escrita de Eloi: a habilidade de surpreender sem recorrer ao artificial.
“Desmascarados” desloca a tensão para dentro do ambiente doméstico. Os personagens dividem a mesma casa, mas vivem separados por silêncios, ressentimentos e desencontros. A violência vai se manifestando pela ausência de comunicação, demonstrando que nem toda brutalidade deixa marcas visíveis.
O encerramento da coletânea acontece com “A danação das moscas“, o conto mais extenso e também o mais ambicioso do livro. Spoiler?! sim, se preparem. Nele, um homem confessa ter envenenado um grupo de pessoas em situação de rua e rejeita qualquer tentativa de atribuir seus atos à insanidade. À medida que sua narrativa avança, o leitor descobre uma infância marcada pelo abandono, pelo abuso sexual cometido por uma figura religiosa e por uma culpa que atravessa toda a sua existência. A estrutura da confissão, a linguagem seca e o humor cruel aproximam o conto da tradição inaugurada por Rubem Fonseca. Entretanto, Eloi não se limita à influência, pois o autor utiliza esse modelo para discutir o fracasso das instituições, a perversão das relações de poder e a fragilidade psicológica daqueles que jamais conseguiram romper com seus traumas.
As Moscas na Sala de Jantar (Editora Sertão Pasárgada, 2026), confirma William Eloi como um contista interessado em investigar os pontos de ruptura da experiência humana. Seus personagens são homens e mulheres comuns, reconhecíveis em qualquer cidade brasileira, carregando conflitos que, levados ao extremo, revelam a violência escondida sob a aparência da normalidade. Não há sentimentalismo e nem oferta respostas morais. O autor faz do cotidiano território de inquietação, produzindo uma obra que dialoga com a tradição do conto brasileiro contemporâneo e reafirma a força da narrativa curta como instrumento de reflexão sobre as contradições da condição humana.

William Eloi nasceu no Guarujá, litoral de São Paulo, e ainda criança se mudou com a família para Natal, capital do Rio Grande do Norte. Criou-se potiguar. Tem a escrita como necessidade vital, e nela o terno e o trágico muitas vezes são postos lado a lado, como é na vida. Observador contínuo do cotidiano, confronta os limites do ficcional com o biográfico, revelando muitas vezes as pequenas-imensas tragédias que nos rodeiam — marcas presentes em seus quatro livros: Notas suicidas (romance, 2013), A vertigem seguida da náusea (contos, 2019, Sol Negro Edições), Crônicas do meio-fio (2021) e A calçada (contos, 2022, Editora Juriti). Participou, com dois contos, da antologia nacional de sci-fi 2084: mundos cyberpunks, publicada em 2019 pela editora paulista Lendari. Em 2024, houve a reedição do livro Notas Suicidas, pela editora Urutau. As Moscas na Sala de Jantar é seu mais recente livro publicado pela Editora Sertão Pasárgada.

![WILLIAM ELOI – As moscas na sala de jantar [resenha]](https://revistanavalhista.com/wp-content/uploads/2024/09/Foto-William-Eloi-scaled.jpg)