fantasmas noturnos
alimenta-se sobretudo de poemas
então, enfeita a pele com seda
basta a companhia dos velhos fantasmas ouve suas vozes quentes
sussurradas nos quintais abandonados
parecem as avós das suas avósem encontros misteriosos
ocultos desde outras vidas
inebriadas com histórias regadas a vinho
pactos de sangue e promessas ao luar
garante absoluto sigilo
e incorporada
jura
cárcere
quando abandonou as facas afiadas
esqueceu o suor das têmporas
e das veias abertas que sangraram
cada passo em direção a coragem
foram intensos na cura
das lentas agonias dentro de si
após os tumultos, naufrágios
fogo da fúria e do insuportável
seu rosto anoiteceu constelações
de poemas e luzes
floração
eles nos olham espantados
dentro de suas conchas blindadas
e nos veem estranhos sem artifícios
prometemos barganhar
com a alegria sagrada de cada dia
e somos escandalosos na arte que nos inspira
o amor é abstrato, sem cor ou cheiro
floração que não cabe no peito
se alastra sem cessar
então aumentamos a lupa
mantemos o foco nas entrelinhas
eles nos olham desconfiados e deixam a vida para depois
enquanto trazemos o mar no olhar
e eles, nem uma gota por dentro
sempre
avisto a melancolia a rondar o mundo
com os bolsos cheios de pedras como herança
sempre em estado de alerta com olhos desaguados
nas sobras dos cantos tristes de pássaros engaiolados
avisto o outro lado da moeda com código indecifrável
sandices vistas a olho nu e o dedo sobre os lábios, pede silêncio
sempre o temor quando a idade avança nos cabelos brancos
enquanto a noite e as sombras saqueiam o castelo dos inocentes
sangria pós-moderna
tantas coisas
não entendia
precisava parar de fingir
que não estava
despedaçada
fogo de palha
a história que carrega está nos calos das mãos
e até de quem rouba o amor-próprio do próximo
e o empurra para o chão
na cicatriz daquele que não sarou
de quem conhece o olho roxo
na cor da pele
na falta do arroz, feijão e pão
na falta de opções para os indígenas
falta de terra, de um teto
de agasalho
falta amor nos meus versos quebrados
reconciliação
na maioria dos dias
quem me acorda animada é o sol
quando estou neste estado de graça
a heroína se aventura
reconcilia-se com a idade
e cabelos brancos

Benette Bacellar é natural de Porto Alegre, com atual lançamento do terceiro livro de poemas “lá onde vagam os lobos” em 2025, em parceria da escritora Neli Germano, “sobrevivi ao dia seguinte”, pela Editora Casa Verde. Em 2018, lançou o segundo livro de poemas “a outra me faz roer os dedos”, obra vencedora do I Concurso Literário Benfazeja e uma das finalistas do Prêmio AGES, Livro do Ano, em 2019. Em 2015, lançou seu primeiro livro de poemas “Nua Escrevo”. Menção honrosa no Prêmio Lila Ripoll de Poesia em 2016 (subterrâneo) e em 2017 (mulher lua). Participou das coletâneas “Elas” (2017), Coletânea Entreverbo 2022 (2023) e II Tomo das Bruxas: Corpo e Memória (2024), Poemas à Flor da Pele (2025), Mulheres Gaúchas em Prosa e Verso (2025) e Arca de Antares (2025).
