BENETTE BACELLAR – 7 poemas
BENETTE BACELLAR – 7 poemas

BENETTE BACELLAR – 7 poemas

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fantasmas noturnos

 

alimenta-se sobretudo de poemas
então, enfeita a pele com seda
basta a companhia dos velhos fantasmas ouve suas vozes quentes
sussurradas nos quintais abandonados
parecem as avós das suas avósem encontros misteriosos
ocultos desde outras vidas
inebriadas com histórias regadas a vinho
pactos de sangue e promessas ao luar

 

garante absoluto sigilo
e incorporada
jura

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cárcere

 

quando abandonou as facas afiadas
esqueceu o suor das têmporas
e das veias abertas que sangraram

 

cada passo em direção a coragem
foram intensos na cura
das lentas agonias dentro de si

 

após os tumultos, naufrágios
fogo da fúria e do insuportável

 

seu rosto anoiteceu constelações
de poemas e luzes

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floração

eles nos olham espantados
dentro de suas conchas blindadas
e nos veem estranhos sem artifícios
prometemos barganhar
com a alegria sagrada de cada dia
e somos escandalosos na arte que nos inspira
o amor é abstrato, sem cor ou cheiro
floração que não cabe no peito
se alastra sem cessar
então aumentamos a lupa
mantemos o foco nas entrelinhas
eles nos olham desconfiados e deixam a vida para depois
enquanto trazemos o mar no olhar
e eles, nem uma gota por dentro

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sempre

avisto a melancolia a rondar o mundo
com os bolsos cheios de pedras como herança

sempre em estado de alerta com olhos desaguados
nas sobras dos cantos tristes de pássaros engaiolados

avisto o outro lado da moeda com código indecifrável
sandices vistas a olho nu e o dedo sobre os lábios, pede silêncio

sempre o temor quando a idade avança nos cabelos brancos
enquanto a noite e as sombras saqueiam o castelo dos inocentes

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sangria pós-moderna

tantas coisas
não entendia

precisava parar de fingir
que não estava

despedaçada

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fogo de palha

a história que carrega está nos calos das mãos
e até de quem rouba o amor-próprio do próximo
e o empurra para o chão

na cicatriz daquele que não sarou
de quem conhece o olho roxo

na cor da pele
na falta do arroz, feijão e pão

na falta de opções para os indígenas
falta de terra, de um teto
de agasalho

falta amor nos meus versos quebrados

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reconciliação

 

na maioria dos dias
quem me acorda animada é o sol

 

quando estou neste estado de graça
a heroína se aventura

 

reconcilia-se com a idade
e cabelos brancos

Benette Barcellar

Benette Bacellar é natural de Porto Alegre, com atual lançamento do terceiro livro de poemas “lá onde vagam os lobos” em 2025, em parceria da escritora Neli Germano, “sobrevivi ao dia seguinte”, pela Editora Casa Verde. Em 2018, lançou o segundo livro de poemas “a outra me faz roer os dedos”, obra vencedora do I Concurso Literário Benfazeja e uma das finalistas do Prêmio AGES, Livro do Ano, em 2019. Em 2015, lançou seu primeiro livro de poemas “Nua Escrevo”. Menção honrosa no Prêmio Lila Ripoll de Poesia em 2016 (subterrâneo) e em 2017 (mulher lua). Participou das coletâneas “Elas” (2017), Coletânea Entreverbo 2022 (2023) e II Tomo das Bruxas: Corpo e Memória (2024), Poemas à Flor da Pele (2025), Mulheres Gaúchas em Prosa e Verso (2025) e Arca de Antares (2025).

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