ALICE SOUTO – O desbravador no divã [resenha]
ALICE SOUTO – O desbravador no divã [resenha]

ALICE SOUTO – O desbravador no divã [resenha]

por Mayk Oliveira

poeta e colunista da Revista Navalhista

Desbravando a descoberta do outro

Na história da antropologia encontramos recorrentes perguntas curiosas e profundas sobre identidade que nasceram justamente do encontro com aquilo que parecia estranho. No início do século XX, o antropólogo Franz Boas chamou atenção para algo aparentemente simples, mas revolucionário para sua época: “A civilização não é algo absoluto, mas relativo; nossas ideias e concepções são verdadeiras apenas na medida em que nossa civilização vai.” A observação parecia quase banal, mas tinha implicações profundas. Se a cultura é relativa, então aquilo que julgamos natural, normal ou superior talvez seja apenas o reflexo do lugar de onde falamos.

Décadas depois, ao refletir sobre suas viagens pela América do Sul no livro “Tristes Trópicos”, o antropólogo Claude Lévi-Strauss registrou um desconforto semelhante diante do mundo moderno: “O mundo começou sem o homem e terminará sem ele.” A frase reverbera como lembrete de que as sociedades humanas são apenas episódios em uma história muito maior, perpassadas por rios, florestas e povos que existiam muito antes das narrativas oficiais da civilização.

Entre essas duas perspectivas, o filósofo Tzvetan Todorov, ao estudar a colonização em “A Conquista da América”, formulou outra pergunta essencial: “Descobrir o outro é descobrir uma relação, não um objeto.” Em outras palavras, o encontro entre culturas não é só um choque entre mundos distintos, mas também um espelho que revela nossas próprias limitações, preconceitos e formas de compreender a realidade.

Então, vemos que é nesse território de encontros, estranhamentos e perguntas sobre pertencimento que se insere o livro “O desbravador no divã” (M.inimalismos,2026) da escritora carioca, Alice Souto. Ao viver por quase seis anos na cidade de Chapecó, no estado de Santa Catarina, a autora pode observar e refletir sobre muitos temas a partir de uma provocação recorrente: “O que você acha de Chapecó?”.

Alice Souto transforma a pergunta em fio condutor de uma investigação que ultrapassa o senso comum. O livro se constrói como uma escrevivência, pois foi escrito a partir da experiência concreta de deslocamento e memória fazendo articulação com os conceitos de pertencimento, feminismo, hegemonia cultural, relações étnico-raciais e psicologia política.

A autora delimita sua fala de mulher branca, carioca, de classe média, que viveu “perdida e achada”, no oeste catarinense sem deixar que esses pontos se tornem mero protocolo identitário. Sua escrita é ensaística e acessível num tom de conversa, quase de botequim, fato esse que não diminui a complexidade do debate e que pelo ao contrário, amplia seu alcance, acertando em cheio ao evitar os jargões acadêmicos, mesmo mobilizando referências teóricas e históricas.

O que poderia ser uma resposta protocolar se revela, nas mãos da Souto, uma ponta de iceberg cuja a compreensão só foi possível ao se munir de uma abordagem que integra psicologia e sociologia num processo psicossociológico. Alice Souto desmonta as expectativas que recaem sobre o olhar “de fora”, recusando tanto o elogio automático de segurança quanto a crítica simplista à ausência de elementos comuns (como a praia, por exemplo) ou de diversidade cultural. Sua análise parte por tensionar a pergunta buscando entender melhor a subjetividade chapecoense associando a nova morada com seu lugar de origem.

Um dos pontos altos do livro é a metáfora do “Desbravador no divã”. A figura monumental que simboliza a colonização local é deslocada para o campo da psicanálise. Ao “recostar” o desbravador no divã, a autora questiona hierarquias naturalizadas, valores conservadores e a lógica de pertencimento atrelada ao sobrenome e à origem europeia. Trata-se de uma sacada simbólica potente cuja a cidade é convocada a se autoanalisar.

Alice Souto também investiga a estética local, dialogando com produções culturais chapecoenses e com artistas da região. Ao tratar do kitsch, da gambiarra e do “faça você mesmo”, a autora evita a simples caricatura ao propor que a chamada “estética da gambiarra” pode ser entendida como força criativa periférica, o que sugere desmontar o olhar tradicional que associa interior à falta de cultura.

O livro ganha densidade quando aborda a simbologia do “porco”, elemento central na economia e no imaginário chapecoense. Longe de uma análise superficial, Souto percorre referências históricas, literárias e culturais para discutir como o suíno transita entre símbolo de fartura, impureza, capital e violência industrial. Ao comentar produções locais como documentários e performances artísticas, a autora elenca as camadas afetivas e contraditórias que permeiam essa identidade regional.

Outro eixo fundamental é a reflexão sobre etnicidade e imigração. Ao observar a presença de haitianos, venezuelanos e povos originários, Alice Souto questiona a narrativa embranquecida da cidade. Seu olhar inquieto questiona e descreve a experiência de perceber como a influência do paternalismo local em festas da comunidade haitiana, revela o contraste entre a falta de molejo da classe média branca da zona central e a expressividade afro-caribenha. A autora identifica um sintoma histórico de repressão ao corpo muito maior que a explicação de ser uma diferença cultural.

A dança, vista ora como vulgaridade, ora como ameaça à ordem, se torna um campo simbólico de disputa. A repressão aos corpos que dançam, sobretudo quando esses corpos não são brancos ou pertencem às classes populares, mostra muito sobre as dinâmicas de poder que estruturam o espaço urbano.

Um aspecto especialmente relevante é a forma como a autora articula centro e periferia dentro da própria cidade. Ao explorar o fenômeno do “Bobódromo” e os antigos bailões da periferia, a Alice Souto indica como o lazer popular foi historicamente criminalizado e ridicularizado.

A crítica se estende à precariedade dos espaços culturais e à violência simbólica enfrentada por músicos e artistas locais. Chapecó surge como uma cidade que valoriza o trabalho produtivo e o consumo, mas que ainda reluta em reconhecer a arte como trabalho legítimo. Nesse ponto, o livro dialoga com debates nacionais sobre desvalorização cultural, mas mantém o foco na especificidade regional.

Ao mesmo tempo, Souto evita romantizações. Reconhece a complexidade dos conflitos, a presença da violência e as contradições internas às próprias comunidades. Sua análise opera sem binarismos fáceis entre “centro opressor” e “periferia virtuosa”, procurando entender como essas categorias se atravessam e se reproduzem mutuamente.

Outro mérito da obra é assumir a dimensão autobiográfica como ferramenta crítica. A maternidade, o divórcio, o retorno ao Rio de Janeiro e o contato com coletivos culturais feministas não aparecem como pano de fundo, mas como parte constitutiva da reflexão. A autora compreende que toda análise social é também intercalada por vivências íntimas. Assim, o livro ganha densidade emocional sem perder rigor argumentativo.

O desbravador no divã” (M.inimalismos,2026) não é a tese da resposta definitiva sobre Chapecó. Também não pretende ser um simples diário ou manual sobre a identidade chapecoense.  Ao colocar a cidade no divã, Souto também se coloca e aproveita para fazer mais um convite à autocrítica coletiva. O livro é fruto de uma relação muito amorosa com a região, com a cidade, com as fronteiras e com as identidades e mesmo assim não deixa de ser profundamente crítico. E fica claro que para entender e conhecer profundamente, é preciso amar nosso “objeto” de pesquisa. Podemos afirmar que aí reside a maior força da obra, que é reconhecer que todo olhar é situado e que a análise mais honesta nasce do encontro entre estranhamento e amor.


Alice Souto é uma carioca de muitos “Ps”: psicóloga, poeta, performer e periférica. Como poeta, possui três publicações independentes e artesanais (fanzines): Traça a Traço (2012), Poesia Auto-Sustentável (2013) e Beijo Azul (2015). Realiza performances de poesia falada desde 2009, participando de eventos e ministrando oficinas na área da literatura. É criadora do Sarau Nuvem Colona (Chapecó) e integra o Coletivo Balalaica de Poesia e Performance, no Rio de Janeiro. Também é criadora da comunidade de acolhimento para pessoas não monogâmicas intitulada Maçãnaria, e escreve e pesquisa sobre Não Monogamia Política.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *