Como meu filho
Entre rostos mutilados
E corpos estraçalhados
Por algum míssil ou bomba,
Pareces apenas dormir
No sossego de um cochilo,
Com lábios e os olhos
Entreabertos, tranquilos,
Em paz; quase posso
Ouvir o ressonar
Do teu sono no sono
Do meu filho.
O rosto para o lado,
O abdome para cima,
Os cabelos claros
Levemente desgrenhados
Não parecem ser de vítima
Que morreu
Por causa dos estilhaços
De alguma bomba
Ou míssil europeu,
De algum jato
Israelense ou americano
A rasgar os céus e espaços
Do Líbano e da Síria,
Do Iraque e da Líbia,
Da Faixa de Gaza
Na Palestina,
Mas de quem dorme,
De quem apenas espera
Que te peguem nos braços,
Te acordem com um beijo
E te levem para casa,
Para bem longe
De tanta morte e desespero,
Do clangor feroz
De guerras e ocidentes,
Da fome concupiscente
De magnatas e monopólios
Por ouro e petróleo;
Que façam o que faço
Agora com meu filho,
O que quero fazer contigo:
Tomar-te em meus braços,
Te beijar e te afagar
Para destarte
Ver-te feliz
A sorrir e brincar
Sob a paz de uma luz
Que ilumina o meu quarto
Bem longe dos obuses
E dos homens de negro
Que vestem capuz
E empunham fuzis.
As flores mais belas
Deusas
Ou mulheres,
Santas
Ou bacantes:
É tênue
A diferença
Entre Frineia
E Madalena,
E, seja no areópago
Ou no sinédrio,
Julgam os cegos
Sob os desejos mais cegos.
Por isso o que ama
Um poeta
Não são anjos
Ou quimeras,
Mas as víboras
E as feras
Que erram famintas
Pela terra
E nos devoram
Com desejos
E panteras,
Caninos e vésperas
A mostrarem
Que o lindo
É condição
Do terrível,
E que tudo o que finda
Antes fere a carne sacrílega,
Pois as flores mais belas
São carnívoras.
Bélico
Flores bélicas
Rebentavam em todos os canteiros.
Bellum rufava seus tambores
Nas hostes do meu quarto,
Entoando um hino
Repleto de sequestro e assassinato.
Súbito, então, comecei
A oferecer flores e balas
Nas escolas,
Nos cinemas e teatros,
Em todas as ruas
E casas,
Em ônibus e trens.
Eram lírios e tomilhos
Furibundos,
Narcotizados
E guerreiros
Lançados dos rifles
E bombardeiros.
E tudo me parecia terrível e Belo
Como a lua lhe estuprando os amantes
E a despregando-se, como um alien,
Sangrenta, crescente,
De nossos ventres.
Colhi todas essas flores
Ao som de desesperadas cigarras
E de justiceiras espadas.
Cheguei mesmo a cultivá-las e traficá-las
Por toda África e Palestina,
Flores fétidas e clandestinas,
Como um jardineiro
A passar tudo a facão,
Como um padeiro a envenenar o próprio pão.
Era preciso cumprir minha pena,
Seviciar todos
Que me maltrataram sem pena
E me entregaram aos chacais e hienas.
Hoje não cultivo mais.
Estou em paz.
Bato ponto,
Leio a bíblia
E entrego o protocolo
A mães que carregam no colo
Filhos e pais
De futuras chacinas.
Deusa
Mãe de todos os deuses,
Mulher de Zeus e Jeová,
Eu sou Ester,
Vésper, grande mar.
O homem, o profeta
Não sabem quem sou,
Meu amor não é
Por escribas e exegetas.
É o que nutre
A mãe por um filho
E que o protege
De feras e abutres.
É o início,
Todos os começos,
As lágrimas do Nilo
De Biblos ao Mar negro,
A rede do pescador,
A sede dos escravos,
A labuta e o arado
Do lavrador.
Não quero o assassínio,
Nem morte e escravidão
Quero estar no templo
Do rei Salomão.
Não quero sacrifício,
Quero apenas hinos
Pães, bolos e alimento,
O perfume de um incenso,
Que derramem
Na boca dos vivos
Vinho e leite,
Mel e azeite
Que, em favos, oferto
Dos meus seios,
Cachos e cabelos –
Fontes no deserto,
Pois abomino
O sangue dos castigos,
As terríveis profecias
Do cego Jeremias,
A loucura de reis
Que pilham, destroem
Templos, altares
Em nome da lei.
Sou mãe, tenho filhos
Entre hititas e cananeus,
Entre gregos e assírios,
E egípcios e judeus.
Sou próspero caminho
Terra fértil onde
Não há a espada
Ou a fome,
Onde, nas moradas
De Judá a Ishtar,
Nada falta,
Pois sou lauta,
Irmã, mulher,
O seio nutriz
De Inanna, de Ísis
E da muçulmana,
A fé de Magdala
Contra pedros pétreos,
Prontos a bani-la
E rejeitá-la.
Nunca o menos,
Mas céu, Vênus,
Grande mar,
Asherah.
Do nada ao tudo
No infinitesimal tempo de Planck,
Na dança espiralada das partículas,
Energia em matéria convertia-se
Que não durava mais que um breve instante:
O nada e o quase nada, espaço quântico
Formado por matéria fugidia,
Em térmica expansão, de um ponto mínimo,
Grão de areia, ao imenso mar: atlântico.
Pois, se no átimo breve de um segundo,
Súbito, ganhou tudo forma e fundo,
Foi porque etéreos quarks conjugados
Mostraram toda a ausência da vontade,
Que o tempo resultou do breve enlace
De prótons e de elétrons sem idade.
De volta para casa
É tempo de acabar com esta espera,
E embarcar no primeiro que me sirva,
Num ônibus expresso que me leve
Direto para casa, sem desvios,
Que siga pela via seletiva
Até um bairro escuro dos subúrbios,
Pois quase sempre o trânsito é pesado
E distantes os caminhos percorridos
Nessa fera jornada para casa.
São muitos os perigos de perder-me,
De enguiços e acidentes na avenida
De quem atropelado morre anônimo.
É tempo de vencer atroz viagem,
Tentar guardar um pouco do meu fôlego
A quem me espera em casa para a janta.
É tempo de adentrar minha morada
Repleto de esperanças e carinhos,
De beijos e saudades do meu filho,
É tempo de esquecer o itinerário
Que faço quando volto da cidade
Trazendo na mochila a Hydra de Lerna.
Livre
Sejamos como ela,
Joana Helena Cadenas,
Que, antes de morrer,
Matou tudo,
Todo o pesar e murmúrio,
Todo o medo e miséria,
O que a não fazia mais bela,
Inclusive a ela,
Por ter
No próprio nome a cadeia,
Muros de nãos e feias verdades.
Façamos como ela
Ou como o balão
Que, sobre a cama
De Joana Helena Cadenas,
Antes de murchar
E ir ao chão,
Num dia de vento,
De gozo, nudez
E contentamento,
Fugiu da sua cela
Pela janela
Da imensidão.
Sejamos assim:
Joana,
Helena,
Balão,
A sina
De desafiar
Tetos,
Guerras
E guilhotinas.

José Felipe Mendonça da Conceição, como poeta, adotou o nome Felipe Mendonça. Nasceu, em 1976, em Porto Alegre/RS. No entanto, hoje, mora no Rio de Janeiro. Cursou Letras na UFRJ, lançou seu primeiro livro de poemas em 2018 e outro em 2024, com mais um no prelo a ser lançado ainda em 2025. Antes, porém, fez pós-graduação em Literatura Brasileira, tendo obtido o título de mestre e doutor nos anos de 2010 e 2015 pela UFRJ. É pai de dois lindos filhos, reside em Belford Roxo/RJ e cuida de um blog chamado “poesia, necessário pão”.

