CONCEIÇÃO RODRIGUES – Os dedos das santas costumam faiscar [resenha]
CONCEIÇÃO RODRIGUES – Os dedos das santas costumam faiscar [resenha]

CONCEIÇÃO RODRIGUES – Os dedos das santas costumam faiscar [resenha]

por Mayk Oliveira

poeta e colunista da Revista Navalhista

Raios e santas na tempestade

Uma escritora tem a potência de escrever um livro. Mas também possui a potência de não escrevê-lo. Essa possibilidade de suspender o ato, de manter aberta a capacidade de fazer ou de não fazer, é aquilo que o filósofo italiano Giorgio Agamben compreende como potência. Longe de significar apenas uma energia voltada para a realização, a potência, em seu pensamento, constitui um campo aberto de possibilidades, capaz de tensionar e até suspender as engrenagens que organizam a vida social.

Sabemos que há um cenário cuja as formas de pensamento e as instituições sociais tendem a conduzir os indivíduos a aceitar a realidade como algo inevitável, instaurando uma cultura de conformismo que reduz o campo da experiência humana. Agambem identifica a emergência de vidas que permanecem dentro da sociedade, mas sem proteção efetiva ou pertencimento pleno à comunidade política. São vidas expostas às decisões do poder, situadas na zona ambígua entre inclusão e exclusão, podendo até mesmo chegar a decisão nefasta sobre quem deve viver e quem pode morrer.

Diante disso, o filósofo italiano sugere que recuperar a potência da vida significa desativar os dispositivos que a capturam, preservando a capacidade de não se reduzir a uma função social previamente designada. Mantendo-se aberta a possibilidade de não obedecer automaticamente, de suspender os automatismos da produção e de experimentar outras formas de existência.

É a partir desse fio conceitual que se aproxima essa reflexão filosófica de certas experiências literárias contemporâneas. A literatura, muitas vezes, revela pontualmente aquilo que as estruturas sociais procuram silenciar. Especialmente vidas conflituosas e subjetividades que se recusam ser inteiramente capturadas pelos papéis que lhes foram destinados.

E é nesse horizonte significativo que o livro Os dedos das santas costumam faiscar (Editora Patuá,2021), de Conceição Rodrigues, se apresenta como um terreno fértil de pura potência. Dividido em quatro partes, denominadas pela autora, em “desatos”, o livro nos dá um conjunto de poemas, que nos apresenta as visões de diversas figuras femininas que invertem (subvertem?) papéis sociais previamente estabelecidos. Na obra, se identifica , não apenas um, mas vários eu líricos que se movem em constante fricção com as estruturas que o cercam, lutando para desmontar, a todo momento, os exercícios de poder sedimentados nas instituições da sociedade.

Temos uma voz poética que se põem em deslocamento, fundindo extremos em só uma personagem, que aqui vou conceituar, como uma espécie de “madroeira lírica das mulheres”, a “santa-puta” a se contrapor as expectativas que a sociedade costuma organizar em torno da mulher, seja no âmbito da família, da maternidade, do trabalho, das determinações biológicas ou das normas de comportamento. O perfil dela é facilmente reconhecido: só pensar naquela pessoa de beleza dissimulada, sorriso disfarçado que a inocência é pura quimera porque seu cinismo é típico de arengueiro. Essa entidade/identidade lírica além de negar tais papéis, contribui para a desmontagem e a reorganização do conceito de “mulher”, sugerindo simultaneamente outras maneiras de pensar e habitar o ser feminino no mundo.

Identificamos ainda, em Os dedos das santas costumam faiscar (Patuá, 2021), que essa mulher protetora surge vibrante e em estado bruto, perigosamente falante; faladeira. Ela guia com audácia e força a paixão feminina pela sua potência. O atrito constante entre elevação e degradação, desejo e decomposição, volúpia e ruína, êxtase e ferida convivem em tensão. Também percebemos que no plano formal essa subversão se manifesta. Pois, em muitos momentos, os versos se organizam segundo uma cadência que remete à reza ou à oração, próxima do ritmo de ladainhas. Contudo, aquilo que tradicionalmente seria agradecido ou suplicado diante do sagrado é aqui deslocado. São raios lançados nas guerras, luzes lançadas nas tempestades.

Conceição Rodrigues introduz uma espiritualidade com ares estrategicamente tímidos mas carregados de passionalidade e insurgência, feita de signos estilhaçados, imagens sagradas corroídas e orações mundanas. É um sagrado crepuscular que parece disposto a rasgar o mundo pela violência da revelação. Nesse ambiente, o eu lírico observa a suspensão, que empurra a consciência para nasce da contemplação antes de ensaiar qualquer reação.

Ao longo dos poemas despontam, desativando os dispositivos que capturam a potência, pequenas narrativas, nas quais essa figura feminina, a “santa-puta”, descreve tanto situações vividas quanto situações preteridas e muitas vezes o embaralhamento dessas experiências. Dessa sobreposição é parido um tempo outro, uma espécie de desvio temporal capaz de fazer surgir novas trilhas de existência.

Ainda que a voz poética se projete como representação de múltiplas manifestações femininas, ela o faz a partir de um território específico, de um corpo situado. São mulheres que se bolinam, que se empapam, que explodem, são orgiásticas, que se pinicam, que não se sentem acudidas e que mangam despudoradamente. Mulheres aguadas, que aguam, que abundam e carregam no próprio corpo as marcas de uma existência alterada por tensões e resistências. O corpo feminino passa a ser entendido como sujeito de ação no mundo. Criando sentidos o corpo deixa de viver no discurso para produzir linguagem, passando a reinventar o modo de dizer no mundo.

E com essa percepção, chegamos no ponto que a voz lírica de Conceição Rodrigues assume definitivamente seu ato maior de insubordinação. É quando a poeta faz a personificação desses sistemas de opressão, que antes apareciam apenas como estruturas abstratas, se manifestarem por meio de figuras concretas do cotidiano. São eles, os homens que ocupam diferentes posições sociais, filhos, companheiros de trabalho, representantes políticos, religiosos e autoridades em geral que, em tese, deveriam zelar e manter algum tipo de equilíbrio ou justiça nas relações sociais. A crítica apontada na obra é dirigida tanto para as instituições distantes, quanto às formas ordinárias pelas quais essas estruturas se encarnam nas relações sociais mais próximas.

E o que se evidencia é a falência desse papel. Em vez de operar como instâncias de amparo ou mediação ética, essas figuras, que chamo, baseado na poética da autora de “desinfelizes”, acabam reproduzindo e sustentando uma estrutura profundamente excludente. Sendo assim, o sistema se apresenta como uma abstração institucional, como uma rede de práticas e comportamentos cotidianos que reiteram o silenciamento e a diminuição da potência feminina. Esses “desinfelizes” criam uma “reima” nas mulheres, que só inflama a existência.

Por sua vez, a potência aflora se encontrando, como sugere a própria poética de Conceição Rodrigues, com as mulheres “parideiras do caos”, que existem continuamente dando à luz um labafero soturno. E assim, a poesia vai expondo vísceras, revelando paisagens cujo o cheiro das flores não traz satisfação, cujo o rezar já não é sagrado, e sim, é lascivo e trágico, onde o desejo se torna perigo e onde a metáfora do desviver se torna uma das mais estranhas e inquietantes formas de magia.

A poeta segue criando mundos imaginários, desnudando o mundo existente, revelando suas fraturas, suas violências e seus silêncios. Segue suspendendo os significados estabilizados e devolvendo às palavras a força de dizer aquilo que ainda não foi plenamente nomeado. Estamos diante da exposição escrita de Conceição Rodrigues, na tenência de atualizar aquilo que, em termos “agambenianos”, poderíamos compreender como um exercício de potência.

Em Os dedos das santas costumam faiscar (Patuá,2021), a poeta busca a universalidade ao tentar restabelecer o lastro nesse mundo; “rebolando no mato” (jogando fora) as concepções antigas, atravessando-as com irreverência e desgaste. A poesia de Conceição Rodrigues propõe a todo tempo que recuperar a potência significa reaprender a viver de forma mais livre e criativa. É a literatura que tem uma incumbência a realizar, alguém a atingir.

Amolando a sua navalha simbólica, acendendo velas sem redenção, maculando cuidados domésticos que convivem com a tensão do rito, que é reativada a potência. Conceição Rodrigues propõe uma crítica contundente ao modo como o mundo moderno passou a valorizar exclusivamente a produção e o desempenho que transformou a existência reduzida à sua dimensão meramente biológica, desprovidas de pleno reconhecimento político.

Entenda que, a poeta abre as gaiolas para fuga, lucidamente instalando uma atmosfera de desalento, distribuindo pequenas desesperança diante das ilusões organizadas pelo mundo social e promovendo a possibilidade de existir para além das formas previamente designadas. Sua poesia constitui de um movimento simultâneo de reestruturação e destruição, em que a escrita expõe os mecanismos que tentam capturar a vida e abre frestas para que outras possibilidades de existência se anunciem.


Conceição Rodrigues

Conceição Rodrigues nasceu em Arcoverde, portal do sertão pernambucano, mas viveu a maior parte do tempo em Recife, onde mora até hoje. É graduada em Letras, especialista em Literatura, especialista em Escrita Criativa e mestra em Estudos da Linguagem. Leciona na Rede pública estadual de ensino. Recebeu menção honrosa no III Prêmio Pernambuco de Literatura com o livro de contos “Corda para nós”, e no IV Prêmio Pernambuco de Literatura recebeu menção honrosa com o romance “323”. Trabalhou como assistente de Raimundo Carrero na Oficina de Criação Literária- UBE. Organiza e participa de antologias. Dá assessoria, faz mentoria e leitura crítica em produção textual literária. Publicou em 2020, o livro “Molhada até os ossos”, em 2021 “Os dedos das santas costumam faiscar”, ambos de poemas. Publicou em 2023 o livro de contos “E Deus não acudiu ninguém”. “Para dançar na cerca elétrica” é seu mais recente livro de poemas. Todos forma lançados pela Editora Patuá. cecitha7777@gmail.com @cecitarodrigues

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