Sob a Chuva Púrpura
Não quis ferir o que era ternura,
nem dissolver teu riso na amargura.
Apenas quis tocar o instante raro
em que o amor se despe — e é claro.
Ficamos nus diante do tempo:
tu, brisa; eu, desalento.
E o que restou de nós — cor e vento —
chorou lilás sobre o firmamento.
Choveu roxo nas veias do dia,
como se o céu sangrasse poesia.
Cada gota era um nome que não disse,
um perdão que nunca te pedi — e ainda existe.
Não busco retorno, nem recomeço:
só a lembrança do que foi excesso.
Talvez amar seja isso — arder sem fim,
arder no outro até o fim de mim.
Agora o mundo é brando e lento,
o sol é véu, a dor, argumento.
E quando chove, penso: enfim,
a chuva púrpura ainda cai em mim.
O Som das Cores
Havia um som por trás da cor,
um grito mudo — o som do amor.
Não era voz, nem melodia,
era o eco de quem partia.
O tempo escorreu pelas nossas mãos,
feito tinta manchando ilusões.
E o que era céu virou espelho,
onde o passado dorme vermelho.
Amar é ver o invisível em queda,
é tocar o fim com a alma aberta.
E quando a dor se veste de flor,
descobrimos que a cor é dor.
Hoje, as lembranças brilham lilás,
como brasas que o tempo não faz.
Há beleza em perder devagar,
há eternidade no verbo amar.
O Último Poema Antes da Chuva
Se eu soubesse o que viria depois,
teria guardado o riso de nós dois.
Mas o destino, com suas mãos discretas,
recolheu o sol das janelas abertas.
Agora escrevo o que o silêncio dita,
cada verso é uma ferida bendita.
E o que era promessa, virou canção,
que insiste em pulsar dentro da solidão.
O amor — esse incêndio que não termina —
queima por dentro e purifica.
Não é consolo, é tempestade,
não é partida — é eternidade.
Quando enfim chover, e o mundo dormir,
talvez teu nome volte a florir.
E se o céu for lilás outra vez,
que a chuva nos lave — e nos desfaça de vez.

