JOEMA CARVALHO – 7 poemas
JOEMA CARVALHO – 7 poemas

JOEMA CARVALHO – 7 poemas

Poemas inspirados nas músicas do Milton Nascimento (considerando o atual momento dele, fica como uma homenagem carinhosa).

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O FIM, UM COMEÇO

(Inspirado pela música Encontros e Despedidas)

 

partimos como loucos

em busca de temperança 

 

de estação 

em estação 

a roda da fortuna 

nos conecta 

à gerações 

 

faz do fim

um começo 

um cenário 

de diversos mundos

 

pessoas que chegam 

que partem

que ficam para sempre

d’alguma forma

 

pessoas que dão um recado

e seguem

 

torres se rompem 

na dinâmica do sol

e da lua

 

as mortes nos ensinam

a deixar ir

a sincronicidade

dum grande encontro 

 

através duma estrela

chegamos 

brilhamos 

através do que faz sentido

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APITO

(Inspirada na música Ponta de Areia)

 

pisei na Ponta de Areia

num trabalho

no Sul da Bahia

 

a música

acompanhou-me

nos trilhos

de quando era pequena

e ali

 

de Cambé a Londrina

uma festa

quando pulava o trem

no caminho da escola

 

ia para Londrina

quando ainda

levava pessoas

 

“ali, passava boi

passava boiada”

ia de trem até Morretes

fazer o Itupava

quando na faculdade

acampava no Marumbi

 

depois que pisei

na Ponta de Areia

fui picada

por memórias

 

no Trenzinho do Caipira

Villa-Lobos e Egberto

sons da infância

nas letras do Goular

nos trilhos da vida

a voz do Edu

no Tom

ficaram para sempre

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EM FORMAÇÃO

(Inspirado pela música Travessia)

 

cada qual 

com seu canto

no canto

uma história 

por traz de tudo

 

um caminho

uma escolha

feita de montanhas

 

pedras que se deixam mover

fluidas como o rio de baixo

 

que se desgastam 

no atrito

do toque da chuva 

do assopro do vento

no desprendimento 

da rocha mãe 

 

pedras que se movem

se confundem com liquens

deixam de ser exatas

transformam-se

com o que lhes falta

 

no ciclo da vida

tocam nas trocas

mudam de função 

 

deixam de ser 

sendo

algo novo

em formação

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ANTES DO TEMPO

(Inspirado pela música Evocação das montanhas)

(poema sonoro)

 

no alto das montanhas 

a história em movimento 

relictos dum tempo

onde não havia passado 

nem futuro 

 

fora do tempo

os esfagnos colonizaram espaços 

nos acúmulos de algo diferente 

gerado por fungos 

bactérias 

na ação do vento

nos campos de altitude 

 

na ação da chuva

que brindava

o princípio 

o silêncio 

a palavra primordial 

 

no alto das montanhas 

veios da d’água 

escorriam com a existência 

de algo em formação 

 

soerguimentos de rochas

 

a paisagem ampla

refletia os processos 

por onde todos passavam

florestas nebulares

 

a construção 

e a desconstrução 

numa dança 

na arritmia

do descompasso 

 

uma orquestra regida

por entropia 

e quantum 

de beleza 

 
 
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SOLO

(Inspirada pela música Cio da Terra)

 

“Plantar é a arte de colher o sol”

 

saborear a cor do solo

suas propriedades 

 

cada planta

se planta 

no seu solo

 

num solo

uníssono 

de sua espécie 

 

nos indica

onde estamos 

e nos diz muito

dali

 

saborear o seu nicho

o seu ciclo 

solo

 

mel da melipona

do cálice 

se jorra

para tudo

o que é vivo

elementos fragmentados 

no silêncio 

da dinâmica etérea 

solo

em cada pétala

estigma de vida

onde estames 

unidos 

 

paira na inércia 

do movimento dos planetas 

e nos conecta

 

num banho de barro

com a terra geradora

dos princípios 

que nos mantêm vivos

 

tudo está ali

na formação 

dos cacos

de rochas

em poeiras

sedimentadas 

 

nosso fim

o mesmo

início

solo

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RAMOS DA ESPINHA

(Inspirado pela música Cais)

 

minha espinha dorsal

cais

donde brotam copas

o mar

que me conectam ao céu

donde brotam minerais

 

minha espinha dorsal

cais

me âncora

nos princípios 

de minha geração 

 

me quebra

caos

quando me solto

mar

 

volto ao Cais

através

de minha espinha dorsal

uma flor

sobre a copa que já existia

sem folhas

 

outra coisa 

caos

acontece no cais 

eu mesma reagrupada

depois que me soltei

para além da solidão 

 

um fruto da espinha dorsal

se solta

no bico duma ave

se expande para além de mim

eu mesma

minha sombra

que não tenho controle 

 

invento um espaço

entre a poesia que aflorou 

na superfície da paisagem 

e a espinha dorsal

 

que me resgata 

do tempo sem som

 

donde inconsciente 

estive 

 

lúcida voltei

através do Cais

que invento 

quando preciso ser ninfa

no ciclo do vento 

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DA COR DA TERRA

(Inspirado pela música Sentinela)

 

da cor da terra

reflete a transparência d’água

na tela do céu

 

morte

vela a vida

na teia

do ciclo em flor

 

sentinela sou

do presente 

que aqui estou

 

a vida 

uma oportunidade 

aprender morrer

 

sentinela sou

das histórias 

que constam

nos anéis de crescimento 

da árvore defronte 

da casa grande

 

ela está ali

tortuosa

como os traços 

das lembranças 

 

desafios do processo 

que finda 

nos micélios 

e renasce em mistério 

no choro 

dum novo ser 

que rebrota

dum ventre

Joema Carvalho

Joema Carvalho é Engenheira Florestal e escritora. Autora dos livros: Crônicas de Uma Jornada Florestal (2024) e Luas & Hormônios (2010,2020). Coautora do Livro Entre Botânicas Decoloniais: As frutas silvestres de H. D. Throreau e as frutas brasileiras (2022). Organizadora do eBook Tuíra ed. Amazon (2020,2022). Participou de coletâneas nacionais e internacionais e de projetos literários. Membro da Academia Poética Brasileira – APB, Academia Brasileira de Letras – ABL Paraná e do Grupo de Ecocrítica – GECO/UFPR. https://www.instagram.com/joemacarvalho/

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