DESLANDI TORRES – Espelhos [conto]
DESLANDI TORRES – Espelhos [conto]

DESLANDI TORRES – Espelhos [conto]

João Maria nem ouviu o despertador, tão pesado que dormia naquela manhã de segunda-feira. O alarme tocou no horário em que tocava todo dia. O equipamento não desiste e tocou de novo e de novo, ele se espreguiçou pra cá e pra lá, bocejou, espreguiçou outra vez, tirou os óculos, alongou-se e se levantou. Foi ao banheiro, se aliviou, voltou meio sonolento ainda, colocou os óculos e olhou para o relógio ali na cabeceira da cama, sobre o criado-mudo, ao lado do retrato da sua mãe. Marcava naquele exato momento 06h06. Resolveu dormir mais um pouquinho. Era muito cedo, seu primeiro compromisso naquele dia seria bem mais tarde, então podia recuperar um pouco do sono que lhe faltava. Dormira muito pouco. Quando foi para cama no domingo, morrendo de sono, já era 00h00. Acordou deitado de costas, e só então percebeu que tinha esquecido de tirar seus óculos de grau com armação preta, tão pesada quanto as lentes “fundo de garrafa”. Agora se sentia um pouco tonto, a cabeça não doía nem girava, mas pesava. Tinha um gosto amargo na boca.

Às 08h08 se levantou, tomou o café da manhã na varanda ensolarada, com vista para a montanha. Um bem-te-vi cantava numa árvore próxima e outro, ou outra, respondia lá de longe: bem-te-vi. Aquele trinado em dupla, bem-te-vi-bem-te-vi – bem-te-vi-bem-te-vi irritou-o um pouco, talvez porque estivesse ainda com sono. Era amante da natureza e até gostava de bem-te-vis. E o que mais o incomodava naquele momento era a temperatura. O termômetro de precisão marcava 37,37 graus centígrados.

Ganhou a calçada e esperou seu ônibus. A linha 04.04 era das mais pontuais e o veículo parou no ponto às 08h08. Depois de 01h01min de percurso, desembarcou no número 1717 da Rua Duplicata, em frente ao escritório onde trabalhava.

João Maria conseguiu dar conta das suas tarefas diárias. Encarou com bom humor o mau humor do chefe, esse sim, parecia ter dormido mal, suportou com alegria algumas piadas sem graça dos colegas na roda do cafezinho, ofereceu à secretária o chocolate que comprara do vendedor que ficava sempre ali no ponto de ônibus e até se esqueceu de que usava aqueles óculos pesados, que teimavam em escorregar nariz abaixo por causa do calor – nem o ar condicionado da sala dava conta, embora amenizasse um pouco. Deu a hora do almoço. Comprou o jornal do dia, leu as principais notícias e foi à página de esportes. O seu time jogaria na próxima quinta, dia 12/12. Comprou o ingresso pelo aplicativo do smartphone. O jogo se iniciaria logo depois do Jornal Nacional. Trabalhou o resto do dia antevendo a goleada. Do seu time contra o adversário, é claro.

Encontrou os colegas na happy hour e Maria Joana estava mais bonita do que nunca. Aqueles olhos esverdeados, aquela mecha caindo na testa e o movimento de afastá-la dos olhos com a mão esquerda, com delicado gesto, aquele sorriso amplo, mas discreto, nunca gargalhando, os pitacos inteligentes e bem colocados, na hora certa, tudo isso enchia de encantos os olhos do rapaz. E o coração dele esquentava tanto que parecia que ia explodir dentro do peito.

Mas ela, quando dirigia seus vivazes olhos verdes  a alguém, era para o Augusto que os dirigia. E Augusto só olhava para Angelita.

A Angelita também estava lá. Ela também era bonita, ela também era inteligente, ela também tinha os olhos esverdeados… não, os olhos dela eram castanhos, claros, não eram esverdeados, ela também tirava a mecha que caía sobre a testa com gestos delicados e elegantes, só que com a mão direita. Os cabelos dela eram loiros e os da Maria Joana eram castanhos, bem escuros. Ela também dava pitacos inteligentes e bem-humorados. João Maria estava confuso. Seu coração esquentava quando olhava para Angelita, mas não fervia. E quem olhava, insistentemente, para ele era a Angelita.

Quinta-feira, 12/12. João Maria encontrou-se com Joaquim no final do expediente, tomaram um lanche na lanchonete da esquina e tomaram o ônibus da linha 06.06 rumo à arena. A nuvem preta no horizonte e o vento quente não deixavam dúvidas: a chuva seria torrencial.  E ela veio, bem assim.

O estádio parecia um lago. Chovia pesado, uma chuva calma, sem raios, sem trovões, abundante e serena, segura de si, chovia, chovia e chovia. Os torcedores se espremiam, as capas de chuva molhavam os sem-capa, os óculos de João Maria não serviam para mais nada, Joaquim não conseguia decidir se sentava ou ficava em pé. Não era possível iniciar a partida, então os alto-falantes anunciaram o adiamento do jogo.

Deu a hora e os times entraram em campo. Os juízes inspecionaram o gramado e decidiram esperar mais um pouco. Às 22h22 o árbitro deu o apito inicial.

Os dois times se digladiavam em campo. A bola não corria sobre o gramado, não quicava nas poças d’água, era chutão pra lá e pra cá, e mesmo assim a torcida fazia a ola, cantava e gritava palavrões.

Empate: 1 a 1.

Sexta-feira, ele estava de mau humor. A Maria Joana que não correspondia às suas investidas, o chefe que lhe cobrava um melhor desempenho, seu time que cedeu o empate nos acréscimos do segundo tempo, o dia que estava chuvoso, o ônibus que atrasou, o chocolate que comprou mofado do vendedor da esquina, o guarda-chuva que esqueceu no ônibus, o tropeção que deu na pedra solta do mosaico português, o pingo d’água que caiu da marquise exatamente na cabeça dele, o carro que passou sobre a poça d’água ao seu lado, o pernilongo que incomodou à noite, a Maria Joana… estava tudo muito desfavorável e ele resolveu comprar o bilhete do jogo do bicho na banca do Seu Genésio, onde compra, todo santo dia, o jornal. – Tá tudo tão nebuloso. Vou dar uma de avestruz. Me daí o 22-22. Põe aí $10,10. Vai dar esse milhar, pode crer. Seu Genésio não incentivou. – Mas… tem certeza? É muito raro alguém acertar no milhar.

Seu Genésio já era amigo do João Maria. De vez em quando até discutiam sobre a política nacional. Sim, Seu Genésio, eu sei, mas sei também que vai dar avestruz. Aumenta. Põe aí duzentos reais. – Não faça isso. Se você acertar você quebra a banca. – Tá bom. Então deixa R$20,20, tá bom assim? Tirou a carteira do bolso e conferiu: – Não, espera, R$30,30, tenho trocado aqui.

 Deu avestruz, na cabeça.

João Maria começou a pensar que não era tão azarado assim. Era só uma fase, que já estava passando. Prova disso é que, de repente, estava com dinheiro suficiente para trocar de carro, dar uma melhora no apartamento e ainda sobrava uma boa grana para viajar, quando tirasse férias. Finalmente iria conhecer a Croácia. Recolheu suas frustrações e só não girou o ponteiro das horas para trás porque suas forças não eram assim tamanhas. Mas, o que vale é o daqui pra a frente.

Joaquim morava num apartamento de classe média alta, num bairro nobre. De vez em quando convidava um amigo para bebericar e dar um mergulho. E naquele sábado seu convidado era João Maria, que acabara de chegar de viagem e tinha muitas novidades para contar. Ah!, a Croácia, que país lindo, que paisagem maravilhosa, que comida boa, quanta mulher bonita.  – Lindas, altas, olhos azuis esverdeados, cabelos ondulados, longos, pele clara como as da Maria Joana… Sim, muitas delas se parecem com a Maria Joana. – Olha aquela ali, poderia ser croata, de tão bonita. Se eu pudesse moraria lá. Era assim que ele via sua Pasárgada, radiosa, iluminada e luminosa, cheia de belas praias e resorts. E de mulheres parecidas com a Maria Joana.

À beira da piscina, observava as mulheres em seus biquinis exíguos, coloridos e provocativos. Não, nem todas. Algumas não eram tão belas assim. Algumas nem usavam biquinis, usavam esses maiôs de duas peças, mais discretos, bem mais discretos, e algumas até usavam aqueles de corpo inteiro. Ficou observando um grupo de cinco, junto a uma mesa e dois guarda-sóis que mal davam conta de sombrear duas delas, que se esparramavam nas espreguiçadeiras. E chega uma sexta, alta, elegante, meia-idade, cabelos ao meio da cintura, olhos vivazes – de onde estava não conseguia ver a cor dos olhos dela, mas imaginou que fossem esverdeados como os da Maria Joana.

O colega estava muito mais solto e expansivo do que sempre foi. Bem-humorado além do seu normal, sorrindo de qualquer coisa. Sabia de onde vinha aquela leveza, só ele sabia, João Maria não tinha revelado a ninguém além dele seu segredo, sua sorte. Quando perguntavam sobre o carro novo dizia que tinha sido um presente do pai, que morava no litoral.

  O que deu em você, que está assim… – Assim como? – Assim. A Maria Joana sucumbiu aos seus encantos? Vocês saíram? Teve de responder a essas perguntas muitas vezes desde a semana passada.

A happy hour estava animada naquela sexta-feira. Maria Joana excepcionalmente linda, aqueles olhos esverdeados, aquela mecha caindo na testa e o gesto de afastá-la dos olhos com a mão esquerda, aquele sorriso amplo, mas discreto, nunca gargalhando, os pitacos inteligentes e bem colocados, na hora certa, tudo isso enchia de encantos os olhos do rapaz. Olhava para ela e ela só olhava para o Augusto. Resolveu tomar uma atitude e se levantou, foi à toalete – só para disfarçar, porque o que queria mesmo era se posicionar mais perto dela – e, quando voltou, postou-se atrás da cadeira dela, pôs primeiro a mão direita sobre seu ombro, ficou ouvindo as conversas cruzadas e esperando a reação. Que não veio. Ficou em dúvida se retirava a mão ou se punha também a outra mão sobre o ombro esquerdo dela. Optou pela segunda alternativa. Os cabelos dela balançavam quando ria e faziam involuntárias carícias no dorso das mãos de João Maria. Abaixou-se um pouco e sussurrou no ouvido da moça: – Semana passada eu ganhei no jogo bicho, acredita? – Jogo do bicho? Nem sei como funciona isso.       – É simples. Você procura um local de venda e faz a aposta, escolhe um bicho… – Isso eu sei, mas não é ilegal?

Nem ele sabia porque ainda não tinha revelado a ninguém além de Joaquim sua fortuna. Mas sabia que, uma vez que abriu o bico, em seguida todo o escritório saberia.

João Maria ficou sabendo pelo seu oculista que seu problema de visão poderia ser resolvido com uma cirurgia relativamente simples. Além disso, seu plano de saúde cobriria todas as despesas. Culpou-se por não ter resolvido isso muito antes, até porque essa cirurgia não era nenhuma novidade oftalmológica. Preciso pensar mais em mim, me cuidar melhor.

Seu apartamento, agora reformado, estava uma graça. Sua aparência tinha melhorado um bocado sem aqueles óculos e agora andava num carro novo, de boa marca. Sim, a maré virou, sua fase de infortúnios tinha ficado para trás.

Maria Joana não era interesseira. Mas não dava pra ignorar que a aparência do colega tinha melhorado visivelmente, seu humor andava mais afiado, ficou mais leve, parecia um rapaz feliz. E feliz ficou pelo rapaz, afinal eram amigos de longa data, além de colegas de trabalho .Hora de apostar na mega sena. Era quarta-feira, acabara de saber o resultado do último sorteio, ninguém levou a mega e o prêmio estava acumulado na casa das dezenas de milhões de reais.

            01-10, 02-20, 03-30, 04-40, 05-50, 06-60.

É isso aí, aos pares, simetria. Minha sorte vem daí. Preciso aproveitar essa maré de sorte… Se é fase, é melhor aproveitar. Logo.

Quando, naquela tarde, João Maria consultou o resultado pelo smartphone não acreditou. Um único acertador, com as dezenas 02, 03, 05, 20, 30, 50. Devia estar enganado, sua aposta não seria aquela. Nervoso, tirou o bilhete da carteira, suas mãos tremiam, seu coração palpitava, suava. Conferiu. Checou. Olhava para o smartphone e em seguida para o bilhete e ticava: 02tic02tic, 03tic03tic, 05tic05tic, 20tic20tic, 30tic30tic, 50tic50tic.

            Puta que pariu, acertei, gritou para dentro do próprio peito.

Mas… será que sou mesmo o único ganhador ou vou ter que dividir com outros essa bolada? E se forem muitos?       Continuou fazendo as contas.

Mesmo que sejam dez ainda assim dá pra aposentar.

Aposentar, aposentar. João Maria nunca tinha pensado nesse assunto, embora seu pai sempre o aconselhasse a se prevenir para isso, fazer um pé-de-meia, pagar uma aposentadoria complementar, não deixar só por conta do INSS.

Agora, aposentar, que palavra feia, culpou-se por ter pensado numa coisa tão fora de propósito. Melhor ver logo se ganhei sozinho ou se tenho acompanhantes para essa viagem ao mundo dos ricos.João Maria foi à lotérica onde apostou e de longe viu a faixa sobre a porta.

A seis dezenas saíram aqui. Único ganhador. R$137 milhões.

Segurou a respiração, soltou o ar, respirou fundo de novo, e de novo, e de novo, ainda meio tonto rumou para a agência da Caixa Econômica. Entre o amarelo e o esverdeado, seu sangue parecia parado dentro das veias.

Voltou para casa e não foi mais ao escritório. Desapareceu.

Ninguém ficou sabendo onde se escondeu João Maria.

Maria Joana e Angelita também desapareceram.

O voo 1111 partiu de Guarulhos às 22h22.

O único que tinha pista deles era Joaquim, que dizia nada saber. Até que também ele desapareceu.


Deslandi Torres

Deslandi Torres Nascimento, 26.01.1945 – Tumiritinga, Minas Gerais, arquiteto, casado, mora em São Paulo. Publicou: Achados e perdidos (conto) – I Concurso Paulista de Contos e Poesia –2002; O rio (poema) – I Concurso Paulista de Contos e Poesia –2002; Filicídio, (conto) Revista Sarabatana, 2023;  Cinco e-mails e um casamento, (conto) – Antologia da Editora PerSe, 2024; Morro Velho, (conto) – Revista Fluxos; OS SEIS (conto) – Coletânea “Nossos Pais”, Projeto Aparere; Mãe procura, (romance) – Ed. Caravana, 2024

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