EDUARDO CORDEIRO – 4 poemas
EDUARDO CORDEIRO – 4 poemas

EDUARDO CORDEIRO – 4 poemas

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Doce olhar

 

Retornara a face infante e, com ela, o medo e a solidão. Encolhia os ombros, baixava os olhos suplicantes como quem busca refúgio ou salvação no silêncio

 

As mãos, unidas com sofreguidão, desejavam agarrar, segurar com força.

E no breve toque percebia seu olor, seu vigor, seu calor

 

A voz, plácida, confessava fragilidade. Permitia-se envolver e ansiava ficar, deter o tempo, suster o momento, fazê-lo eterno

 

Os pensamentos, desgovernados, precipitavam-se no abismo de agruras.

E diante de si buscava abrigar-se num olhar. Um doce e terno olhar de aceitação, de redenção

 

Onde cabia o universo. O inteiro mundo de uma menina desamparada.

Um olhar que via sem julgar ou questionar. Onde pudesse sentir alívio da dor, da perda, da rejeição.

 

 
E, por um instante, ainda que efêmero, desfrutar o direito de ser, de existir, de ocupar seu lugar num doce olhar.

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Refúgio Silente

 

O que há no silêncio?
O vazio das palavras não ditas,
ou o consolo dos sons recolhidos,
como se cada pausa fosse um gesto,
um afago entre ruínas?

 

Ali, onde os ruídos cessam,
o espírito se assenta em si,
Despido de alarde, de urgência,
e deixa-se estar. Apenas ser.

 

Não há exigência de fala,
nem cobrança de presença ruidosa.
É possível ausentar-se, desaparecer,

esconder-se, esvaziar-se.

 

Quando o mundo pesa
e os olhos se molham por dentro,
o silêncio a recebe inteiro,
com seus escombros, suas frestas,
seus cacos cintilantes.

 

As mãos não tremem, apenas repousam.
O peito não grita, não ouve.
As memórias vêm, uma após outra,
desnudas, a passos lentos,
e sentam-se ao lado, também em silêncio.

 

Agora, quando a voz cala
e o respirar torna-se verso,
ela lembra que o silêncio,
quando escutado com ternura,
cura sem tocar, ampara sem falar,
abraça sem invadir.

 

E nesse recolhimento sereno,
sente-se coesa, apesar das chagas.
Um lar sem muros, um templo sem altar.

 

Alheia a excruciante dor e solidão que verte copiosamente,

aferra-se ao silêncio, o único lugar onde não precisa ser outra,

apenas ela mesma.

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Rastros do tempo

 

Passa o tempo

com a lentidão dos instantes mais belos

e a pressa cruel dos que se foram



Deixa rastros nos vincos da pele,

Nos fios que prateiam a cabeça,

nos olhos cansados que lentamente aprendem a ver

 

Habita nos detalhes,

no cheiro de bolo no forno, no riso faceiro

no corredor da infância,
no som abafado de um nome que já não se diz

 

O tempo não leva tudo.

Guarda fragmentos nas paredes da memória,

no tecido desgastado, nas dobras das cartas

jamais enviadas, nas saudades sussurrantes

 

Nós desatados que ainda apertam.

Cicatrizes que ainda sangram.

Lembranças que insistem em não se apagar.

Dores que não saram

 

Há amor no tempo.

Mesmo no esquecimento,
mesmo no que se perde, porque o que foi um

dia vivido não se desfaz, apenas se transforma

 

A menina que outrora corria na chuva,

pés descalços, ainda existe nela,

ainda guarda a inocência dos bonecos.

O riso fácil ainda mora em seus lábios,

como um longínquo ecoar

 

E diante do espelho,

não é apenas o tempo que dói,

mas o que ele deixa para trás:

as esperas que não voltam,

os abraços interrompidos, o insuportável

peso das acusações, o pavor do abandono

 

Mas há beleza também.

Na permanência do que importa.

Na saudade que acaricia.

Na certeza de que amar, um dia

já foi possível, e isso basta para eternizar.

 

O tempo não é vilão.

Apenas um poeta severo,

que escreve com rugas, com perdas,

com memórias esparsas e ensina que

viver é deixar marcas naquilo que não se vê.

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Apaixonei-me por ti

 

Apaixonei-me por ti,

Quando teus pensamentos qual música revelaste,

Sobre o silêncio que se abateu

E as perguntas que em mim semeaste.

 

Apaixonei-me por ti,

Quando o teu nome, hesitante, emergiu,

Qual melodia imperfeita,

De teus lábios cuja beleza me atraiu.

 

Apaixonei-me por ti,

Pela luz dos teus gestos, nos dias cinzentos,

Por tua forma de preservar o pequeno,

Como se fosse um gigante em sentimentos.

 

Apaixonei-me por ti,

Pela elegância que te habita,

Que torna belo o simples,

E a energia que me dás, infinita.

 

Apaixonei-me por ti,

Por tua mente inquieta, que reflexões singelas cria,

Como quem recolhe relíquias,

Para a aura que te acompanha a cada dia.

 

Apaixonei-me por ti,

Pelo silêncio que me dizes,

E o rastro de vida que deixas

Nos que te ouvem e tornas felizes.

Eduardo Cordeiro

Eduardo Cordeiro destaca-se na sua trajetória pelo compromisso com a palavra e a ação. É estudante de Letras na UFMG, ele transformou a superação da gagueira infantil em uma paixão pela comunicação e oratória. Essa mesma dedicação se reflete em seu trabalho profissional com prevenção de acidentes e no voluntariado em comunidades latino-americanas. Nos momentos de lazer, encontra refúgio no xadrez, na música e no cinema. Sua jornada é guiada pela crença na esperança de um novo mundo. 

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